DÉFICIT NA CORRUPÇÃO

Juliano Ribeiro Almeida
juliano.ribeiro@broinha.com.br


A corrupção se corrompeu. Perdeu a dignidade que tinha até a algum tempo atrás. Antes, os instrumentos de investigação eram as solenes “quebras de sigilo”; parlamentares estufavam o peito para dizer que colocavam suas contas bancárias e telefônicas à disposição. Agora, qualquer gravação acaba servindo de prova, ainda que de um grampo qualquer ou de uma câmera escondida fajuta... Chegam a procurar dólares dentro da cueca do cidadão... E o mais deprimente é que estão encontrando! Há pouco tempo, o máximo do escândalo numa CPI consistia em apresentar extratos de contas em algum paraíso fiscal. Agora, a coisa caiu de nível: o dinheiro suspeito aparece em grandes malas coloridas mesmo, de qualquer jeito. A corrupção ficou mais burra, abandonando a tecnologia das transações on line para voltar ao velho dinheiro vivo.

A verdade é que a corrupção está perdendo a graça, deixando de ser interessante. Quando um produto sobra no mercado, desvaloriza-se imediatamente. É a lei capitalista da demanda e da procura. Nem o câmbio nem o pregão estão mais dando muita bola para a corrupção. As denúncias estão perdendo a força. Não há mais o velho PT para gritar diante das câmeras que aquilo tudo é um absurdo. Agora está na moda dizer ao PT aquele “bem feito”, acusando-o de sempre ter se orgulhado da ética em seus quadros – como se ser ético não fosse simplesmente a obrigação mínima para um partido; como se querer ser honesto não fosse uma premissa básica na vida pública, mas um monopólio de quem se acha acima da carne seca.

A coisa está tão desvirtuada, que os parlamentares procurados para falar sobre a conjuntura política (ou pelo menos os únicos que se submetem a isso) não são mais aqueles do tipo Jefferson Peres, Heloísa Helena ou Pedro Simon. Agora o supra-sumo da moralidade é ACM Neto, quando não alguns do próprio PT governista que nem batem nem assopram, mas preferem embromar com máximas do tipo “é preciso investigar”, “não se pode fazer pré-julgamento”. No meio do alvoroço geral, cada um tenta salvar o que puder da sua própria ninhada, a ponto de aparecerem verdadeiras bofetadas na consciência popular, como na propaganda que o PP anda veiculando, ao exibir Severino como se fosse o que de melhor há em Brasília no momento, e a dupla Maluf e Delfim Neto como o maior orgulho do partido em todos os tempos. Tenha dó!

Roberto Jefferson se tornou o ícone controverso do brasileiro médio: tudo parece ser um grande espetáculo, parte integrante da grande ópera que ele vem cantando como embromation, para que todos se esqueçam do tempo em que era mais um homem de peso do governo Collor. Ele quer é ver o circo pegar fogo. Desde as gargalhadas que deu na sacada de seu apartamento por ocasião da queda de Dirceu até ao episódio do olho roxo com que apareceu para depor na Comissão de Ética, tudo o que Roberto Jefferson tem feito é esfregar na cara do brasileiro que política é assim mesmo, um mar de lama que não tem mais jeito. Ele conseguiu fundir a cuca de quase todo mundo, de forma que, mesmo convidado a depor como um réu em potencial, acabou saindo na fita como a parte lesada, a vítima e o mártir do grande esquema do mensalão.

Tanto na reforma ministerial quanto nas mudanças na direção do PT, todos estão pulando do barco com o pretexto de não o deixarem afundar: até Delúbio e Genoino fizeram como Dirceu, demitindo-se para poder provar a própria inocência. Só que ainda não moveram uma palha sequer neste sentido; talvez pelo medo de contarem uma versão que venha em seguida a ser desmentida pelo festival de novidades que aparecem sem parar. A cada dia, uma nova personagem na trama. O elenco está mais amplo em confuso que o da novela América – e tão virtual quanto ele. No mesmo bloco do telejornal é fácil confundir as malas de dinheiro de Marcos Valério com, por exemplo, as do dízimo da Igreja Universal, apesar de ambas serem de fato igualmente inexplicáveis.

Enfim, a corrupção está saindo de moda. Está aos poucos saindo dos foros privilegiados, das elegâncias que tinham as imunidades parlamentares e passando às baixarias de vala comum da criminalidade geral. Tudo está cada vez mais óbvio; o que significa dizer que tudo está cada vez mais falso. O ônus da prova já deixou de ser do acusador pura e simplesmente; este recebe proteção especial para dizer o que lhe vem na telha, sem a obrigação de provar nem de apresentar coerência discursiva. O dilema não é mais entre verdade e mentira, mas sobre a viabilidade ou não de tanta transparência, a conveniência ou não de se dar tanto espaço a isso nos jornais do dia.



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados