*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com

Já
estava mesmo na hora de voltarmos à Mona Lisa de Leonardo
Da Vinci como modelo para a nossa estética: rechonchuda,
com feição de gente mesmo, de carne e osso. Isso
significa retroceder, pois a Gioconda é moderna, enquanto
pós-modernas são as anoréxicas, que começaram
a morrer...
As modelos assassinadas recentemente pelas neuroses do sistema
estético internacional já não eram, na
verdade, modelos; eram manequins, só para vitrine. A
magreza nas passarelas nem inspira desejo e atração,
pois são de figuras que simplesmente não parecem
humanas. Parecem, isso sim, Barbies em tamanho real, como numa
revolução dos brinquedos.
Quem vende impulso sexual é propaganda de cerveja e calendário
de borracharia; as top models abaixo do peso normal são
armadilhas bem mais complexas, vendem idéias mais arrojadas,
do tipo: desnutrição não é mais
tragédia social, mas um conceito fashion de vida. Pelo
menos agora é possível homenagear aquela criança
morta de fome na Somália com um nome menos vergonhoso
para a sua certidão de óbito: “causa mortis:
anorexia”, finalmente, latim e grego para os iletrados!
Tudo começou com o pós-segunda-guerra-mundial,
ícone da tal pós-modernidade. Primeiro alguém
se levantou e disse: faça-se o estresse. Em seguida alguém
patenteou a depressão. Agora, surge emblemática
essa dupla, bulimia e anorexia, com direito a abordagem em novela
e tudo (e não da Glória Péres, mas do Manoel
Carlos!). Novos tempos, novas doenças. Para cada geração,
uma droga específica, um vício adaptado às
necessidades do cliente.
Mas será que existe algo de mais incrivelmente vazio,
mais laconicamente fútil e mais penosamente imbecil do
que essa fixação num ideal de corpo perfeito?
Quando as artimanhas do botox e similares não dão
conta do recado, costuma-se apelar para o verdadeiro frigorífico
das cirurgias plásticas, valendo tudo para esconder rugas
e manchas, como se alguém acreditasse na beleza armada
que costuma assaltar as colunas sociais. Especialmente as mulheres
esticadas, se soubessem a que ridículo se expõem,
e de que tipo de piadas são vítimas, relaxariam
de vez com o envelhecimento e seriam mais felizes.
É simplesmente absurdo o poder que a nossa sociedade
tem de ilustrar suas mazelas. Enquanto milhões e milhões
se alimentam às custas de programas sociais do governo,
inúmeros espaços de debate se formam entre profissionais
de diversas áreas para resolver o problema da anorexia
porque duas pessoas morreram há poucos dias. Que falta
nos um Herbert de Souza nestas horas...
*Pe. Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
