O EVANGELHO SEGUNDO JUDAS

Mons. Antonio Rômulo Zagotto
catedral@dci.org.br


1. O que é o Evangelho segundo Judas?

A imprensa anda fazendo um alarde ensurdecedor com a descoberta de um "Evangelho segundo Judas". É um documento trazendo o ponto de vista de Judas Iscariotes sobre a crucificação de Cristo que foi publicado, na semana passada, nos Estados Unidos pela revista National Geographic. O Evangelho Segundo Judas data entre o século 3 e 4 e acredita-se que o documento, um frágil papiro de 31 páginas, seja uma cópia de um original escrito por volta de 150 dC. Ele foi descoberto em Beni Masar no Egito durante a década de 1970 e foi escrito originalmente em cóptico (antigo idioma egípcio). A única cópia do texto foi conservada, autenticada e traduzida agora para o inglês.

2. O que dizem os críticos à respeito desse Evangelho?

"O texto tem uma grande importância historiográfica. Mas, como evangelho, não tem pé na realidade. É ficção", diz Fernando Altemeyer, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Os especialistas explicam que o mais provável é que esse evangelho tenha sido escrito por uma seita gnóstica. Os gnósticos eram cristãos dissidentes que viveram na região do Oriente Médio entre os séculos 2º e 4º e defendiam que Deus havia criado não só o bem - também o mal. Segundo Altemeyer, o Evangelho de Judas se encaixa perfeitamente nessa ideologia. "Na visão gnóstica, Deus quer o mal no mundo para que também haja o bem. Judas denunciou Jesus para fazer a luz vencer sobre as trevas", explica. "Jesus não foi um boi que aceitou ir para o abatedouro. Ele não queria morrer. Não fazia sentido que combinasse tudo com Judas." Andréi Kuráyev, teólogo ortodoxo russo e professor da Academia Espiritual de Moscou, também defende que o Evangelho de Judas não acrescenta conhecimentos sobre a vida de Jesus. "Esse texto apenas amplia nossas idéias sobre as crenças gnósticas daquele tempo", diz. O estudioso russo lembra que, naquele período, principalmente no Egito, existiam diversas correntes pseudocristãs, das quais algumas adoravam os personagens bíblicos mais detestados. Os cainitas, por exemplo, veneravam Caim (o primeiro assassino, que matou Abel, seu irmão). Os ofitas adoravam a serpente que levou à expulsão de Adão e Eva do Éden. Kuráyev também critica o nome do documento, como se fosse um relato do apóstolo. "Não pode ser obra de Judas Iscariotes porque ele se enforcou no mesmo dia em que Jesus foi crucificado. Não pode haver nenhum Evangelho de Judas." Esse é o mesmo raciocínio adotado em relação aos quatro evangelhos aceitos pelas igrejas cristãs. O nome do primeiro livro do Novo Testamento é Evangelho segundo São Mateus porque, acredita-se, foi escrito não por Mateus, mas por seus seguidores. Diferentemente dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, escritos no primeiro século da Era Cristã, os textos gnósticos foram redigidos a partir do segundo século. "Dizer que o Evangelho de Judas revela alguma coisa sobre Judas é a mesma coisa que dizer que um documento escrito 150 anos depois da morte de George Washington possa revelar a mais profunda verdade sobre George Washington", compara Ben Witherington, professor de assuntos ligados ao Novo Testamento do Seminário Teológico Asbury, na cidade de Wilmore, nos Estados Unidos.

3. Que são evangelhos gnósticos?

Os evangelhos gnósticos estão entre os diversos textos escritos sobre Jesus após sua morte. Todos eles são chamados de evangelhos apócrifos, pois não são reconhecidos pela Igreja. A lista inclui, entre outros, os pergaminhos do Mar Morto e o Evangelho de Maria Madalena. Em entrevista à agência católica de notícias Zenit, o padre Thomas Williams, decano da Faculdade de Teologia da Universidade Regina Apostolorum de Roma, disse que o Vaticano nunca se preocupou em esconder os textos apócrifos. "Essa teoria da conspiração foi inventada por autores de livros como O Código Da Vinci. Basta ir a qualquer biblioteca católica e ver que esses textos também estão lá, embora saibamos que não são verdadeiros." O reverendo Donald Senior, presidente da União Teológica Católica de Chicago, nos Estados Unidos, vai além: "Acho que o Vaticano não vai dar a mínima atenção a esse texto". Os evangelhos apócrifos são imitações grosseiras dos evangelhos, escritos por volta dos séculos II a IV, que contém lendas e histórias incríveis sobre Jesus, e que procuram imitar os evangelhos autênticos que temos em nossa Bíblia. Temos notícia de cerca de cinqüenta destes evangelhos, alguns preservados em pedaços, outros em sua inteireza, e de outros só sabemos o nome. Os que foram preservados e podem ser lidos hoje são poucos, e entre eles se encontram O Proto-evangelho de Tiago; Evangelho de Pseudo-Mateus; Evangelho da Natividade de Maria; História de José, o Carpinteiro; Evangelho de Tomé; Evangelho de Nicodemos; Evangelho de Felipe; e Evangelho dos Egípcios. Desde cedo a Igreja Cristã rejeitou estas obras, pois não preenchiam o critério de canonicidade: não foram escritas pelos apóstolos ou por alguém ligado a eles, contradiziam a doutrina cristã, tinham exemplos e recomendações morais e éticas pouco recomendáveis, e seus autores falsamente atribuíram a autoria aos apóstolos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé. Além do mais, suas histórias fantásticas acerca de Cristo claramente revelavam seu caráter especulativo e supersticioso, ao contrário da sobriedade e da seriedade dos evangelhos bíblicos.

3. Existe na Bíblia alguma contradição sobre Judas?

Segundo o Evangelho de Lucas Judas matou-se, enforcando-se: "Então Judas, que O entregara, vendo que Ele tinha sido condenado, foi tocado pelo remorso e devolveu as trinta moedas de prata [...] dizendo: "Pequei, entregando sangue inocente". [...] Atirando as moedas para o santuário, ele saiu e foi-se enforcar..." (Mt 27, 3-5). No entanto o Livro dos Atos dos Apóstolos dá outra versão: "...Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus. Porque foi contado conosco e alcançou sorte neste ministério. Ora, este adquiriu um campo com o galardão da iniqüidade; e, precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. E foi notório a todos os que habitam em Jerusalém;..." (At1,16-19).

4. O que concluir sobre este assunto?

Já em 1968, o general Danillo Nunes, lançou um livro intitulado "Judas: traidor ou traído?".Questões como estas estarão sempre sendo alardeadas. E muitos incautos correrão atrás das fantasias já previstas na Bíblia verdadeira: "... a fim de impedir que alguns continuassem ensinando doutrinas diferentes, e para que não se ocupassem com fábulas e genealogias sem fim; estas favorecem mais as discussões do que o projeto de Deus, que se realiza na fé. A finalidade desta ordem é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia. Alguns se desviaram desta linha e se perderam num palavreado inútil; pretendem passar por doutores da lei, mas não sabem nem o que dizem nem o que dogmatizam. (1Tm 1, 3-7). "E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão heresias perniciosas, e negarão o Senhor que os resgatou, e atrairão sobre si repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas;..." (2Pe 2,1-3). Lemos em 2Timóteo 3.16-17: "Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para refutar, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra".

Outras coisas são meras fantasias...




 

 

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