*Dr.
Rosinha

A
América do Sul vive hoje, sem as antigas amarras das
ditaduras, uma fase de efervescência social. Desde 2000,
a população de diferentes países sul-americanos
tem ido às ruas exigir as mudanças prometidas
por seus respectivos governos. Por não realizá-las,
alguns já foram depostos.
Nos
últimos quatro anos, três presidentes eleitos pelo
voto foram afastados. O primeiro deles foi o argentino Fernando
De la Rúa. Em seguida, o boliviano Gonzalo Sánchez
de Lozada. Por último, o equatoriano Lucio Gutiérrez.
Essa soma não leva em conta, nos casos de Argentina e
Bolívia, os sucessores imediatos.
Simultaneamente
a este processo, foram eleitos governantes de características
de centro-esquerda —o brasileiro Lula, o venezuelano Chávez
e o uruguaio Tabaré— ou progressistas, caso do
argentino Kirchner e do paraguaio Frutos.
São
estes governantes que procuram, pela primeira vez nos últimos
30 anos, com certa independência e soberania, a construção
de uma política de integração da América
do Sul, através da chamada "Comunidade Sul Americana
de Nações". E é justamente a isso
que se opõem os EUA.
Alguns
fatos que atestam a ascensão dos movimentos sociais sul-americanos:
o caso da Bolívia em relação ao petróleo
e o gás natural, a questão da água no Uruguai
e os movimentos de rua contra privatizações, no
Paraguai. Nesses três casos, os movimentos acabaram por
forçar os governos a adotar posições contrárias
aos interesses norte-americanos.
Com
essa conjuntura razoavelmente adversa, os Estados Unidos buscam
acordos bilaterais, comerciais ou não, como é
o caso do acordo com o México e os países da América
Central. São acordos que avançam em questões
como legislação trabalhista, propriedade intelectual,
meio ambiente, recursos naturais e energéticos, saúde
e educação.
A
Colômbia e o Equador são considerados países-chave
para a manutenção da hegemonia norte-americana
na região. Mas, com a queda de Lúcio Gutiérrez
e a sombra política cada vez maior de Chávez na
região, o futuro parece restar indefinido.
Nesse
contexto, o Paraguai resolve assinar um acordo militar com os
EUA. Conforme registro da página do Senado paraguaio
na internet, o primeiro documento referente a tal acordo foi
assinado em novembro do ano passado. No último dia 7
de junho, o governo do país vizinho envia uma nova mensagem
ao parlamento.
Na
mensagem, autoriza o "ingresso no país de tropas
das Forças dos Estados Unidos da América, com
armas, equipamentos e munições, a fim de realizar
exercícios e intercâmbios militares bilaterais
[...]", de julho de 2005 a dezembro de 2006.
O
texto prevê a realização de 13 exercícios
militares, com a participação de "forças
especiais" e a utilização de aviões
e helicópteros. Em outras palavras: permite a instalação
de uma "base militar" norte-americana —se não
permanente, pelo menos temporária.
O
recente desembarque de militares dos EUA no território
paraguaio, para participar de tais "exercícios",
inclusive na Tríplice Fronteira —área estratégica
pela presença da Itaipu e do Aqüífero Guarani—,
é a consolidação de um sonho que vem desde
2001. Na época, após os atentados de 11/9, o sub-secretário
Douglas Feith (Defesa) sugeriu ocupar tal área, onde,
segundo ele, haveria terroristas.
Apesar
da negativa dada tanto por autoridades paraguaias quanto norte-americanas,
o acordo pode consolidar a permanência definitiva dos
militares dos EUA no Paraguai.
Os
soldados e demais contingentes norte-americanos chegam com imunidade
diplomática. Ou seja, o Paraguai renuncia ao direito
de submeter os "visitantes" ao seu sistema judicial,
às cortes internacionais, ou a qualquer outro tribunal
que não seja dos Estados Unidos.
A
imunidade diplomática para soldados americanos em serviço
no exterior é algo recente e passou a ser defendida após
fatos ocorridos nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo.
É
bastante preocupante a presença norte-americana no país
vizinho. A construção do Mercosul ou da Comunidade
Sul Americana de Nações só é possível
a partir de uma relação de confiança mútua.
Mas
como agir sem desconfiança, se o vizinho dorme com o
inimigo?
*Dr.
Rosinha é médico pediatra, deputado federal (PT-PR)e
secretário-geral da Comissão do Mercosul.
Enviado
por
Evaristo Almeida da Silva
evaristoalmeidadasilva@yahoo.com.br
