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Para
Quem Não Assistiu Cinema Paradiso
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Elaine de Fátima de Almeida Lima
elainelima@broinha.com.br
Para
quem não assistiu o filme de Giuseppe Tornatore, Cinema
Paradiso, o Cine São José realmente poderia não
representar nada no cenário histórico de uma cidade
como São José do Calçado. A história
do menino Totó, protagonizado por Salvatore Cascio, se
confunde com a minha, de infância. Cresci querendo ter
idade para entrar no cinema, pois só podia entrar na
matinê. Quando a idade me permitiu entrar, o cinema já
não existia mais. E passei a ter o sonho de que um dia
alguém comprasse o prédio e o restaurasse para
que voltasse a funcionar. Aí eu poderia realizar um de
meus melhores desejos.
Para
quem não assistiu Cinema Paradiso, a história
se passa nos anos que antecederam a chegada da televisão
(logo depois do final da Segunda Guerra Mundial), em uma pequena
cidade da Sicília o garoto Totó (Salvatore Cascio)
ficou hipnotizado pelo cinema local e procurou travar amizade
com Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista que se irritava
com certa facilidade, mas paralelamente tinha um enorme coração.
Todos estes acontecimentos chegam em forma de lembrança,
quando agora Totó (Jacques Perrin) cresceu e se tornou
um cineasta de sucesso, que recorda-se da sua infância
quando recebe a notícia de que Alfredo tinha falecido.
Aqui,
me permito incluir um texto de João Luís Almeida
Machado
Mestre em Educação, Arte e História da
Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo); Professor universitário atuando na Unitau (Universidade
de Taubaté) na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava,
SP; Colunista para assuntos de Educação no Portal
Planeta Educação.
“Uma
declaração de amor a arte
‘Cinema Paradiso’
Giuseppe
Tornatore realizou o sonho de um grande número de cineastas
ao produzir com seu "Cinema Paradiso" uma verdadeira
declaração de amor. Não se trata de mais
um filme romântico bem sucedido, nem tampouco de um clássico
do porte de "Casablanca" em que Ingrid Bergman e Humprey
Bogart imortalizaram o Marrocos e nos deixaram enternecidos
em função de seu romance. Tornatore notabilizou-se
por ter feito um filme que sacramenta a paixão que os
cineastas sentem por seu objeto de trabalho, pela essência
de seu cotidiano, pela arte que brota através das câmeras
em celulóides, por aquilo que nos permite vivenciar e
fantasiar emoções ao redor do mundo todo, o cinema.
Poucos foram os "movie-makers" capazes de tal empreitada.
Talvez Woody Allen com o fantástico "A Rosa Púrpura
do Cairo" também tenha conseguido nos fazer sentir
um pouco aquilo que alimenta as esperanças e as emoções
de quem está por trás das filmagens, tão
diretamente ligado a todo processo de realização
dos filmes. Porém, diferentemente da fantasia dos personagens
que saem da tela apresentada em "A Rosa Púrpura",
o filme italiano nos fala sobre a relação cineasta-cinema
de forma notadamente autobiográfica.
A trama começa com o menino Totó, numa Itália
abalada pela guerra. O próprio personagem sofreu um revés
irreparável, seu pai foi enviado para os campos de batalha
e não voltou. Órfão de pai, vivendo apenas
sob a tutela da mãe, Salvatore (numa performance digna
de nota do menino Salvatore Cascio) tem uma grande paixão
e, como todas as pessoas envolvidas em situações
como essa, arrisca-se diversas vezes para que esse amor seja
vivido com intensidade. Em algumas ocasiões utiliza o
dinheiro que a mãe lhe deu para comprar mantimentos,
realizando seus sonhos, encontrando-se com seu ardente desejo,
indo ao cinema, vendo os filmes. Totó é um amante
da sétima arte.
Nessas
idas e vindas ao Cine Paradiso, Totó acaba, por vias
tortas, tornando-se amigo do projecionista Alfredo (Philipe
Noiret, em mais uma marcante atuação) e sacia
seu desejo de poder assistir aos filmes da cabine de projeção.
A cidade onde vive é uma pequena comunidade, de aspecto
rural, onde há poucas possibilidades de lazer. Como região
interiorana, de país de tradições religiosas
arraigadas, o padre acaba tendo grande eminência entre
as pessoas que ali vivem. Mesmo no cinema o clérigo interfere,
censurando cenas que apresentem beijos ou que denotem minimamente
a noção de sexualidade. As cenas cortadas em virtude
do conservadorismo do padre tornam-se então brinquedos
festejados nas mãos de Totó.
Alfredo por sua vez, além de artífice dos sonhos
como projecionista do cinema, torna-se também (em razão
do convívio e da grande proximidade) um segundo pai para
o menino. Procura orientá-lo e ensina os procedimentos
do trabalho que exerce para o garoto. Há situações
que fazem com que eles se tornem ainda mais próximos,
como quando Totó ajuda Alfredo a aprender a ler e escrever
ou ainda, quando o Paradiso pega fogo. O incêndio acaba
fazendo com que Alfredo fique cego e, que Totó torne-se
o novo projecionista do cinema local. Consuma-se com maior voracidade
o envolvimento do agora jovem Salvatore (vivido por Marco Leonardi)
com os filmes.
