UM DOLO POR UM DÓLAR

Juliano Ribeiro Almeida
juliano.ribeiro@broinha.com.br

-A Teologia da Prosperidade Neo-Pentecostal em confronto com o Evangelho –


“Ele pensa que faz com isso uma profissão de fé,
só que faz da fé profissão”.
(Gilberto Gil, música Guerra Santa, 1994).

Introdução

Em continuidade ao artigo Cheque Confiança: O crédito da fé no mundo do crediário, publicado no número 1 da Revista REDES (Dezembro de 2003), tratarei aqui de expor algumas conclusões a que tenho chegado na pesquisa sobre a tão explícita relação entre as esferas religiosa e social no mundo contemporâneo – esfera social, evidentemente, subdividida em política, cultural e, de maneira muitíssimo especial, econômica.

Não vamos aqui fazer um profundo levantamento doutrinário da chamada teologia da prosperidade, senão continuar a leitura da grande obra do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, em que ele apresenta um estudo minucioso sobre as relações que a vertente puritana do protestantismo traça entre a vida de fé e a conduta sócio-econômica.

Tem se tornado escandalosa, apesar de obscura e melindrosa, a utilização de categorias espirituais para se sustentar ideologias claramente econômicas. É fácil assistir, a qualquer hora do dia, a programas televisivos de cunho confessional usando e abusando de pregações carregadas de intenções financeiras que, além de constituírem verdadeiros tratados de magia sincreticamente misturada a uma teologia da prosperidade veterotestamentária de baixíssima qualidade, são de uma contundente e exagerada má-fé (em todos os sentidos da expressão).


Um Crime contra a Consciência

A Constituição Federal, no artigo 5o inciso VI, afirma que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos”. No entanto, a crença começa a se tornar um sério risco às pessoas quando viola a consciência – que providencialmente se lhe antepõe na redação constitucional. Forma alguma de culto pode ofuscar a consciência, que é o “núcleo mais secreto e o sacrário do homem” (Gaudium et Spes, n. 16). Compete, então, a nós, adeptos e praticantes da religião cristã, cuidar para que cristão algum – qualquer que seja sua confissão religiosa – abuse, em nome dessa mesma fé cristã, da seriedade com que todo ser humano merece ser tratado. Isso até mesmo para que não se dêem as razões suficientes e justificáveis a máximas como a famosa de Karl Marx: “a religião é o ópio do povo”.

Muito conhecida é a passagem, que seria cômica se não fosse trágica, em que o (auto-ordenado) bispo fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, num culto com uma imensa multidão num grande estádio, ordenou que as pessoas, em virtude da “cura” que ele estava operando, jogassem seus óculos em sacos que eram passados pelos obreiros. Recolheram-se centenas de óculos; certamente de pessoas que tiveram dificuldade em comprá-los, pessoas que tinham alguma necessidade deles para enxergar bem, obviamente. E o bispo os despejou no palco e ia pisando, pulando sobre eles, até quebrá-los todos, afirmando que estava, com aquele gesto, repreendendo o demônio da cegueira que oprimia a multidão. Muita euforia, muita emoção e todos foram “quase curados” para casa... talvez como aquele cego de Betsaida (cf. Mc 8,23) que, “depois de abrir os olhos, dizia: percebo as pessoas, vejo-as como árvores, mas caminham”. Descobriram que foram ludibriados quando viram, algum tempo mais tarde, o próprio Edir Macedo usando seus habituais óculos para ler os versículos estremecedores em sua pregação televisionada.

Há ainda absurdos como o da tentativa medíocre de combater as superstições populares utilizando, ironicamente, um tipo mais industrializado de superstição, com status de “ungida”; cada dia o fiel leva um brinde, quase um souvenir de seu turismo religioso: travesseiro, sabonete, punhado de terra da Palestina (?) e muitos outros amuletos que conseguem desvirtuar completamente o sentido do símbolo religioso. Ao invés de reportarem a pessoa sacramentalmente ao universo divino, tais instrumentos desenvolvem uma fé infantil, alheia às grandes questões do nosso tempo, confinando o mistério da presença de Deus a condições das mais fúteis possíveis; como se bastasse ao casal dormir com o travesseiro ungido para se acabarem todos os problemas conjugais, da ejaculação precoce à prestação em atraso. A água também é utilizada, paralelamente ao culto católico, mas o pastor não pede a Deus que a abençoe; determina que ela seja abençoada. A água, segundo esses charlatães, não precisa ser um sinal eficaz da salvação eterna; basta que ela seja um sinal eficiente da libertação terrena.


