PROFETISMO NO EXERCICIO DO PODER

*Jorge Luis Vargas dos Santos
ticogessinger@yahoo.com.br


Nos dias 11 e 12 de março deste ano, a capital do Estado do Espírito Santo, Vitória, acolheu o 5º Encontro Nacional de Fé e Política, levando-nos a refletir o tema: “Profetismo no Exercício do Poder”. O encontro contou com a presença de cristãos de diversas religiões, raças e culturas de vário estados do pais: Minas Geras, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Acre, Rondônia, Amazonas, Pernambuco, Bahia, Brasília etc, somando cerca de quatro mil pessoas, todas com um só objetivo, de fomentar a reflexão política, a vida espiritual e a subjetividade daqueles que estão comprometidos com uma prática política e social. O MF&P (Movimento Fé e Política), nasceu movido pelo espírito profético e libertador de Clodovis Boff, ao escrever um texto para o 6º Encontro Intereclesial de CEB’s sobre os cristãos na política, o qual provocou grandes debates por escrito, e por conseguinte, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, de Petrópolis, tomou a liderança nessa reflexão, e depois de algumas reuniões promoveram no Rio de Janeiro, em 1989, um encontro com 30 pessoas, para refletirem sobre a participação ativa dos cristãos na política, assim nasceu o Movimento fé e Política, que luta pela causa dos pobres, dos oprimidos e dos excluídos, a fim de promover ao ser humano valores fundamentais à vida, a solidariedade, a cooperação e os direitos de todos à vida em plenitude, em prol da construção de uma sociedade socialista, democrática, plural e planetária.

Neste ano, o 5º encontro nacional de fé e política, nos convidou a refletir tanto nas plenárias com temas específicos no campo de fé e política, como nos momento em comum, o compromisso de exercer a missão profética no exercício do poder a partir da ética e da espiritualidade. Ética, vem do grego ethos, entendida como conduta que a pessoa da casa considera correta, já a espiritualidade, é entendida como presença de Deus em nossa vida, sendo Deus fonte de alimentação de nossa espiritualidade. Assim, convidados renomados compuseram a mesa de reflexão: Pedro Ribeiro, D. Adriano, Cláudio Vereza, Marlene Cararo, Milton Schwantes, Plínio de Arruda Sampaio e Frei Betto, apresentando suas idéias e nos questionando sobre as nossas atitudes éticas e morais no exercício do poder, lembrando que o poder não se esgota no legislativo, judiciário e executivo, mas também é constituído e exercido pelo coordenador de conselho comunitário de pastoral, padre, o sindico do prédio, o diretor da escola, o presidente da associação dos moradores, as lideranças de ONG’s e movimentos, o porteiro do prédio, o segurança de eventos, etc. Neste caso, podemos nos perguntar como estamos agindo com o poder que nós é confiado? É ético agir ilicitamente para alcançar o licito? Em nossas comunidades, como ser profeta no exercício pastoral? Nesse sentido, ser profeta na casa em que exercemos o poder, movidos pela ética e moral, e inspirados pelo maior profeta de todos, Jesus Cristo, tornar-se uma missão difícil e dolorosa, é o tempo do deserto, o momento de vencer todas as tentações e ciladas que o mundo pós-moderno nos armam, já que fazemos parte de uma sociedade individualista, hedonista, capitalista, neoliberalista, relativista, preconceituosa, corrupta, ideológica, desigual, violenta, e conseqüentemente, uma sociedade descompromissada com a libertação e com a construção da dignidade humana, presente no direito à saúde, moradia, educação, emprego e laser.

Portanto, vencer as tentações que podem vir a aniquilar o ser profeta, aquele que critica o poder, anunciando que o poder de Deus não passa pela opressão, é a missão de todos nós cristãos, por isso devemos optar pelo partido de Jesus Cristo, que luta pela vida em abundância, que faz do poder um serviço, se colocando no lugar do servo, nos mostrando que para ajudar aos irmãos(ãs) que se encontram caídos pelas praças, viadutos, bares e ruas, é preciso ter a atitude do bom samaritano, que muda o rumo do seu caminho para ajudar aos pobres e oprimidos, segundo Frei Betto, está ação é atitude do ser ético, que muda de rumo e vai em busca dos mais pobres e oprimidos, para exercer com sabedoria o profetismo no exercício do poder.

Ademais, só seremos verdadeiros profetas de Deus, quando perdermos o medo de nos comprometer com a causa do Evangelho, e nos abrir em busca de uma continua conversão, que nos leve a assumir duas atitudes básicas do profetismo: denunciar os males que aniquilam a vida humana, e anunciar como fonte de libertação e promoção da vida humana a Boa Nova de Jesus Cristo, assim, as duas atitudes proféticas é requisito básico para acasalar fé e política, compromisso e libertação, fraternidade e solidariedade, vida e profetismo.

Que neste tempo de quaresma possamos fazer um profundo contato com Deus, apresentando as misérias que nos afasta da ação profética no exercício do poder, para que por, com e em Cristo, possamos exercer o poder na atitude serviçal, nos comprometendo com a libertação e com a promoção da vida humana. Além do mais, sabemos que ainda somos poucos nesta missão profética, todavia, temos consciência de que uma das principais atitudes proféticas é denunciar o poder que oprime e dizima a vida humana, assim, unificando fé e política, e buscando agir como o maior profeta de todos, Jesus Cristo, com certeza teremos força suficiente para profetizar, cobrar, exigir e reivindicar dos nossos funcionários senhores políticos, o profetismo no exercício do poder.

Assim sendo, só seremos bons profetas em nosso mundo, pais, estado, cidade, e comunidade eclesial de base, quando a nossa ação profética for inspirada pela ética que humaniza e pela espiritualidade que nos leva ao encontro com Deus. No término de sua fala no encontro de fé e política, dizia o profeta Plínio de Arruda Sampaio: “A alegria só será verdadeira se repousar no aprofundamento da seriedade e no compromisso com a vida”. Que Deus nos ajude em nossa missão profética, e nos cumule de sabedoria para lutar contra os males que impendem a construção do Reino de Deus.


*o autor é seminarista do 3º Ano de Filosofia

 

 



 

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