CHEQUE CONFIANÇA – O crédito da fé no mundo do crediário –

Juliano Ribeiro Almeida
juliano.ribeiro@broinha.com.br

Este artigo foi publicado em setembro de 2003 pela revista REDES, do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória-ES em parceria com a Faculdade Salesiana de Vitória.

“Lembre-se que o crédito é dinheiro”
B. Frankli
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Na mesma onda da crescente oni-pre-potência da economia sobre pessoas e valores, nos mercados de todos os âmbitos, vem se instalando, com a força de uma tendência que veio para ficar, o crédito como o acessório mais “essencial” para a vida na sociedade contemporânea. Trata-se de uma revolução silenciosa, iniciada desde que o capitalismo é capitalismo e agora cada vez mais perceptível por todos. A hora não é mais do bom e velho dinheiro vivo, nem das folhas de cheque multicores. Quem comanda a grande rede de articulação econômica e a pesada questão da mobilidade social são as tão famosas “linhas de crédito”. Pode mais quem tem mais crédito, quem é mais confiável financeiramente, quem apresenta indícios mais convincentes de confiabilidade.

O crédito é um jogo de confiar desconfiando. Confia-se porque arrisca-se; desconfia-se porque estabelece-se juros e combinam-se multas para o caso de o acordo não se efetuar. Dar crédito é ser otimista em alguma coisa, por mais pessimista que se seja. Num tempo em que não se confia mais em ninguém, esse acesso de “crença no homem”, no mundo dos negócios, surpreende. Se não fosse mais uma estratégia capitalista de sobrevivência, seria até esperançoso perceber que o mercado não é tão desumano assim. Marx e Engels previram que o capitalismo, com sua brutalidade explícita, produziria “seus próprios coveiros” ; mas eles estavam enganados, porque está provado – e todos sabem disso – que a característica mais importante do sistema capitalista é a capacidade de se transformar, adequando suas leis e teorias a qualquer eventualidade histórica e geográfica que encontrar pela frente. Talvez o lado frio e calculista dos balancetes econômicos apenas tenha se dado conta de quão lucrativa pode ser a dimensão afetiva do ser humano. E já que não se pode vencê-la, negando-a descaradamente, une-se a ela, levando vantagem, é claro.

Basta observar as várias e novas empresas de crédito pessoal – que têm se difundido mais que seitas pentecostais – para se entender essa nova lógica, dita “humanitária”, do lucro. O marketing geralmente apela para algo como uma amizade entre o transeunte e a prestadora de serviço. Ao passar e ver aquelas figuras de notas e moedas, seguradas por um artista de papelão tamanho natural na vitrine, sente-se convidado a entrar para conferir a proposta do tipo “leve dinheiro na hora, sem burocracia”, ou “faça um empréstimo com quem acredita em você”, ou ainda “não deixe para amanhã o que se pode comprar hoje”.

Nos programas de governo mais atuais, observa-se também o enfoque dado às “linhas de crédito” como fonte de desenvolvimento, seja na indústria, nas pequenas empresas ou no setor agrário. O governo deve dar crédito ao investidor, emprestando dinheiro a juros mais baixos, para devolução a prazos mais longos, naquelas prestações que se estendem a perder de vista. O dinheiro público financia a iniciativa privada, a-creditando que ela será fiel e contribuirá para a geração de riquezas nacionais. Da mesma forma, o próprio governo federal, vez ou outra, precisa recorrer às instituições financeiras internacionais para buscar empréstimos a serem injetados na economia do país; e a condição para esses créditos bilionários é a segurança da responsabilidade fiscal. É por isso que, quando deixamos de ser críveis no mercado mundial, aumenta assustadoramente a taxa do chamado risco-país. Todas as movimentações das finanças seguem unicamente a ordem da credibilidade.

Dar crédito em tempos de crise é apostar no outro, dar um voto de confiança, metáforas do que seria, num humanismo, acreditar no ser humano. O verbo que expressa a ação de dar crédito é o “creditar”, próximo de “acreditar”, que é sinônimo de “crer” . Dar crédito é, portanto, uma atitude de fé! Crer em Deus, por analogia, seria dar crédito a Ele, por meio de sua Revelação. Aqui as previsões modernas são contrariadas. Grandes pensadores – Hegel, Freud, Nietzsche, Sartre e os articuladores da pós-modernidade em geral – profetizaram, cada um com seus argumentos, o fim dessa atitude submissa chamada fé, que, de certa forma, negaria a razão e a liberdade. Segundo eles, a emancipação do ser humano e o “esclarecimento” de suas potencialidades marcariam o início de uma nova fase da história da humanidade, desvencilhada de toda e qualquer subordinação humilhante.