Um Crime contra a Teologia

Pode-se dizer que exista uma legítima Teologia da Prosperidade em algumas tradições que formam o Antigo Testamento. Deus, em diversas situações, promete uma salvação em que o justo prospera na saúde, na posse de bens e na geração de uma longa prole. No latim, por exemplo, do radical salus derivam tanto a palavra salvação quanto a palavra saúde. Porém, essa interpretação não pode ser absolutizada, até porque não é única versão existente na Sagrada Escritura acerca da salvação. Deus não promete uma vida sem problemas a ninguém. Promete, sim, a sua presença e proteção, a sua graça e misericórdia, a sua ajuda nos caminhos da vida. O livro de Jó testemunha que, em última análise, não é a prosperidade do justo que prova a sua justiça; antes, é a forma como este permanece fiel mesmo nas dificuldades que se torna garantia da veracidade de sua fé e piedade.

Os pregadores dessa versão light da Teologia da Prosperidade, por outro lado, modificam toda essa tradição bíblica e, moldando um discurso completamente tendencioso, são capazes, por exemplo, de permanecer por horas a fio pregando energicamente, sem citar uma vez sequer a palavra de Jesus encontrada nos evangelhos. Conseguem fazer acomodações completamente irresponsáveis dos textos do Antigo Testamento, sustentados pelo arcabouço teórico que se reduz a um cursinho intensivo de teologia de fim-de-semana. Fazem escavações avulsas de versículos bíblicos, sem qualquer critério exegético, fora de toda e qualquer contextualização histórica dos livros canônicos. Preferem sempre as perícopes em que se abordam temas como a vitória sobre os inimigos, o crescimento dos justos e a conquista da terra prometida (que, por sua vez, pode ser vislumbrada simplesmente no carro do ano). Omitem descaradamente temas caríssimos à doutrina cristã, como o do cuidado para com os pobres (Mt 5,3; Gl 2,10; At 11,29; 1Cor 16,1; Tg 2,5 etc). Na verdade, os pobres são, para esse tipo de pregação, uma categoria que serve de lição àqueles que traem a aliança com Deus ou, pior ainda, são colocados na categoria pseudo-calvinista dos predestinados à maldição da miséria. Associam, então, a miséria do povo brasileiro, por exemplo, a práticas da religiosidade popular (especialmente as advindas do catolicismo e dos cultos afro-indígenas) e a heranças de maldições.

Basta um giro pela programação religiosa dos canais televisivos em geral para se perceber a presença insistente e bem-sucedida de pregadores neopentecostais utilizando um discurso que se diz cristão, mas, na realidade, sem conteúdo algum do cristianismo essencial. Os arautos da teologia da prosperidade afirmam, com toda a arte do marketing de serviços e com toda a eficiência da programação neurolingüística, que só a fé é capaz de “libertar” a pessoa do mau espírito que está na base de toda crise financeira. Dizem mesmo, categoricamente, que a origem de todos os problemas econômicos por que passam as pessoas é o diabo; e que, na libertação espiritual, Deus concede a bênção da prosperidade, do sucesso nos negócios. Segundo eles, o sinal de que alguém fora abençoado é a imediata sanação de todas as dívidas, o miraculoso aumento dos bens, a perceptível engorda da conta bancária e, conseqüentemente, a melhoria progressiva de todas as dimensões da vida. É claro que o tema das finanças não é o único diretamente abordado. Mas o grave é que, mesmo quando se fala da vida matrimonial e familiar, por exemplo, a dimensão financeira aparece como o maior indicador de sucesso.


Origem da Neo-Teologia da Prosperidade

Max Weber (1864-1920) percebe que o protestantismo, em grandes linhas gerais, exorcizou as forças religiosas que travavam o cristão medieval em sua vida de homo economicus. O lucro, aos poucos, vai deixando de ser considerado imundo no campo espiritual, para se tornar, ao contrário do que se pregava no catolicismo, uma meta legítima e, de todo, coerente com a fé. Os puritanos “erigem o limpo e sólido conforto das casas da classe média como um ideal” (WEBER, p. 128). Isso mudou para sempre a maneira de se praticar a religião cristã, sem nenhum mal-estar, no meio das classes abastadas das sociedades modernas. No mínimo, arrefeceu-se uma certa culpabilidade econômica da consciência elitista que pairava de maneira difusa mas consistente. Desde os anawin Iahweh do hebraísmo veterotestamentário, passando através dos apelos jesuanos ao desapego material, incluindo os sermões contundentes da doutrina social na patrística e a tradição das ordens mendicantes fortalecidas pelo franciscanismo, ser um cristão rico era certamente um problema insolúvel, levado para os diretores espirituais e confessores ajudarem a resolver. Em séculos de interpretação fundamentalista das sagradas escrituras, uma leitura coerente de máximas como “vende o que possuis, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus” (Mt 19,21) significava um freio moral à ambição de aumentar o poderio econômico. É claro que sempre houve lacunas bem frouxas em tais interpretações, a fim de salvar o patrimônio do alto clero e da nobreza que nunca quis abrir mão do luxo sacro dos palácios absolutistas, mas não foi o ideal de pobreza justamente o impedimento daquele homem que se aproximou de Jesus interessado em saber o que fazer de bom para ganhar a vida eterna?

