*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Milhares
e milhares de servidores públicos de todas as instâncias
administrativas têm à sua disposição,
além do salário considerado dezenas de vezes maior
que as funções equivalentes na iniciativa privada,
um cartão que lhes permite cobrir os gastos inerentes
à sua prestação de serviços. Senadores,
deputados, ministros, assessores, gestores, secretários
e muitos outros podem, por exemplo, alugar carros, pagar passagens
aéreas e diárias em hotéis, comprar o que
acharem necessário à sua boa apresentação
e ao seu conforto, tudo pago pelo dinheiro público.
Notícias recentes trouxeram à tona alguns gastos
com o cartão corporativo que são no mínimo
estranhos: um gastou numa loja de tapioca, outro em lojas de
roupas, uma outra conseguiu gastar quase quinhentos reais num
freeshop, o que é realmente um mérito em criatividade.
Tudo isso nos leva a pensar no limite entre o que é realmente
necessário no trabalho desses servidores e o que é
luxo despropositado, caixa-dois ou abono ilegal.
Seguindo a lógica deste benefício e a prédica
da igualdade social que parte desse governo, deveríamos
supor que o correto seria acrescentar ao salário mínimo
da empregada doméstica, por exemplo, um crédito
para a aquisição de tudo o que ela necessita para
trabalhar bem. Imaginemos: ela receberia, além dos quatrocentos
e poucos reais que recebe, o equivalente a viagens de táxi
de sua casa ao local do trabalho, alegando que ir de ônibus
provoca estresse e prejudica a produtividade (logo, obviamente
cessaria o desconto daquela parte de seu salário para
a compra de vale-transporte); ela teria, de vez em quando, o
direito de tomar um banho de loja por conta da patroa para ir
trabalhar com um visual mais arrojado; poderia também
decidir comprar a vassoura, o uniforme e as panelas que ela
quisesse, custassem quanto custassem, além de mandar
decorar o quartinho-de-empregada com as cores da moda; poderia
ainda levar, de vez em quando, os fornecedores da residência
(o carteiro, o lixeiro, o transportador do supermercado a manicure
da patroa) para jantar na melhor churrascaria da cidade, alegando
que é importante manter boas relações institucionais,
para zelar pelo nome da família; e, enfim, poderia tirar
todo dia uma boa gorjeta na boca do caixa, só de luxo,
para a cervejinha de depois do expediente. Para manter a transparência,
todos esses gastos seriam postados no blog da cozinha, sem qualquer
necessidade de apresentar notas fiscais e de dar maiores explicações...
A teoria do Estado moderno supõe, como parte essencial
da sua filosofia, a burocracia. Dizem os positivistas de plantão
que, em si mesma, a burocracia é boa, que não
há problema com ela, e que só temos que acabar
com os excessos de burocracia, que podem vir a travar os processos
e impedir que as forças das estruturas fluam rumo aos
objetivos da organização. Acontece que, no modelo
de Estado que temos no Brasil, a “boa burocracia”
só consegue dar conta de investigar e de tentar punir
a “má burocracia”; não faz nada a
mais do que isso. Fico pensando, quando ouço as autoridades
defenderem a “preservação das instituições
democráticas”: para que? se essas instituições
ditas democráticas até agora não começaram
a trabalhar pelo povo, que lhe dá etimologia e sentido?
Karl Marx acreditava que a verdadeira liberdade para todos só
aconteceria quando esse tipo de Estado fosse completamente desmantelado.
Até aí eu concordo com ele: será inevitável
o desaparecimento desse tipo de Estado, que vai se consumindo
e se desgastando de escândalo em escândalo de corrupção,
cortando da própria carne para alimentar a própria
fome. Mas discordo do que colocar em seu lugar. Na prática,
os esquerdistas, tanto quanto os direitistas, só conseguiram
mudar o tom e a cor do problema. Privilégios, propinas,
tráficos de influência, desvio de verbas estão
debaixo do céu desde que o mundo é sociedade.
*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
