*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
No dia 7 de setembro de 1822, há exatos 184 anos, Sua
Majestade D. Pedro I, até então Príncipe
Regente da Coroa Portuguesa no Brasil Colônia, proclamou
a Independência do Brasil, às margens do Rio Ipiranga,
em São Paulo. Diz a lenda cívica que ele, de cima
de seu cavalo imperial, sacando a espada, gritou: "independência
ou morte!". E tudo aconteceu...
Afora os exageros criados pelos mestres da antiga disciplina
"Educação Moral e Cívica", encarregados
de colorir a história da nossa Pátria, dando um
tom de heroísmo onde havia apenas necessidades e interesses
políticos, comemoramos no 7 de setembro o surgimento
do Brasil como Nação, primeiramente como Império
e, depois de 1889, como República.
Não se pode falar da Independência do Brasil sem
recordar toda a história desta nossa terra, manchada
por corrupção, escravidão, descaso desde
o início. Para começar, recordamos o chamado "descobrimento"
do Brasil, no ano 1500, que, na verdade, não passou de
uma invasão inescrupulosa do Reino de Portugal às
propriedades indígenas até então cultivadas
por milhares de tribos. É bom lembrar que a ocupação
destas terras do então chamado Novo Mundo se deu mediante
interesses econômicos e políticos, uma vez que
a Europa estava vivendo o auge do mercantilismo e do Renascimento.
E
foi com muito sangue derramado que a Terra de Santa Cruz, como
foi chamada por Pedro Álvares Cabral, foi tomada das
mãos dos antigos proprietários. Povos inteiros
de índios foram simplesmente dizimados pela força
imperial, tendo sua cultura e sua religião desrespeitadas.
Os indígenas foram condenados ao trabalho escravo da
cana-de-açúcar, do café e de outras técnicas
do latifúndio. Nossa própria região, Itapemirim,
foi fundada por antigos habitantes do Caxixe, hoje município
de Conceição do Castelo, que fugiam de uma rebelião
indígena em resposta a toda a destruição
feita em sua cultura.
Como
os indígenas foram deixando de ser mão-de-obra
suficiente – primeiramente devido à sua destruição
– os portugueses começaram a trazer para o Brasil
os negros escravizados na África, que também estava
sendo invadida. Foram séculos e séculos de opressão,
inclusive com o respaldo da Igreja. Nossa Igreja Matriz de Itapemirim
carrega as marcas da escravidão. Há aqui muito
sangue africano derramado. Podemos imaginar os escravos carregando
as grandes pedras retiradas do fundo dos navios e armando a
construção dessas grossas paredes, ou ainda lavrando
as fazendas da cana-de-açúcar, para que os brancos
fazendeiros pudessem rezar e pedir a bênção
da prosperidade para aquela rentabilidade iníqua.
Enfim,
foram 322 anos de Brasil como colônia de exploração.
Nosso ouro e todas as nossas outras riquezas minerais, escoados
através deste nosso rio Itapemirim, alimentaram durante
séculos o luxo das capitais européias ou dos casarões
escravocratas. Em pagamento, o Brasil recebia levas de imigrantes,
ora criminosos banidos da Europa para pagar pena aqui, ora trabalhadores
rurais europeus desempregados, à procura de uma roça
em terras brasileiras. Foi assim que fomos formando a nossa
identidade brasileira.
Naqueles
inícios do século XIX, precisamente no ano 1808,
com a expansão do Império de Napoleão Bonaparte
a partir da França, a família real portuguesa
fugiu para o Brasil, considerado a parte dos fundos de seu imenso
quintal. Estabeleceu aqui alguma estrutura por causa disso e
deixou D. Pedro I como Príncipe Regente. Foi então
que, em 1822, a situação política da Coroa
não conseguia mais conter o clamor pela independência.
Muitas vozes no Brasil se levantaram contra a permanência
da colonização. Num gesto de esperteza e oportunismo,
D. Pedro I tomou a iniciativa de fazer aquilo que, querendo
ou não, iria acontecer por outras mãos: proclamou
o Brasil independente do Reino de Portugal. Não se tratou
de um gesto de benevolência, nem muito menos de solidariedade
para com a nossa terra. Ao contrário, foi uma forma de
a família real continuar usufruindo do poder, não
permitindo que os opositores da colonização dessem
um golpe de Estado.
O
Brasil Imperial durou apenas 67 anos e também se manteve
às custas da escravidão e da imensa desigualdade
social que assolava o nosso povo. Foi nessa época, precisamente
em 1860, que o Imperador D. Pedro II visitou a Vila de Itapemirim.
Algum tempo depois, em 1888, a Princesa Isabel proclamou a Lei
Áurea, que aboliu o sistema escravagista, também
sem qualquer ato de boa-vontade, mas por muita pressão
– em nível internacional, por parte do Império
Britânico, e internamente por parte dos republicanos.
Essa foi a gota d'água para que acontecesse, um ano mais
tarde, a proclamação da República.
Somente
de 1889 para cá é que, de uma forma ou de outra,
nós brasileiros pudemos tomar de fato as rédeas
da nossa história. Numa terra com 506 anos, há
apenas 117 anos nós podemos eleger nossos governantes.
E ainda é necessário levar em conta as inúmeras
estratégias das elites e dos militares para controlar
o processo político durante a maior parte do tempo. Nossa
república ainda foi geradora de muita exclusão.
