*Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Em
época de mudança de ano, o tempo prega em nós
uma peça de metalinguagem. Gostamos de falar do tempo
quando nos percebemos reféns dele, como se assim, ao
tomar consciência da nossa submissão, aliviássemos
o jugo da angústia de envelhecer. No clima esotérico
em torno do réveillon, paira, mesmo sobre os corações
mais insensíveis, um senso de autoreflexão, surge
uma oportunidade de fechar para balanço o calendário
interno e abrir-se para planejamento. Parece haver uma mística
no fato de se encerrar um ano e se iniciar outro.
Nós, apesar de filhos da globalização,
somos netos de uma civilização judaico-cristã,
cuja cultura desenvolveu e articulou duas formas distintas de
se compreender o tempo: a hebraica e a grega.
A cultura hebraica que forjou a Bíblia possui uma concepção
linear do tempo e uma visão otimista da história;
o passar do tempo é, para o semita, oportunidade de se
situar na linha das gerações sagradas, afirmando-se
como personagem ativo da construção do mundo.
Figura que ilustra essa concepção é Abraão,
patriarca do povo judeu. Ele sai da cidade de Ur na Caldéia
e parte, desapegado e decidido, para realizar seu caminho, fundando
a grande busca de Israel pela terra prometida, sempre à
frente.
Já a cultura grega possui uma visão pessimista
do tempo. Na mitologia helenística, Crono, deus do tempo,
é um pai que devora seus próprios filhos. Odisseu
é a personagem que torna visível o quanto é
caro aos gregos o mito do eterno retorno: ele vai à guerra
de Tróia e faz de sua vida a peregrinação
de volta para casa. O tempo aqui é um ciclo, uma eterna
nostalgia, uma dura pena da qual o corpo, cárcere da
alma, busca se libertar.
O nosso senso comum providenciou uma mistura dessas duas abordagens,
de maneira que a maioria das pessoas, por mais pós-modernas
que sejam, experimenta uma confusão de espiritualismos
ligados ao tempo, numa gama de atividades pré-modernas.
As previsões e os rituais de passagem são sinais
dessa tendência. Comer lentilhas, encomendar um mapa astral,
tomar um banho de pipoca, fazer uma campanha de libertação
ou rezar missa à meia-noite são maneiras de expressar
essa convicção de que o tempo é sagrado
e se auto-regula. É como se quiséssemos convencer
a nós mesmos de que estamos à mercê dos
ciclos cronológicos; ou como se o simples fato de mudar
um número no calendário atraísse novas
perspectivas de vida, cheias de bênção ou
maldição, dependendo das circunstâncias.
Sem ceder a um racionalismo estraga-prazeres, virada de ano,
por si só, não significa em nada mudar de situação,
migrar do pior para o melhor, do velho para o novo. Não
é o ponteiro que corre, mas a programação
da agenda que poderá fazer de 2006 um ano realmente novo.
Depende única e exclusivamente de nós.
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Juliano Ribeiro Almeida, 25, é o diácono administrador
da paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES. E-mail:
julianorial@gmail.com
