Gilberto
Vieira de Rezende
calcadense@bol.com.br
É
preciso entender, primeiro, qual o sentido da criação
de cotas para negros, índios e alunos de escolas públicas,
para ingresso na universidade pública. Eu ainda não
captei qual seria a boa intenção na implementação
de cotas para os seguimentos relacionados acima. Se for para
que o país pague “uma dívida histórica
para com seu povo pobre e sofrido”, essa, teoricamente,
é impagável. Mas, pelo jeito, o governo esboça
vontade de pagá-la, entretanto pretende expurgar os juros
e as correções e, o que é pior, as parcelas
que se pretende quitar são as atuais e não as
antigas. Seria o caso de um verdadeiro estelionato educacional.
A proposta é demagógica na medida que mexe e excita
as paixões e aspirações de grande parte
da população que almeja poder fazer um curso superior,
mas que, não dispondo de educação básica
de qualidade – que é um dever constitucional do
Estado, se sente duplamente impedida - educacionalmente, de
freqüentar um curso superior numa universidade pública
e, financeiramente, de estudar em uma faculdade particular.
E é hipócrita na medida que, apesar das aparências
no sentimento de querer atacar o problema da educação,
o que existe é uma impostura, um fingimento, uma enganação,
pois não atacam o problema, ou melhor, varrem-no para
debaixo do tapete.
Vejamos
um exemplo do que poderá acontecer, nos dias atuais,
quando um aluno cotista entrar na universidade. Sendo ele negro
ou índio e aluno oriundo de escola pública de
ensino médio, muito provavelmente seu nível de
conhecimento educacional varia entre as notas 35 e 45, numa
escala máxima de 100. Na universidade, além do
impacto normal da mudança de nível do ensino,
há, também, a mudança na forma de encarar
os estudos. Não há mais a preocupação
de “passar de ano”, agora existe a necessidade de
entender o conteúdo das matérias para, no final
do curso, sair com o diploma de profissional da área
escolhida. Honestamente, alguém pode achar que alunos,
com nota média na faixa dos 35-45 pontos nas provas do
ENEM, têm condições de fazer um bom curso
superior e ser um profissional competente, com as exigências
que o mercado necessita? O que vai acontecer é óbvio,
o próprio mercado irá fazer a discriminação
desses futuros formandos e, aí sim, o estado brasileiro
estará proporcionando condições para que
haja dois tipos de profissionais: os cotistas e não cotistas.
Se,
por outro lado, pretende-se dar ao povo educação
de qualidade, não seria propiciando acesso ao último
nível de ensino que se alcançaria essa tão
almejada qualidade. Será que alguém pensa que
alfabetizar um adulto é mais fácil que alfabetizar
uma criança de 6 anos? Para quem tem dúvida, a
resposta é não. Basta ver o desempenho dos alunos
oriundos das escolas para adultos e compará-lo com os
dos alunos de escola de ensino regular. Não precisa ir
longe para fazer essa comparação, pois o ENEM
está ai para escancarar a situação deplorável
do ensino público no Brasil. Veja os resultados alcançados
pelo grupo de alunos adultos ( Escola Hercílio Cordeiro
) e dos alunos do Colégio de Calçado. Para os
primeiros, a média alcançada no ENEM foi de 30,59,
contra 42,18 dos alunos do Colégio.
Então
qual seria a saída para a educação? Não
existe solução tranqüila e nem de curto prazo
para um problema que vem de décadas passadas. Talvez
uma saída emergencial seja olhar em volta e ver o que
está acontecendo com o ensino superior. Atualmente os
melhores alunos das universidades públicas saem das escolas
particulares e, em menor escala, dos centros federais de educação
tecnológica. O governo federal criou o FIES para financiar
os estudos de graduação dos alunos numa faculdade
particular, na sua maioria oriundos da escola pública
e que não conseguiram vaga na universidade pública
ou que esta não dispunha do curso pretendido pelo aluno.
Aliás, diga-se de passagem, não constitui obrigação
do Estado propiciar educação superior a todos
que queiram. Já que foi aberto esse precedente do FIES,
a solução imediata seria ampliá-lo, e,
concomitantemente, criar o FIEM ( Financiamento Estudantil para
o Ensino Médio ), proporcionando aos filhos das camadas
mais carentes da população, educação
de melhor qualidade e, conseqüentemente, maior conteúdo
educacional para enfrentar a disputa por uma vaga na universidade
pública.
A
ampliação do FIES e a criação do
FIEM poderiam ser implementados por tempo determinado, por exemplo
20 anos, atendendo, assim, aos anseios de todos. Nos primeiros
04 (quatro) anos, técnicos dos governos federal, estaduais
e municipais desenvolveriam, em conjunto, uma proposta para
a educação da pré-escola ao ensino médio
onde, ao final desse período seria implantada a nova
proposta para o ensino no país. Nessa nova proposta poderia
constar, por exemplo, uma contínua avaliação
do aluno ao longo do curso, uma espécie de histórico
escolar. Manteria o ENEM e implementaria o ENEF ( para o ensino
fundamental ), avaliando os alunos dos dois últimos anos,
respectivamente, os do 2º e 3º anos do ensino médio
e os da 7ª e 8ª séries do ensino fundamental.
Os primeiros 08 (oito) anos , dentro do período de 20
anos, seriam, também, para criação de um
plano de carreira para os professores e exigência de diploma
universitário para ingresso na carreira, sempre através
de concurso público. Ao final do período de 20
anos, o aluno que estivesse ingressando na primeira série
do ensino fundamental começaria a ser avaliado ao longo
de sua jornada de 11 ou 12 anos e, após, dependendo do
rendimento educacional e da nota no ENEM, poderia pleitear o
ingresso na universidade pública, sem a necessidade de
prestar vestibular. Essa avaliação do histórico
escolar seria interessante pois, no caso de um bom rendimento
apresentado pelo aluno, ele poderia ser convidado a ingressar
numa faculdade particular, sem necessidade de pagar a mensalidade
e até mesmo recebendo uma pequena ajuda de custo. Com
um bom histórico escolar, o aluno poderia escolher em
qual instituição deseja se graduar.
O
que é preocupante nessa história de cota, é
que os alunos não estão brigando por melhorias
na qualidade do ensino fundamental e médio. A briga é
para entrar em uma universidade pública, sem o devido
embasamento educacional. O ensino superior não é
uma obrigação constitucional do Estado, mas é
do interesse do Estado que seus jovens graduados estejam preparados
para o mercado de trabalho, pois são eles que desenvolverão
novas tecnologias e impulsionarão o desenvolvimento do
país.