Só aos poucos as mulheres e os analfabetos, por exemplo,
foram tendo o direito a votar. Lembramos ainda o golpe militar
de 1964 e os 25 seguidos sem eleições diretas.
Ao final de todo esse processo de luta, somente em 1989 é
que toda a população pôde eleger o presidente
da república, os deputados federais e senadores, os governadores
e os deputados estaduais. Em mais de cinco séculos de
domínio das elites no Brasil, são apenas 17 anos
de construção da democracia propriamente dita!
E
ainda há tanto por conquistar! Se, por um lado, o nosso
povo está cada vez mais consciente da sua responsabilidade
na condução dos destinos do Brasil, por outro
lado, este próprio povo tem estado profundamente desiludido
com o fato de estarmos nestes 17 anos gastando muito mais tempo,
dinheiro e preocupação apurando crimes de corrupção
do que discutindo e investindo num grande projeto de desenvolvimento
do país. Desde Fernando Collor de Melo, o primeiro presidente
que nós aqui pudemos eleger diretamente, até hoje,
não fizemos mais do que nos escandalizar com as contínuas
notícias de corrupção no meio político:
esquemas como o dos Anões do Orçamento e o de
PC Farias, que produziram o primeiro impeachment da nossa história;
ou ainda os desvios e desfalques nos cofres públicos
nas privatizações do governo Fernando Henrique,
a violação no painel eletrônico do Senado,
por Antônio Carlos Magalhães, a denúncia
do esquema de desvio de verba das estatais no pagamento do chamado
"mensalão", partindo do alto escalão
do governo Lula, e ainda as escandalosas relações
ilegais de congressistas com uma empresa fornecedora de ambulâncias,
no caso dos chamados "sanguessugas". E esses são
apenas alguns dos crimes de repercussão nacional, que
se tornaram ícones da grande bandalheira que parece ter
se tornado a vida pública neste nosso país. A
tudo isso, somam-se as ligações de deputados estaduais
e militares com o crime organizado no Espírito Santo,
o desvio de verbas da Assembléia Legislativa no chamado
"esquema das associações" (e é
bom que se lembre que dois dos sete acusados do "mensalão
capixaba" são eleitos principalmente por nosso município),
e muitos outras mazelas administrativas como nepotismo, tráfico
de influência, corrupção passiva, omissão,
impunidade.
Tudo
isso envergonha profundamente a nossa história e a luta
de nossos antepassados por um país decente e justo. Muitos
e muitas deram a vida e colocaram suas esperanças na
construção de uma sociedade livre e solidária,
fraterna e pacífica. Lembramo-nos, de forma especial,
da Ir. Cleuza, religiosa natural aqui do nosso município,
que se tornou missionária na região amazônica
e lá foi assassinada, lutando pela paz e pela justiça.
A
situação caótica em que nossa sociedade
brasileira se encontra hoje é conseqüência
direta de anos e anos de irresponsabilidade do poder público
e de falta de oportunidade, consciência e compromisso
dos cidadãos com o seu país. O modelo econômico
do neoliberalismo, forjado pelos países do então
chamado Primeiro Mundo, invadiu nossa economia e nos impôs
um estilo de vida que privilegia o mercado em detrimento da
pessoa humana, a instituição bancária em
detrimento do social. Neste cenário, o controle da inflação
torna-se mais importante do que a liberdade das pessoas, o risco-país
ameaça mais do que a fome e a violência. Neste
dia de comemorar a independência do Brasil, queremos fazer
ouvir o nosso grito por políticas públicas compromissadas
com o desenvolvimento para todos, com a igualdade social e a
justiça. Queremos hoje repudiar com todas as nossas forças
os políticos interesseiros, carreiristas, que se preocupam
apenas com sua permanência no poder! Repudiamos os corruptos,
os covardes, os omissos, os que compram e os que vendem votos,
os que praticam ainda hoje o voto de cabresto, os que votam
em determinados candidatos por interesses particulares, os que
votam naquele político que "rouba mas faz".
Como
cristãos, manifestamos nossa solidariedade para com todos
os excluídos, todos os que têm os seus direitos
violados ou que sofrem qualquer tipo de violência: os
que vivem na miséria, os analfabetos, as mulheres prostituídas,
os homossexuais, os embriões e fetos vítimas do
aborto, os dependentes químicos, os alcoólicos,
os menores de rua, os afrodescendentes discriminados, as tribos
indígenas desapropriadas, as mulheres vítimas
da violência doméstica, os encarcerados, os portadores
do vírus da AIDS, as pessoas com qualquer tipo de deficiência,
os que são discriminados por motivos religiosos ou ideológicos,
os que trabalham em regime de escravidão, os desempregados,
os vendedores ambulantes, os circenses, os ciganos, os sem-terra,
os sem-teto, os idosos, os que não têm acesso à
informática, os que não têm acesso à
universidade pública, bem como todos os outros cidadãos
e cidadãs que não estão sendo incluídos
no processo de construção deste país.
Este
ato cívico não tem compromisso com qualquer partido
político, ideologia, candidato, classe social ou sindicato,
mas apenas quer ser o grito de todos os excluídos e excluídas
do nosso país. É como irmãos e irmãs,
compromissados com a paz e com a justiça, que vamos,
em união com todos estes excluídos e excluídas,
entoar juntos o Hino da Independência: "ou ficar
a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil".
Itapemirim-ES,
7 de setembro de 2006.
*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
