JUSTOS OU JUSTICEIROS

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


Nas campanhas envolvidas neste referendo de 23 de outubro sobre a proibição do comércio de armas e munição no Brasil, estão em jogo duas grandes vertentes políticas opostas, ambas escondidas sob argumentos convincentes, pretensamente preocupados com o problema da violência. É preciso ser perspicaz para perceber a origem das ideologias envolvidas, a partir de onde falam para defender sua opinião e tentar convencer os milhões de votantes de que estão do lado da paz.

Se é possível falar em “lados” numa questão como essa, os que defendem o “não” no referendo são principalmente pessoas marcadas por forte influência militar, senão por forte interesse econômico – seja na indústria de armamentos propriamente dita (incluindo parlamentares lobistas) seja no tráfico de drogas e no crime organizado em geral (aliás, proibir o porte de armas e munição seria desorganizar o crime de vez...). Quem defende a venda de armas não está definitivamente preocupado com a segurança das pessoas, com o slogan da paz ou com o pai de família que poderia ter evitado o assalto em sua casa se tivesse podido atirar. Esses são os que dizem: “se nossos policiais não têm condições, vamos fazer o trabalho deles”; pena que não aplicam esta lógica para o igualmente fracassado programa Fome Zero...

Do “lado do sim” estão principalmente igrejas, organizações não governamentais e movimentos sociais; eles querem levar a discussão sobre a violência mais a fundo, alegando que ela é um vasto problema social, que não vai ser resolvido armando as vítimas, mas desarmando os criminosos. Acreditam seriamente que a violência é uma bola de neve e que o ser humano não sabe até onde pode ir contra seu semelhante num momento de raiva; dizem também que é preciso evitar esses acidentes domésticos horríveis envolvendo armamentos e que isso só se faz evitando os armamentos, já que a ocorrência mesma de acidentes não há como controlar.

Esse “lado do sim” defende, ainda, que o porte de armas compete exclusivamente ao Estado – por isso ele possui as forças armadas, as polícias, as secretarias de segurança pública. Mesmo do ponto de vista do direito, o argumento da legítima defesa não se sustenta: se a defesa for armada, passa a ser contra-ataque e deixa de ser legítima; isso contraria todas as orientações policiais de que o comprovadamente melhor num assalto é não reagir, e legitima a vingança ao voltar aos tempos dos “justiceiros”, aqueles que queriam fazer a justiça com as próprias mãos, ainda que tivessem que sujá-las de muito sangue.

Enfim, deste lado do “sim” estão principalmente as vítimas da violência doméstica. Eles dizem que a arma de fogo não solucionou o problema que tinham em casa, mas criou outro insolúvel, que foi a morte ou a invalidez de um ente querido e um trauma que tirou a paz de todos.

 



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