Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Qual a diferença
entre proibir e não autorizar? A reflexão política
às vezes me leva às aulas de Lógica que
tive no curso de filosofia... Todos acusam Hugo Chávez
de atentar contra a democracia ao fechar a RCTV, emissora que
representava, para o público da Venezuela, mais ou menos
o que a TV Globo representa para os brasileiros (bonitinha mas
ordinária...). Chávez, por sua vez, alega que
não fechou; apenas não concedeu a permissão
para continuar aberta... e que fez isso em nome da mesma democracia,
uma vez que teria provas de que a tal emissora participara,
em 2002, da tentativa de golpe ao seu governo, democraticamente
eleito.
O
reflexo dessa jogada toda aqui no Brasil também foi bastante
falaciosa e contraditória. Líderes no Senado de
partidos como os Democratas (nome que, diga-se de passagem,
já é um paradoxo em si mesmo, bastando notar-lhe
as reminiscências de cacifes que estão por cima
desde o regime militar...) pronunciaram-se a respeito, repudiando
a atitude do presidente venezuelano. Ainda que a resposta tenha
sido de baixo escalão do ponto de vista diplomático,
Chávez tem razão ao nos inspirar a pergunta, que
ora não quer calar. Quem vê o nosso Legislativo
de fora vai mesmo é ficar se perguntando: que moral tem
essa gente, toda enrolada em escândalos e mais escândalos
de corrupção, para vir querer ensinar a fazer
“democracia” no país alheio?
Voltando
ao ovo e à galinha, há que se concordar que o
presidente Hugo Chávez tem sido fiel representante do
socialismo. Em nenhum momento ele tem sido incoerente com aquilo
que sempre pregou em campanha. O atual discurso de Hugo Chávez
foi o mesmo que o fez presidente de uma república que
já não agüentava mais a situação
em que se encontrava.
Se
o povo venezuelano deu a Chávez o poder executivo, e
se esse poder inclui o de dar ou não a concessão
de sinal a um canal televisivo, é bem de se esperar que,
não ultrapassando o limite da legalidade, esse poder
vá tentar calar os que o tentam derrubar. É como
imaginar alguém patrocinando um atirador de pedras esquecendo-se
de que tem um telhado de vidro. É bem verdade que não
se deve ter uma única versão das coisas, um único
posicionamento ideológico, uma única forma de
pensar a política, pois isso é próprio
de um regime ditatorial. Essa é a grande tentação
que parece perpassar os governos de origem socialista.
Mas,
por outro lado, o que a RCTV e todas as grandes emissoras geralmente
fazem, ao utilizar o seu poder de influenciar as massas, não
deixa de ser também uma ditadura. Afinal, elas normalmente
são propriedades de grandes grupos econômicos e
se interessam inevitavelmente em difundir um lado apenas da
questão. E na verdade, há uma diferença
básica entre direito de livre expressão e manipulação
política. Democracia não é todo mundo falando
o que quiser, da forma que quiser. Liberdade de expressão
não significa expressão livre de regras. E uma
das regras elementares é essa: não se pode ser
inconseqüente na emissão de opinião; ou seja,
devo arcar com as conseqüências das coisas que falo.
A TV dizia o que queria: “não queremos você
como presidente, e se pudermos, tiraremos você daí”.
Agora, o presidente responde à altura: “eu também
não quero vocês aí; e como eu posso, tirarei
vocês do ar!”. São as regras do jogo...
