Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Os
meios de comunicação em nosso país são
hipócritas e cínicos. Só no ano passado,
miraram em duas grandes personalidades religiosas no cenário
brasileiro e conseguiram tirar de circulação e
praticamente colocar em descrédito o Rabino Henry Sobel
e o Padre Júlio Lanceloti, ambos de São Paulo.
Ambos profundamente comprometidos, décadas a fio, com
causas sociais, com o processo democrático e com a promoção
humana. Ambos seres humanos, de carne e osso, pecadores como
todos nós, e também como todos nós passíveis
de erros.
Um
dos textos importantes para a espiritualidade da Quaresma é
Ezequiel 33,11, em que Deus afirma: "Não quero a
morte do pecador, mas antes que ele se converta e viva!".
Diante do que fizeram com o rabino e com o padre, apedrejados
moralmente pelos juízos do senso comum, parece que consigo
ouvir o Deus dos judeus e dos cristãos dizendo novamente:
"Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos"
(Is 55,8). Os critérios de Deus para julgar são
outros. Ainda bem! Senão estaríamos todos perdidos...
Não
estou granjeando aqui a inocência do rabino ou do padre.
A questão não é essa. O problema é
que, da forma como o conjunto da indústria da informação
apresenta polêmicas como essa do rabino que roubou gravatas
e do padre que supostamente teve envolvimento com um menor,
fica parecendo que todas as causas que eles defenderam, no fundo,
eram falsas, falaciosas e contraditórias. É como
se quisessem desqualificar não a pessoa ou o fato em
si, mas a causa com a qual a pessoa está identificada.
Ressoa,
por trás da estrutura da crítica pontual, a idéia
de que talvez não se deva defender tais e tais causas
com tanta veemência, já que todos são pecadores,
tendem para o mal e podem se contradizer. É a lógica
que muda o que Jesus disse aos que queriam apedrejar a mulher
adúltera: só quem nunca tiver pecado é
que pode denunciar o pecado.
O
rabino Henry Sobel sempre era entrevistado para falar sobre
a corrupção no cenário político
nacional. O padre Júlio Lanceloti sempre estava em evidência
porque saía em polêmica defesa dos menores infratores,
alegando que eram mais vítimas que culpados. Talvez isso
ajude a explicar por que foi investido tão pesado na
destruição desses dois ícones da moralidade
social. De uma forma que só mesmo a secreção
do capitalismo poderia inventar, de repente parece mais imoral
roubar uma gravata sob efeito de antidepressivos do que desviar
milhões em esquemas de falcatruas; a falta de limites
sexuais de um homem parece muito mais absurda do que os milhares
de crianças abandonadas pelas ruas das nossas grandes
cidades. Pelo menos foi isso que pareceu, pelo simples fato
de que os corruptos continuam mandando e desmandando (agora
sem um importante inimigo), e os menores continuam pelos semáforos
e esquinas (agora sem um importante defensor). E isso nos provoca
menos indignação do que as taras do rabino ladrão
e do padre pedófilo.
Pena
que a civilização ocidental obteve notáveis
sucessos na tentativa de transformar Jesus em apenas mais um
fazedor de máximas e clichês, senão ainda
causaria grande incômodo ouvi-lo dizer: "Hipócrita!
Tira primeiro a trave que está no teu olho; e então
verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão"
(Mt 7,5).
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*Juliano Ribeiro Almeida é sacerdote católico,
pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, de
Itapemirim-ES.
