*Luiz
Fafau
luizfafau@uol.com.br
Entre as cadeiras, ela agitava os braços e rebolava.
Quando chegou ao meio do salão, deu uma sambadinha e
riu. Todos os dentes vieram à luz. Estava mesmo satisfeita.
Maldita hora que desistiu do curso de dança de salão.
Gostava de extravasar seus sentimentos assim, sambando. Tivesse
feito o curso sua coreografia não teria o aspecto de
uma “caminhadinha mais saltitante”, como ela mesma
gostava de dizer. Mas o que importa, não é mesmo?
O importante é extravasar. Lá no meio do salão
ficou esperando que alguém, algum de seus pares viesse
tirá-la para dançar. Extravasar aos pares sempre
foi melhor. Se bem que a moda agora é extravasar aos
bandos.
Dinheiro
do mensalão? Ah... Vamos extravasar. Valerioduto? Delubioduto?
Vamos chacoalhar. Troca os copos, repete a música e vamos
extravasar. Não importa mais nada. Se o Magno, o Zé
Dirceu, o Lula, o Professor (coitados dos rofessores) Luizinho,
o Delúbio, fizeram o que fizeram com a esperança
e a confiança de milhões, isso não é
relevante. Eles são companheiros, são amigos e
eu quero mais é me acabar na folia. Alalaô...ôôô...
ôôô.
Ela
só não contava com a repercussão de seu
extravasamento. De repente todos estavam comentando. Que pena
o carnaval já ter passado, seria uma coreografia repetida
à exaustão na avenida. Afinal, o povo também
gosta de extravasar. Já tive notícias de academias
de dança procurando às pressas pessoas que consigam
repetir os passos da mestra para ensinar aos novos alunos. Glória
total. Ambulantes aqui de Goiânia já estão
vendendo devedês com o título Dançando com
Ângela Guadagnin. Parece que vários tiveram a mesma
idéia e só não entraram no acordo quanto
ao título. Também vi outros tantos com outros
títulos, como: Sambando no tapetão, Chá-Chá-Chá
do esculacho, Roquinho do ridículo, Extravasando a Boca
do Balão. Tá certo que os nomes não são
lá muito criativos mas o conteúdo, garantem, é
de primeira.
Nesta
quarta-feira, será a vez de João Paulo Cunha (PT-SP)
ser julgado. Ela já deve estar ensaiando a nova coreografia
para comemorar a façanha do oitavo parlamentar a escapar
de ser cassado pelas acusações de envolvimento
com esquema do mensalão. Assim ela vai se acabar, coitada.
Quem mandou ter tanto extravasamento para dar não é?
Cada um com sua cruz. Força, garota! Seus amiguinhos
contam com você. E depois, tem a galera aqui do andar
de baixo que está esperando ansiosamente por mais uma
performance. Você não vai nos faltar neste momento
vai? O povão gosta é de esculacho, não
é mesmo?
Eita
povão despreparado da gota. Valei-me, meu são
Escadinha! Que agora só acredito em ladrão.
*Luiz
Fafau, 47 anos, goiano, autor dos livros Urbano, Fragmentos
de Luz e A Lápide Gótica de Um Amor Impossível.
