JESUS E O NATAL


*Juliano Ribeiro Almeida

O Natal colocado diante de nós pelo comércio, ao invés de evidenciar o grande sentido desta data, ao contrário, o obscurece e esconde. A predominância do vermelho sendo que a cor litúrgica é o branco, e do cenário polar enquanto vivemos em plenos trópicos não ajuda quem quer viver com autenticidade essa festa. A figura do papai Noel, já bem distante da duvidosa referência ao bispo são Nicolau, além de não dar espaço para o presépio, passa mais a mensagem de um esoterismo anticristão do que a de Belém. Duendes e renas voadoras estão bem longe dos pobres animais da manjedoura onde nasceu o Cristo. O Natal é, por excelência, a festa da Encarnação do Filho de Deus; então é preciso fazer com que a forma de celebrá-lo também seja “encarnado” em nossa realidade.
Na Igreja Católica, o ciclo litúrgico do Natal do Senhor é uma grande oportunidade de apresentar a pessoa, a obra e a proposta de Jesus Cristo à humanidade, em todos os tempos e lugares. Num momento em que as pessoas se sensibilizam e se unem em torno dos valores da família e da religião, o Natal é muito mais do que um feriado no calendário civil ou uma oportunidade de investir o 13º salário num consumismo compulsivo. Quando a comemoração do nascimento de Jesus Cristo contribui mais para a saúde do sistema capitalista do que para o florescimento dos valores evangélicos, percebe-se que tudo tomou um rumo contrário. O presépio existe para ser ousado e profético. Não se trata de uma obra de arte requintada para se ostentar nos shoppings ou nas vitrines caríssimas. Ao contrário: o menino nascido na pobreza denuncia diretamente o sistema que gera a desigualdade social.
O mundo precisa menos da pompa do Natal e mais daquele que nasceu! Quase tudo que vem à tona na publicidade em torno das festas natalinas é dispensável. Para o cristianismo, na ceia de Natal o realmente importante não é o peru ou o vinho, os presentes, os cartões, mas o espírito de fraternidade e comunhão entre as pessoas. E a originalidade do Evangelho exige ampliar o cenário desta ceia: Jesus Cristo nunca pediu que as pessoas se fechassem com seus familiares para trocar presentes. O critério é outro: “quando você der uma festa, convide pobres, aleijados, mancos e cegos. Então você será feliz! Porque eles não lhe podem retribuir. E você receberá a recompensa na ressurreição dos justos (Lc 14,13-14).
A grande pertinência do Natal é o anúncio de Jesus Cristo e de seu projeto. Ele dividiu a história em antes e depois de si não com obras literárias, feitos políticos ou militares, mas com uma proposta, ao mesmo tempo tão simples e tão desafiadora, que atravessará os séculos permanecendo original: amor, paz, justiça. O Espírito de Jesus continua atuante entre seus discípulos. Para experimentá-lo é preciso, mais que entoar “noite feliz”, fazer com que esta noite seja de fato feliz para todos.

Para se encontrar a originalidade do Natal é preciso mergulhar no conjunto de livros bíblicos chamado Novo Testamento, uma pequena biblioteca de relatos, cartas, sermões e hinos em que os primeiros cristãos deixaram registrada a doutrina de Jesus Cristo. Aí está não uma biografia do fundador do cristianismo, mas sim um compêndio de tudo o que viveu e ensinou um judeu da palestina do século I chamado Jesus de Nazaré.

AMOR
Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos (Jo 13,34-35). O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos (Jo 15,12-13). Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: “Não mate! Quem matar será condenado pelo tribunal”. Eu, porém, lhes digo: todo aquele que fica com raiva do seu irmão, se torna réu perante o tribunal. Quem diz ao seu irmão: “imbecil”, se torna réu perante o Sinédrio; quem chama o irmão de “idiota”, merece o fogo do inferno (Mt 5,21-23).

PERDÃO
Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ Eu, porém, lhes digo: não se vinguem de quem fez o mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda... Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês (Mt 5,38-44). Quando vocês estiverem rezando, perdoem tudo o que tiverem contra alguém, para que o Pai de vocês que está no céu também perdoe os pecados de vocês. Mas, se vocês não perdoarem, o Pai de vocês que está no céu não perdoará os pecados de vocês (Mc 11,25-26). Se você for até o altar para levar a sua oferta, e aí se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a oferta aí diante do altar, e vá primeiro fazer as pazes com seu irmão; depois, volte para apresentar a oferta (Mt 5,24).

PAZ
Estejam em paz uns com os outros (Mc 9,50). Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá (Jo 14,27). O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus (Jo 18,36). Em qualquer casa onde entrarem, digam primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ (Lc 10,5).

SIMPLICIDADE
Sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas (Mt 10,16). Não ajuntem riquezas aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões assaltam e roubam. Ajuntem riquezas no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não assaltam nem roubam... Não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa (Mt 6,19-20.25)?


Tenham fé em Deus. Eu garanto a vocês: se alguém disser a esta montanha: “Levante-se e jogue-se no mar, e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá”. É por isso que eu digo a vocês: tudo o que vocês pedirem na oração, acreditem que já o receberam, e assim será. (Mc 11,22-24). Não fique perturbado o coração de vocês. Acreditem em Deus e acreditem também em mim (Jo 14,1)

ARREPENDIMENTO
Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores para o arrependimento (Lc 5,32). O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem no Evangelho (Mc 1,15). Haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão (Lc 15,7).

SERVIÇO
Quem procura conservar a própria vida, vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la (Mt 10,39). Vocês sabem: os governadores das nações têm poder sobre elas, e os grandes têm autoridade sobre elas. Entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se servo de vocês. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir, e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos (Mt 20,25-28). Se alguém quer servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo. Se alguém serve a mim, o Pai o honrará (Jo 12,26).

HUMILDADE
Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado (Lc 14,11). Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,29-30).

* Juliano Ribeiro Almeida, 25, é o diácono administrador da paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES. E-mail: julianorial@gmail.com

 



 

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