AS CULPADAS GRAVIDEZES

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
http://julianoribeiro.blogspot.com


O filho do governador do Espírito Santo, o doutorando em economia Gabriel Hartung, está publicando uma pesquisa sobre criminalidade realizada no estado de São Paulo, em que conclui, neo-malthusianamente, que a legalização do aborto seria a solução mais eficaz para a diminuição da violência. Seus estudos alegam que a queda no número de filhos de mães solteiras diminui a taxa de homicídios numa proporção bem maior do que a redução da desigualdade social ou o crescimento econômico.

A princípio, sou obrigado a afirmar: ainda bem que o filho de Paulo Hartung não faz doutorado em Humanidades... Ainda bem que ele não seguiu a carreira do pai e não se tornou um político influente nas bancadas brasileiras... Só mesmo um profissional dos números imerso numa versão tão desastrosa do capitalismo neoliberal poderia conceber uma atrocidade dessas.

A tese traz inúmeras contradições. Por exemplo, outras pesquisas mostraram também que grandíssima parte dos homicídios está relacionada ao consumo e comércio de drogas ilícitas. Por que não concluir que é preciso dar um basta às drogas para se diminuir a violência? Talvez porque isso seria bem mais custoso e desagradável às classes média e alta do que apenas eliminar embriões e fetos humanos nos úteros das que foram quase apontadas como as verdadeiras "culpadas" pela violência no Brasil: as mulheres negras, pobres, promíscuas e sem educação...

A solução monstruosa apresentada pelo novo doutor inova por não tratar a gravidez na adolescência, a vida sexual desordenada e a falta de planejamento familiar como assuntos para políticas de Estado e para reflexões da filosofia, da psicologia social ou da educação sexual. Segundo ele, tudo parece se reduzir à questão do desejo humano. A causa dos altos índices de violência no nosso país parece um problema de libido mal controlada e, conseqüentemente, gravidez indesejada.

A pesquisa pelo menos denuncia uma falácia da nossa sociedade pós-revolução sexual: como as instituições mais conservadoras sempre alertaram, distribuir cada vez mais preservativos a cada vez mais pessoas de idade cada vez menor não resolveu o problema das doenças sexualmente transmissíveis. Na ótica em questão, o país diminuiu a transmissão da Aids mas não conseguiu diminuir a outra doença que são os filhos indesejáveis. Está provado o erro fundamental desta malfadada cultura segundo a qual a relação sexual não tem contraindicações morais, nem está colada a valores familiares coisa alguma. Com isso, a máxima "ninguém é de ninguém" deixou de ser apenas o lema de festas adolescentes com alto grau de erotismo e está virando filosofia de vida de uma geração: ninguém tem o direito de podar os meus desejos; e nenhum dos meus desejos pode podar a minha qualidade de vida; se isso ameaçar, destruo o que for preciso para não perder em nada o MEU desejo, a MINHA qualidade de vida; e os outros que se danem logo, antes que cresçam e me metralhem pelas ruas.
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Juliano Ribeiro Almeida é presbítero da diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Email: julianorial@gmail.com

 



 

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