ALTER EGO


*Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


Ontem à noite assisti ao filme Se eu fosse Você, dirigido por Daniel Filho e estrelado por Tony Ramos – bom como nos velhos tempos sem estrangeirismos forçados –, Glória Pires, Thiago Lacerda e Glória Menezes, com participações especiais do próprio Daniel e seus colegas Jorge Fernando e Dennis Carvalho, além de Patrícia Pillar, Ary Fontoura e outros. O enredo, sem estragar em nada as surpresas, é o seguinte: por uma circunstância cósmica, marido e mulher, após uma discussão, trocam de corpos e se vêem obrigados a ocupar, durante alguns dias, o lugar um do outro. A idéia é meio manjada, mas o arranjo ficou bastante bom.

Se aumentarmos um pouco o grau de nossas lentes, podemos até dizer que o thriller nos saiu um pequeno tratado – bem prático e simplificado, é verdade – de antropologia. A grande tirada da vez de Daniel Filho foi a questão da alteridade, especialmente na vivência de um casal urbano. Aparecem aí temas como a confiabilidade e o diálogo no casamento, perpassados por uma grande questão de gênero e, finalmente, por um plano de fundo que envolve a forma de se articularem os papéis que cada um desempenha na sociedade, a importância de se valorizar o que o outro faz e de interagir com ele para crescer e fazê-lo crescer.

A chave da questão é essa: para a convivência harmoniosa, ou pelo menos pacífica, baseada em conceitos tão elementares e escassos como a tolerância, é necessário colocar-se no lugar do outro, pôr-se a olhar a realidade a partir do outro, saindo de si mesmo para encontrar a verdade que também está nele. No filme, Cláudio é um publicitário com problemas na agência e sua esposa, Helena, é uma professora de música que não consegue se afirmar e transcender sua futilidade. Ao trocarem de corpos, eles são obrigados a assumir um o lugar do outro na vida. O desafio é passar a olhar o mundo do ponto de vista do parceiro.

O interessante no enredo é que eles não apenas dão conta de fingir ser o outro, mas acabam imprimindo um pouco do que são naquilo que o outro faz; e tudo vai ficando melhor do que estava antes. A sensibilidade feminina de Helena leva a campanha publicitária de Cláudio a ser mais profunda; por outro lado, a criatividade de Cláudio inova e energiza o coral de Helena. Tudo vai encontrando o equilíbrio e os fazendo aprender que o crescimento está não na auto-afirmação, mas na alteridade.

Fernando Pessoa já prescreveu: “põe quanto és no mínimo que fazes”. A autenticidade é o que todos querem para ser felizes. Ser autêntico, para lembrar Heidegger, é o princípio e o fim da sabedoria. Mas o caminho que leva ao outro é o mesmo caminho que nos leva ao mais profundo de nós mesmos. Cláudio e Helena só conseguiram acertar na vida profissional e no casamento quando foram obrigados a participar mais da vida um do outro. E isso não é filosofia pura nem auto-ajuda barata: é apenas o resultado de uma ida ao cinema sem maiores pretensões.

* Juliano Ribeiro Almeida, 25,é membro da Academia Calçadense de Letras e diácono administrador da paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES. E-mail: julianorial@gmail.com

 



 

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