A nova maneira – acomodatícia, é bem verdade, mas nova – de se interpretar a radicalidade evangélica teve em John Wesley (1703-1791), o fundador do metodismo, a formulação mais clara e direta. Ele afirma que “devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que puderem e a economizar tudo o que for possível; isto é, a de fato enriquecerem” (citado por WEBER, p. 131). É de conclusões como essas, ignorando o ensinamento bíblico de que “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10a), que foram nascendo algumas expressões bem ousadas de capitalismo sagrado.

Sem o antigo pudor em relação ao lucro, pela primeira vez na história das religiões, o dinheiro deixa de ser propriamente um meio legítimo para a perfeição na fé, e passa a se identificar quase que com um fim em si mesmo, tendo a fé como um meio. É isso que se observa em pessoas que optam por denominações religiosas exclusivamente por serem as únicas a prometer o vigor econômico com garantia.

“A intensidade da busca pelo Reino de Deus começava a se transformar gradualmente em sóbria virtude econômica” (WEBER, p. 131). De forma ainda mais clara no final do século XX, o “fogo” característico do pentecostalismo, em alguns púlpitos, deixa de ser o ícone do movimento pobre e negro dos subúrbios estadunidenses, contestatório por levar pessoas socialmente excluídas a acreditarem em sua dignidade e a gritarem para todo o mundo que o Espírito Santo age na simplicidade, para se tornar um grande artefato mecânico no cenário televisivo de marketing altamente desenvolvido. É um fogo que turva a visão, mais do que queima interiormente.

Do ponto de vista de uma eclesiologia, essas denominações confessionais, com pouco mais de um quarto de século de existência, já estão conseguindo descaracterizar a instituição religiosa como entidade sem fins lucrativos. Bem diferente de alugar um espaço num shopping center para a edificação de uma capela, construir um shopping center inteiro nas dependências de um mega-templo não constitui uma atividade propriamente evangelizadora. Para eles, não há problema algum nisso, visto que, de acordo com os ancestrais protestantes dessa versão atual do evangelismo, “a distribuição desigual da riqueza do mundo era uma disposição especial da Divina Providência” (WEBER, p. 132).

Há que se fazer justiça, contudo, e se ressaltar que apenas uma pequena parcela das denominações evangélicas se identifica com esse tipo manipulado de Teologia da Prosperidade. De acordo com o pastor Ricardo Gondim, fundador da Igreja Assembléia de Deus Betesda,

a Teologia da Prosperidade, obviamente é um outro evangelho. Promete que os filhos de Deus terão tudo e que não passarão por qualquer tribulação. Ora, quem prometeu dar tudo se nos prostrarmos para adorá-lo foi o diabo e não Deus .


Teologia ou Auto-Ajuda?

A Teologia da Prosperidade

defende a crença de que o cristão, além de liberto do pecado original pelo sacrifício vicário de Cristo, adquiriu o direito, já nesta vida e neste mundo, à saúde física perfeita, à prosperidade material e a uma vida abundante, livre do sofrimento e das artimanhas do diabo. Segundo esses pregadores, o fato é que Deus não só prometeu como, no plano espiritual, já concedeu tais bênçãos a todos os portadores da fé sobrenatural. Agora cabe ao cristão tomar posse delas (ORO, CORTEN e DOZON, p. 242).

Mas acreditar na bondade de um Deus que ama o ser humano e o vai libertando de todo mal é louvável. O problema é quando se esquece de “buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33) e se começa a cobrar o “tudo mais” que lhe será acrescentado.

