*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Eu
também
recebi o e-mail maldito com fotos das vítimas do acidente
ocorrido com o vôo um nove zero sete. Que força
estranha é essa, que há dentro de nós,
e que nos impulsiona para o macabro e o tenebroso? E o pior
é que mesmo sujeitos fracos diante do horror –
como eu, que tive que me retirar da aula de primeiros socorros
na auto-escola num estado deplorável de tontura e enjôo
– não resistem e acabam indo ver. Sabemos que vamos
nos arrepender de ter olhado, temos certeza de que aquela cena
vai nos atrapalhar o jantar e o sono, mas abrimos os olhos e
nos deixamos vencer pela nossa fraqueza congênita.
São
Paulo escreveu: "não consigo entender nem mesmo
o que eu faço; pois não faço aquilo que
eu quero, mas aquilo que mais detesto" (Carta aos Romanos,
capítulo 7, versículo 15). Afora a intenção
principal do apóstolo, que era tecer um comentário
sobre a força do pecado, há aqui a constatação
fundamental de que nem a razão, nem a arte, nem a cultura,
nem a religião eximem o ser humano desse seu lado azedo
– à la pecado original – ou recôndito
– à la superego freudiano.
Nós somos mais do que códigos genéticos,
racionalidade e construções sociais. E somos infinitamente
mais – ou menos? – do que a junção
desses elementos todos. No romance Ensaio sobre a cegueira,
de José Saramago, um personagem conclui que "dentro
de nós há uma coisa que não tem nome; essa
coisa é o que somos" (p. 262).
Outro dia, um homem ao meu lado esbarrou com sua bolsa no braço
de um outro que estava sentado preenchendo um formulário,
que por sua vez levantou-se e empurrou o desajeitado que, também
por sua vez, ofendeu gravemente a progenitora do nervoso, que
falou-lhe de sangue e outras baixezas. Senti, na ebulição
do momento, que estava em jogo ali muito mais do que um formulário
ou a honra de um macho: era algo mesmo que vinha do mais profundo
de cada um – inclusive de nós, espectadores –
e que sentia certo gozo com a violência e a desordem.
É disso que falo. Essa inclinação humana
básica, controlada mas na verdade incontrolável,
é a responsável tanto pela publicação
das fotos do acidente aéreo quanto pelo orgulho religioso
do muçulmano que diz a um papa: "se você disser
que eu sou violento, mando-lhe uma bomba em cima".
Nietzsche e sua filosofia do absurdo elogiam essa potência
elementar personificando-a na figura do Super-homem em seu Assim
falava Zaratustra. Os judeus transfiguraram isso no rito do
bode expiatório enviado a Asmodeu. Os cristãos
contemplam esse paradoxo na duplicidade bênção-maldição
ao adorar o madeiro da cruz. O hinduísmo de Gandhi derrubou
o império sem pôr-do-sol com a canalização
do terror na prática da não-violência. Osama
bin Landen e George W. Bush despacham esses encostos interiores
ora nos civis afegãos ora nos trabalhadores das torres
gêmeas. E aquele torcedor acabou enfeiando seu espírito
esportivo ao espancar o rapaz do time adversário.
Todas
essas são expressões da mesma coisa que não
tem nome mas que sabemos estar adormecida lá dentro,
como um vulcão pronto para erupções. Toda
a teia da nossa vida é construída com a mistura
do tesão e do medo; e ambos são expressões
desta mesma coisa.
*Pe. Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
