Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Bento XVI movimentou a economia no Brasil nos últimos
dias. Os meios de comunicação tiveram pratos cheios
de belas imagens e de frases de efeito do Sumo Pontífice.
Os vendedores ambulantes comemoram o estupendo crescimento da
venda de souvenirs com motivos religiosos. O que parece ter
sido bom para o catolicismo brasileiro, foi mais uma vez infinitamente
melhor para o capitalismo que grassa a sociedade e que consegue
fazer proezas com o jogo do "bate e assopra". Os detalhes
do vaso sanitário que o Pontífice utilizou ganham
de repente mais importância que o debate sobre aumento
dos salários dos parlamentares.
Entre
a cena do marido traindo a mulher e a da transa do casal de
namorados, vez ou outra ele aparecia ali na tela, o próprio
Papa, com o sorriso simpático e os braços estendidos
para saudar o povo brasileiro e falar da castidade. O presidente
Lula, que dia desses chamou de "hipócritas"
as pessoas e igrejas que criticavam suas fabriquetas escolares
de camisinha, aproveitou o ensejo para fazer auto-elogios e
"defender os valores da família". O ex-ministro
da Saúde José Serra, ora governador de São
Paulo, pediu a beatificação da Irmã Dulce,
que é aclamada justamente por ter levado adiante um grande
hospital filantrópico, já que os ministérios
da saúde historicamente não cumprem seu papel
de proporcionar atendimento decente à população
carente. Logo após o término fantasmagórico
de mais uma novela espírita daquelas que empurram o kardecismo
na consciência mal evangelizada dos católicos,
aparecem os jargões da rede que agora, em questão
de segundos, se torna a TV mais católica do mundo; com
a mesma rapidez com que o monsenhor secretário de Sua
Santidade o paramenta com a estola papal, ao vivo diante das
câmeras, a Rede Globo, em seu afã de contrapor
o risco comercial da TV do bispo Edir Macedo, fantasia-se de
cristã. As freiras, que na novela são tão
ridicularizadas e negativamente estereotipadas, na transmissão
da viagem papal são entrevistadas com respeito e ar quase
de heroísmo.
Nestes
dias solenes, teólogos de araque surgem repentinamente
nas redações de todos os jornais; e todos os agnósticos
se acham, por alguns momentos, um pouco católicos, no
fundo, no fundo. Quem nunca leu sequer um livro de teologia
na vida, de repente se acha no direito de avaliar a profundidade,
os enfoques e até mesmo o peso de cada declaração
do Papa. Católicos que não ocupam sequer seus
lugares no banco da missa aos domingos se acham no direito de
"reivindicar" aberturas e avanços por parte
da doutrina e da moral da Igreja. Paira uma ignorância
geral sobre a fé católica, camuflada de conclusões
carregadas de clichês e preconceitos.
E
agora, tudo permanece como sempre esteve. Enfim, a rotina regressa
e expulsa os últimos fragmentos de escrúpulos
espirituais. O aborto deixa de ser aquele assunto desagradável
que ninguém quer abordar e volta à pauta do dia.
O Brasil segue o procedimento do pato quando sai à chuva:
ele se deixa ficar por um tempo debaixo d'água, mas quando
para de chover, sacode-se todo e mostra que continua seco como
antes da chuva.