A característica mais específica que diferencia a magia da religião é a pretensão de manipular a divindade. Enquanto o religioso expressa com um rito cultual o serviço confiante que presta ao Divino, o mágico pratica algumas ações que são, na verdade, senhas para colocar o Divino a serviço de suas intenções. Em geral, quando a vivência da fé passa a ser um meio para um fim qualquer (por melhor que seja), estamos diante de um ritual mágico, e não de uma ação religiosa. Este é o grande problema da maneira como se tem difundido a Teologia da Prosperidade. “Trata-se, pois, de exigir e determinar que Deus, em nome de Jesus Cristo, cumpra o que prometeu a seu fiel rebanho: triunfo sobre o diabo, saúde, prosperidade material, vida abundante, vitoriosa e feliz” (p. 243). Mensurar o Absoluto e exigir dele a absolutização do relativo é, na verdade, relativizá-lO.

Utilizando a chamada Positive Confession, a “confissão positiva”, a Igreja Universal do Reino de Deus apela para os clichês dos grandes pregadores dos Estados Unidos para levar os fiéis à sublimação de seus problemas, inserindo-os numa atmosfera de auto-estima e afloração das emoções recônditas. As pessoas chegam ao templo angustiadas com o peso de problemas dos mais diversos. Retirando toda a culpa de cima do indivíduo e lançando-a sobre figuras sugestivas como demônios, encostos e maldições personificadas, os pastores conseguem anestesiar o choque com as questões problemáticas e ajudar os fiéis a tomarem a decisão da melhora, o que já significa metade do processo.

O problema é a outra metade, pois, as visualizações do mal não têm função apenas terapêutica, mas, com o reforço da narrativa, ganham status de sujeito e sempre se “encarnam” em outro lugar. A comunidade que passou pelas sessões de “descarrego” está livre, mas, ao redor dela, existe todo um mundo demoníaco, em que naufragam todas as pessoas que não pagam o dízimo e não se convertem a essa forma de cristianismo. Isso tudo gera no descarregado uma intolerância com sérias conseqüências relacionais, espirituais e até políticas. Por isso, os pastores preferem falar em “descarregar” a pessoa, mais do que em “exorcizá-la”. O exorcismo lança o mal para fora da realidade, enquanto o descarrego apenas livra a pessoa determinada num momento determinado. É uma expulsão fugaz do maligno. Assim, é fácil chegar a conclusão de que essa teologia não quer que o mal se perca definitivamente, a fim de tê-lo sempre por perto para explicar o mistério do sofrimento e manter as pessoas dependentes da única instituição que oferece os 318 pastores capazes de libertar.

Sem negar a força da fé daqueles que fazem, de fato, uma experiência com Deus, o clima num culto de libertação já favorece a abertura da psique ao desenvolvimento humano. Daí provêm maior empenho no trabalho, relações familiares mais centradas e afetivas. Conseqüentemente, tudo tende a melhorar. É uma reação em cadeia. O sentir-se parte de um grande grupo – melhor, de uma rede – é decisivo nesta experiência espiritual; daí a televisão mostrar em grandes quadros a imensa multidão de pessoas com mãos elevadas, cenho franzido em oração poderosa, o que dá o mesmo efeito de se ver a multidão de traseiros de muçulmanos prostrados diante de Alá. Dá o mesmo santo medo e a mesma insana vontade de se juntar a eles.


Conclusão

O tele-evangelismo da prosperidade é uma forma de religiosidade plenamente compatível com o sistema neoliberal, pois não apresenta profetismo algum de contestação a ele. Afirmar, por exemplo, que o fato de uma pessoa estar desempregada é causado por uma maldição que lhe foi feita significa, no mínimo, um atentado contra a inteligência humana, além de ser um grande pecado social de omissão e legitimação das estruturas iníquas tão contestadas por Jesus de Nazaré. Trata-se de mais uma ideologia do “laissez faire, laissez passer”, que deixa passar a proposta do capitalismo mais selvagem para, depois, jogar a culpa das conseqüências sociais que daí provêm sobre a figura do diabo.

Essa teologia não faz mais que alimentar, em plena pós-modernidade, uma visão animista do mundo, correspondente à mentalidade medieval, pré-iluminista, do homem que é refém das forças ocultas da natureza má. Não só subestima qualquer sério pensamento social, como zomba, em nome de uma fé abraâmica, de qualquer discurso religioso razoável e aberto à parceria necessária com as ciências.

Referências Bibliográficas


WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2003.

ORO, Ari Pedro, CORTEN, André e DOZON, Jean-Pierre (org.). Igreja Universal do Reino de Deus: os novos conquistadores da fé. São Paulo: Paulinas, 2003.

TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia. São Paulo: Paulinas e Loyola, 1995.

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