O passar do tempo e o advento da maioridade fazem com que seja
necessário um rompimento. O que poderia parecer o fim
de um sonho, acaba concretizando um casamento definitivo entre
o garoto/adolescente/jovem Totó com o cinema. Ele torna-se
um realizador, um cineasta. De admirador das imagens em preto
e branco que povoaram sua meninice e sua adolescência,
de colecionador de fotogramas censurados pelo padre, de projecionista
do Paradiso em sua cidade de origem, Salvatore acabou se tornando
um produtor de sonhos. Suas imagens passam a partir de então,
a encantar milhares de pessoas em seu próprio país
e fora dele.
O início do filme nos mostra Totó adulto, recebendo
notícias de sua cidade natal e tendo que voltar para
lá. Há muito tempo saíra de lá e,
pouco comunicava-se com sua mãe ou com outras pessoas
que ali permaneceram. Parecia querer esquecer-se do que havia
vivido (talvez em decorrência de uma outra paixão
que ali tivera, nesse caso, mal resolvida). No entanto, algo
o levou a voltar. E com a volta, vieram as lembranças;
com toda a nostalgia que o ambiente lhe proporcionou, contou-se
essa verdadeira fábula contemporânea.
"Cinema Paradiso" nos permite acreditar que apostar
em nossos sonhos e paixões pode dar grandes lucros e
dividendos a médio e longo prazo. Há muitos jovens
que abraçam formações e profissões
que podem lhes garantir melhores salários, maior prestígio
ou mais conforto em suas vidas materiais. Conheço diversos
casos assim, em que carreiras como o direito, a medicina, a
engenharia ou a odontologia (nada contra elas, pelo contrário,
são fundamentais; o que se advoga aqui é que elas
não sejam adotadas simplesmente por constituírem
melhores alternativas econômicas para os jovens estudantes)
são as preferidas não por serem estimulantes ou
atraentes para os estudantes, são escolhidas em virtude
de fatores como dinheiro ou status. O que temos como resultado
acaba sendo o surgimento (em muitos casos) de profissionais
eficientes, capazes porém... frustrados.
Há dificuldades em implementar carreiras em artes cênicas,
filosofia ou oceanografia? Ganha-se pouco sendo historiador,
músico ou professor? Ainda existem restrições
de (e no) mercado quanto ao trabalho de veterinários,
psicólogos ou arquitetos? Se esse for seu sonho ou sua
grande paixão, a despeito das dificuldades, vá
em frente. Derrote as adversidades, olhe-as nos olhos e mostre
que sua força é maior, que seu vigor o fará
vencer. Nós, professores passamos por provações
como essas em diversas fases de nossa vida profissional, alguns
desistem, outros, persistem e vencem. Que o exemplo da persistência
de Totó nos anime. Que o amor pelo cinema mostrado em
"Cinema Paradiso" seja uma luz a nos guiar para a
realização dos nossos desejos! Assista e emocione-se!”
As
pessoas não entendem o valor do Cine São José
na história de Calçado. Guaçuí tem
o Teatro Fernando Torres. Porque Calçado não pode
ter um Teatro Darlene Glória? Porque Calçado com
tantos escritores não pode ter um Centro Cultural? Porque
não abrir um espaço onde se pode também
agrupar a Academia Calçadense de Letras? Porque não
convidar a ONG Amigos de Calçado para integrar o espaço
físico?
Quando
se trata de cultura, os valores passam muito além dos
cifrões, mas muito mais perto dos valores que não
se conseguem mensurar em números. No decorrer dos tempos,
o investimento inicial vira pó em função
do retorno que se tem para a comunidade, para os jovens, as
crianças. O que Calçado tem para oferecer ou ensinar
aos seus filhos em termos de Cultura? Nada. Mas tem potencial
grande para isso. Então porque não usá-lo
Fica-se
discutindo que a Prefeitura gastou X para a compra do prédio
e Y para a reforma. Se as pessoas que entravam o desenvolvimento
Cultural, Social, Econômico, etc., de Calçado com
críticas e farpas, o que considero atitudes políticas,
em vez disso tentassem ajudar com sugestões e idéias,
certamente as coisas começariam a acontecer muito mais
rapidamente.
Se
a Prefeitura não toma a iniciativa, é porque o
Prefeito não está nem aí para a Cultura.
Se toma a iniciativa, é porque “deve ter algum
interesse por trás do assunto”. Desse jeito não
há o que fazer, a não ser deixar os pessimistas
vencerem. Mas não sou pessimista e faço um apelo
ao Prefeito: Não desanime. Conclua o projeto e o finalize
da melhor forma que puder.
E
não se justifique, Prefeito. Seus amigos não precisam,
seus inimigos não acreditarão.
Apenas
faça.

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