*Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Os
protestos de muçulmanos contra os jornais europeus que
publicaram charges ilustrando o profeta Maomé, há
algumas semanas, e os conseqüentes atentados terroristas
a embaixadas européias podem trazer à tona novamente
– além do desrespeito, por um lado, e da intolerância,
por outro – o poder que a imagem tem na produção
da cultura, especialmente no ambiente religioso.
Por aqui no Ocidente, a principal rixa dos protestantes contra
os católicos é justamente a utilização
de imagens no culto religioso. Essa questão, no cristianismo,
remonta aos séculos oitavo e nono, quando os chamados
iconoclastas, “quebrador de imagens” na língua
grega, causaram um grande conflito envolvendo concílios
ecumênicos e imperadores. De um lado estavam os cristãos
hostis às imagens de realidades sagradas; estes eram
mais influenciados pelas tradições orientais,
principalmente a judaica e a muçulmana, que não
aceitam imagens em seus cultos. De outro lado estavam os cristãos
de influência grega, que acreditavam na legitimidade de
imagens sacras por causa da Encarnação do Verbo,
que tornara possível uma representação
do divino.
Traçar um desenho que represente o etéreo na matéria
pode ser uma ajuda na percepção do espiritual
ou uma gritante profanação do místico,
dependendo da circunstância. O Islã, por exemplo,
abomina qualquer representação simbólica
de sua crença; e os muçulmanos que protestam não
o fazem somente por causa do sarcasmo dos cartunistas, que pintaram
Maomé usando uma bomba como turbante, mas por causa do
fato mesmo de se ter exposto o Profeta numa imagem, o que lhes
significa uma falta de decoro religioso e uma grande impiedade.
Esta dificuldade de se aceitar a imagem tem um aspecto que poucos
denotam: muitas vezes, as tradições religiosas
que repudiam os ícones coincidem com uma onda de pessimismo
em relação à matéria, uma demonização
do corpo humano. O farisaísmo judeu, na Bíblia,
é cheio de moralismos repressores; os islâmicos
tradicionalistas ainda hoje consideram promiscuidade a aparição
senão dos olhos da mulher; o puritanismo protestante
reprime qualquer sinal de vaidade e de beleza corpórea.
É claro que um conservadorismo católico também
pode esconder agressões ao humano sob a mira do idealismo
fantasioso das imagens dos santos; mas, no geral, a forma como
nos relacionamos com o símbolo é a forma como
verdadeiramente lidamos com o simbolizado.
À parte as divergências doutrinais, o mundo ocidental
precisa resgatar a dignidade de sua produção imagética,
que está nas mãos do merdado, como já ressaltava
a escola de Frankfurt. A nossa capacidade de contemplar o belo
e o divino através das faculdades humanas ficará
comprometida se continuarmos dispondo à revelia do imenso
turbilhão de imagens que enchem nossos sites de pesquisa,
nossos espaços públicos e a mente de nossas crianças,
cada vez comunicando conteúdos menos nobres e criando
mais distância e ódio entre as pessoas.
*
Juliano Ribeiro Almeida, 25,é membro da Academia Calçadense
de Letras e diácono administrador da paróquia
Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES. E-mail: julianorial@gmail.com
