*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Incendiou-se a polêmica
acerca de mais um pronunciamento do Papa Bento XVI. O discurso
que ele pronunciou na universidade de Ratisbonne, em sua Bavária,
na Alemanha, provocou protestos em todo o mundo e acabou fazendo
com que Sua Santidade pedisse perdão publicamente.
Assim como uma leitura deficiente
do Corão pode realmente induzir a uma guerra santa e
produzir o terrorismo fundamentalista, a forma deturpada como
se vem encarando este discurso de Bento XVI pode gerar não
só sérios problemas diplomáticos como também
um retrocesso no diálogo tão custoso que João
Paulo II promoveu entre cristãos e muçulmanos.
Ao se deparar com um discurso,
é preciso antes de tudo se perguntar qual o tema, a que
público está sendo dirigido, a partir de que área
do conhecimento se fala, de que gênero literário
se está lançando mão etc. Há bem
pouco tempo, o papa estava fazendo uma meditação
sálmica sobre o holocausto em Auchwitz e os jornais divulgaram-no
como que falando de sua crise de fé no divã de
um analista... Em outro momento, ele falava sobre o bom senso
que os cristãos devem ter no diálogo com os ateus,
e "disseram que ele disse" que os católicos
não devem dar ouvidos a protestantes...
Neste discurso do dia 12 de
setembro na Alemanha, o tema sobre o qual Bento XVI estava falando
era "fé, razão e universidade". Não
estava fazendo uma homilia, tinha mestres e doutores de diversas
ciências como ouvintes; o tema não era o diálogo
inter-religioso, a disciplina a partir da qual falava não
era a ciência das religiões. Enfim, ele ia fazendo
uma reflexão sobre o risco que se corre quando a fé
– seja ela qual for – não se articula com
a razão. E dizia que "a afirmação
decisiva nesta argumentação contra a conversão
mediante a violência é: não agir segundo
a razão é contrário à natureza de
Deus" e também contra a da alma humana em sua experiência
religiosa.
Logo no início da conferência,
ele esclarece que tomou contato com a obra de um professor da
Universidade de Münster, que editou um diálogo entre
o imperador bizantino Manuel II e um persa de grande cultura.
O diálogo ocorreu em 1391 e versava sobre a visão
que a Bíblia e o Corão têm sobre Deus e
sobre o ser humano. O papa delimita: "tocarei só
um argumento – à margem na estrutura do diálogo
inteiro – que, no contexto do tema 'fé e razão',
fascinou-me e me servirá como ponto de partida para a
minha reflexão sobre este tema". É preciso
esclarecer mais? Como excelente professor, Ratzinger delimita
devidamente a questão, situa os ouvintes, prepara a argumentação,
indica a credibilidade da fonte e sua independência em
relação a ela.
Bento XVI, em nenhum momento,
pretendeu fazer uma crítica ao islamismo. Para falar
da intolerância e rechaçar a violência em
nome da fé, ele tanto utilizou uma sura do Corão
como poderia ter utilizado um versículo do Antigo Testamento;
ele se referiu ao fundamentalismo muçulmano da jihad,
mas bem que poderia ter se referido à Inquisição
ou às Cruzadas! As manifestações se devem
ao fato de que algumas correntes radicalistas do Islã
simplesmente não sabem dialogar e não estão
dispostos a aprender: protestam contra o imperialismo norte-americano
utilizando pejorativamente a condição de "cristão"
do Ocidente, considerando-nos ainda hoje como nada mais que
"infiéis"; mas se revoltam diante de uma charge
de Maomé e uma citação crítica sobre
este fundador. Muitas vezes não toleram a presença
do cristianismo em seus países, mas exigem – e
com razão – o respeito à sua liberdade religiosa
quando migram para a Europa ou os Estados Unidos.
Não era essa a intenção
do papa, mas, em todo caso, foi bom que alguém tivesse
coragem – ainda que acadêmica e delimitada –
de questionar a forma como as ditaduras religiosas muçulmanas
vêm se portando, em plena pós-modernidade, como
se tivessem o direito de fazer do seu proselitismo um argumento
de guerra e de sua cultura um intocável sistema ao qual
toda a humanidade é obrigada a se submeter. Os mesmos
intelectuais que estão criticando Bento XVI por este
incidente costumam apoiar, por exemplo, a encenação
blasfema que Madona faz da crucifixão de Jesus em seu
show ou a utilização de imagens do Cristo Redentor
ou de Nossa Senhora Aparecida ao lado de mulheres nuas no carnaval
carioca.
*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