O que seria irracional e incompatível com as idéias do super-homem pós-moderno tornou-se uma fonte inesgotável de criatividade mercadológica. Parafraseando o autor da Epístola aos Hebreus, se “a fé é um modo de possuir desde agora o que se espera, um meio de conhecer realidades que não se vêem” , o crédito, como adaptação dessa resposta religiosa aos moldes do capital, torna-se o elemento chave para garantir o equilíbrio nos contratos sociais. E “possuir desde agora o que se espera” não é justamente o que o homem de negócios quer quando dá crédito a alguém?

São Paulo afirma que “a fé de Abraão lhe foi creditada como justiça” . Pela fé, Abraão tornou-se crível diante de Deus e diante dos homens. Ele foi justificado só pelo fato de ter o crédito da fé. Tudo bem que, segundo o escritor sagrado, essa credibilidade lhe tenha custado o quase-sacrifício de seu único filho Isaac como provação – algo que hoje se poderia tranqüilamente chamar análise de risco. Mas o que importa é que Deus, segundo o texto sagrado, viu em Abraão a sinceridade de sua intenção, a fidelidade à aliança antes feita, e resolveu apostar nele o que tinha de mais precioso: o projeto de salvar a humanidade.

Nas alianças que Deus fez com seu povo, a misericórdia sempre se fez notar concretamente na decisão de dar crédito sem nenhuma garantia em troca. Às vezes, a Sagrada Escritura chega a considerar Israel como herança de Deus ; outras vezes, Deus é que se faz a herança de Israel (Paulo, na Epístola aos Efésios, fala do “Espírito Santo, adiantamento da nossa herança” ); e ser portador de uma herança significa “possuir desde agora o que se espera”, agir em função de algo que ainda não se tem em mãos. A relação entre Deus e a humanidade se dá, portanto, na dinâmica do crédito total.

No Antigo Testamento, os escritores sagrados perceberam que, no decorrer da história, Deus deu todo o crédito a Israel, que nem sempre foi fiel. Até que a “nova Aliança” veio selar definitivamente um eterno pacto crediário entre o céu e a terra: mesmo sendo o credor, Deus se fez avalista e acabou por se tornar o devedor para saldar as nossas dívidas. Esse é o ápice da chamada “economia” da salvação: o sagrado intercâmbio entre o céu e a terra.

O admirabile commercium! Creator generis humani, animatum corpus sumens, de Virgine nasci dignatus est; et procedens homo sine semine, largitus est nobis suam deitarem – Admirável intercâmbio! O Criador da humanidade, assumindo corpo e alma, dignou-se nascer de uma Virgem; tornando-se homem sem intervenção do homem, nos doou sua própria divindade!

Há que se cuidar, com essa visão comparativa de termos aleatórios, para não se empobrecer a compreensão da gratuidade de Deus: “é pela graça que sois salvos, mediante a fé” . Entendemos a redenção na ótica do amor infinito do Criador pelas suas criaturas. A idéia para a qual chamamos a atenção é a do fundo religioso das teorias econômicas modernas. O fato é que, ao mesmo tempo em que os textos sagrados foram se apropriando metaforicamente de linguagens humanas para um discurso sobre Deus – faça-se notar a pedagogia do próprio Jesus: “não lhes falava a não ser em parábolas” –, existe também, por parte da teoria capitalista, uma sutil apropriação de termos religiosos para expressar relações públicas de compra e venda. Se a religião consegue mesmo “re-ligar” o ser humano à divindade (e se for esta realmente a origem do termo religião), nada demais em aplicar algumas de suas máximas à maravilha do mercado, que é capaz de “re-ligar” o homem ao seu impulso primitivo de consumir.

Estamos em tempos de grande oferta e grandíssima procura de credibilidade tanto no mercado quanto nas religiões. A começar pelo Fundo Monetário Internacional até as pequenas lojas coloridas do centro da cidade, passando pelos agiotas que sempre estão por aí para o que der e vier (e que vão muito bem, obrigado...), as agências de crédito, mais do que nunca, estão tendo que apostar nas pessoas para sobreviver. Enquanto isso, alguns grupos religiosos preferem investir no demônio, que parece ser mais confiável. Mas isso já são outros quinhentos...




 



 

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