Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
A
Igreja reconhece como revelação divina somente
a Sagrada Escritura e a tradição doutrinal que
provém dos apóstolos. O que foi revelado até
João, o último apóstolo a morrer, foi levado
em conta pela Igreja na definição do que era digno
de fé por parte dos cristãos. Nada, portanto,
que pretenda contradizer, deturpar ou superar esta revelação
fundante merece crédito.
Ao longo dos séculos, sempre que uma revelação
particular se apresentou, a Igreja teve a serenidade de apaziguar
o ânimo exaltado das massas crentes e submeter as evidências
mais piedosas a uma minuciosa investigação, enquanto,
no plano espiritual, observava a colheita dos frutos da tal
nova devoção. Se, por exemplo, uma suposta aparição
gera um clima favorável ao espírito de penitência
e conversão, levando as pessoas a uma comunhão
com a Igreja, então o culto no local é autorizado
e acompanhado de perto, ainda que nunca se proponha tal mistério
à obrigação da fé de todos.
Mas os casos de Fátima em Portugal e Lourdes na França
– bem como alguns outros santuários em que o culto
é legitimado pela Igreja – apresentaram-se como
fenômenos sobrenaturais a partir de videntes que transmitiam
mensagens captadas em locuções interiores ou êxtases
místicos; e tais mensagens, na verdade, nada acrescentavam
ao conteúdo original da fé cristã, enquanto
fomentavam um fervor religioso adquirido numa experiência
sobretudo emocional. Apesar do testemunho de curas físicas
e outros milagres, de qualquer forma, tais “aparições”
nunca saíram do âmbito humano; a alma sempre foi
o ponto de partida e o de chegada dos fenômenos.
O burburinho em torno das famosas formiguinhas no município
da Serra vem provocando crescente polêmica, com a ridicularização
de um lado e uma cega apologia de outro, enquanto ambas deveriam
ser evitadas. O incômodo deste caso está exatamente
no foco do fenômeno: o que deveria ser apenas a forma
tornou-se o conteúdo, ou seja, as formigas fazem mais
sucesso que a suposta Virgem. Além disso, o fenômeno
acontece não no ser humano, mas na natureza, na ação
de insetos sobre um vegetal; isso poderia levar a um retrocesso
ao mundo medieval, pré-moderno, uma visão animista
e encantada do cosmos, o que o cristianismo superou fundamentalmente.
Outro problema é a imperfeição do fenômeno:
figuras infantis, erros de ortografia, citações
arbitrárias da Bíblia, numa espécie de
cabala do tempo das cavernas. Também o exagero, tanto
de tempo (desde 1996!) quanto de material (mais de 10 mil folhas!),
causa estranheza; biblicamente, Deus costuma ser menos prolixo
e redundante.
Parece que nenhuma resposta definitiva ainda se pode dar aos
fenômenos na Serra sem precipitações imprudentes.
Outras manifestações hoje respeitadas foram inicialmente
rechaçadas como fanatismo ou charlatanismo. Por outro
lado, a religião tem um papel muito mais importante para
o mundo atual do que exibir formigas-prodígio que conclamam
à oração.
