Animais Sociais

*Márcio Garcia Seufitele Pinto
marcioseufi@hotmail.com


Meditei estes dias na relação abismal entre homens e mulheres. Sem dúvida, milhares de textos com esta proposta já foram lidos. Contudo, não pretendo me justificar, pois tendo a considerar que o texto é feito para o autor, e não para o leitor...
Todos temos problemas “do coração”. A diferença reside na forma como cada um encara/supera/remói os fatos ocorridos. Alguns têm uma tendência maior ao passado, outros tomam uma cerveja e esquecem... outros observam a mágoa nadando sempre no fundo do copo...
Em todo caso, há um abismo enorme entre os machos e fêmeas humanos. Os primeiros oscilam entre as necessidades orgânicas de procriar, uma tendência animalesca, na qual cabe ao macho dominante espalhar suas características a tantas fêmeas quanto possível, as necessidades sociais de “pegar” quantas puder e ser bem visto e respeitado por outros machos e a necessidade de segurança e carinho familiar, a necessidade de amor, de segurança.
Já as fêmeas, tem por objetivo escolher o parceiro mais apropriado para procriar. Naturalmente, não é uma escolha fácil. Há tantos... Os inteligentes, os espertos (a inteligência dos tolos), os bonitos, os divertidos e tantos outros que fica complicado escolher. Além do mais, há a necessidade de escolher qual será o macho com quem irá se casar. Daí o dilema: é necessário escolher com quem “acasalar” e com quem “casar”, machos que nem sempre acumulam estas obrigações árduas.
Mas à parte destas demonstrações animalescas (verdadeiras, contudo), há ainda um elemento complicado: O amor. Há a ainda a paixão. Há até o desejo. Este triângulo, sim orienta as relações entre homem e mulher.
O mundo hoje está proporcionando mais escolher para os homens, pois já é possível apenas praticar a procriação, é possível atender aos desejos sem se comprometer, e até a possibilidade de filhos sem que isso acarrete um matrimônio, e até a possibilidade deste último, para os interessados. As mulheres também não precisam se queixar: podem escolher apenas parceiros sexuais, podem escolher maridos, podem ter produções independentes ou mesmo aderir ao matrimônio.
Mas num mundo com tantas opções, interessantíssimas por sinal, porque ainda há os que se casam? Bom, quanto aos homens, é necessário ter uma companhia. Na verdade, após alguns anos de casamento, o casal se torna irmão. A libido esmorece, vêm os filhos, e a ausência de uma lata de leite na despensa dispensa um possível momento a dois. Com o tempo, o homem precisa mais de uma companhia do que uma mulher... Eis a causa primeira da “mortalidade infantil” de muitos casamentos. Já com relação às mulheres, é necessário ter alguém em casa, para ajudar nas despesas, para aconselhar os filhos... É necessário ter um lar estruturado, uma vida estruturada, uma família respeitável. Nisso é necessário ser exigente (em geral até mais do que na escolha do noivo). Começa a pressão, o que fazer, o que comprar... O homem percebe que a mulher mudou, que é a dona de casa... e cai fora. Eis a segunda causa do fim dos matrimônios...
Não é novidade que ambos pensam diferente, com relação a tudo. Observa-se um grande número de mulheres casadas, com lar estruturado, família respeitável, filhos bonitinhos, que saem com os homens de baixa qualidade. Os homens não ficam de fora... Estão sempre à procura de alguma novidade, e não precisa ser boa... basta ser novidade...
O mundo hoje oferece boas oportunidades para ambos. No fim, ambos os sexos acreditam na Síndrome da Cinderela/Príncipe Encantado. Mas o mundo hoje tem cada vez mais homens e mulheres cada vez mais maravilhosas. Todavia, homens de qualidade e mulheres “de família” estão raros... Já ouvi dizer que os homens gostam de mulheres ruins... e que mulher gosta dos homens que não prestam, numa espécie de Síndrome do Don Juan... Ouvi que quem é solteiro se acha ruim demais, como também já ouvi que por ser bons demais é que se fica sozinho.
Estou tentado a acreditar neste último. Mas acho mesmo que o mais difícil não achar bons maridos/mulheres, ou formam um belo casal, ou ter belos filhos. Difícil mesmo é achar o amor como supedâneo deles. Conheço casamentos que não esmorecem mesmo depois de 15 anos, como também os que já começam fadados ao fracasso.
Mas entre tantas coisas que acredito, acho que a maior delas chama-se o amor. Já vivi o amor, já passei pela paixão e me entreguei às vezes aos desígnios sombrios do desejo. Confesso que todos são bons de maneira. Mas se achei o desejo muitas vezes, e a paixão uma meia dúzia delas, o amor achei apenas um. É aquele por quem a gente escuta Ana Carolina, lê Pablo Neruda ou escreve versos... é aquela pessoa por quem vamos ao cinema para não ver filme, com quem sentimos aquele beijo que nos tira a noção de tempo e do espaço, com quem a Lua sempre se parece... seja ela cheia (de lembranças dela), seja ela crescente (de expectativas), seja ela nova (de oportunidades) ou mesmo a minguante (que não é suficiente para minguar o amor).
Tive a felicidade de vivê-lo, e admiro quem já teve esta oportunidade... A duração deles geralmente é eterna., ou seja, dura enquanto nos lembramos dele. E mesmo que haja homens que ainda não amaram ou mulheres que também não chegaram a conhecer este mesmo amor, sem dúvida a vida de quem passou por eles nunca mais foi a mesma. Tudo adquiriu uma conotação mágica, e dependendo de como a coisa acabou (se acabou), traz junto uma aura melancólica, mas uma melancolia gostosa, por reviver momentos tão mágicos e estranhos. Não havia perfeição neles, mas tudo era perfeito; não havia beleza em muitos casos, mas tudo era belo; não havia nada além do amor, hoje mais uma utopia do que uma realidade.
E a paixão? Ah, aquela tempestade devastadora, que devora tudo, que nos faz esquecer de nós, que toma o controle mesmo do nosso amor-próprio e traz à tona o lado mais sombrio e aterrador, por vezes perigoso, do ser humano. E aqueles momentos e sofrimentos que trazem? E a profundidade do sentimento experimentado, a sensação de ser conduzido pelo cavalo desgovernado que é o sentimento? Sem dúvida, não tem preço. Aquele sentimento animalesco de posse e desejo, pertencimento e devoção.
E o desejo? Aquela bomba crescente, que reprimida, causa transtornos e quando liberada, nos traz em geral a sensação orgásmica de plenitude, de domínio do mundo, que apesar de imensa, “cabe no colchão de amar”. Aquele desejo inconseqüente e com conseqüências, sem compromissos senão furtar aqueles momentos de um mundo louco e duro, de sumir por aqueles “11 minutos”
Nestes três pontos, homens e mulheres concordam... e não tenho dúvida de que acrescentariam muitos outros pormenores a estes três últimos parágrafos.
Infelizmente, para se casar com alguém, é necessário ter conhecimento disso (de preferência prático). Para uma fêmea, é necessário ser mulher, e não menina. Para o homem, é necessário ser homem mesmo, porque ser macho é fácil: difícil é ser homem.

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*Márcio Garcia Seufitele Pinto (O autor é funcionário público, revisor do Jornal Folha do Caparaó e “cata
feijão às vezes”, como dizia João Cabral de Melo Neto)


 



 

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