O EMBUSTE "PAPAI NOEL"

*Pe. Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


Papai Noel é a grande figura do paganismo da atualidade: com suas renas voadoras, com os duendes funcionários de sua fábrica de brinquedos, sua mensagem soa muito mais a um esoterismo espiritualista do que ao espírito natalino propriamente dito. Sua caridade é vazia e estéril, seus ilusórios presentes são mágicos e não passam de resposta a pedidos feitos a partir das frustrações do ano; falta criatividade a Papai Noel. Seus criadores não compreenderam que o gostoso dos presentes de natal é que são eminentemente gratuitos e têm a graça de surpreender.

Toda criança da minha geração cresceu ouvindo dizer que era preciso ser um "bom menino" para ser recompensado pelo "bom velhinho" no fim do ano; quem não tirasse boas notas, quem não fosse obediente aos pais, quem fosse um exemplo de criança não receberia, na noite de natal, o "pagamento" pelo bom comportamento. Isso tudo não passa de uma manobra ideológica – ainda que de boa intenção – para controle social; e ainda por cima, excludente: como exigir de uma criança de escola pública que tenha que trabalhar para ajudar os pais no orçamento e que viva numa situação de risco social, sem referências morais, que ela se comporte bem? O que seria se comportar bem? Isso é o supra-sumo do positivismo pequeno-burguês, do capitalismo mais conservador e de uma direita reacionária.

Teologicamente, a exigência do "bom comportamento" para ser premiado por Papai Noel vai em sentido diametralmente oposto à mensagem do cristianismo, que tem a patente do natal. Jesus disse que não veio chamar os justos, mas os pecadores (cf. Mc 2,17). São Paulo diz que Jesus morreu por nós quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5,8). São João afirma que "n isto consiste a caridade: não fomos nós que amamos a Deus, mas Ele que nos amou primeiro" (1Jo 4,10). O menino Jesus não veio por uma chaminé para as crianças que tiraram boas notas! Ao contrário, ele nem encontrou um lugar digno onde reclinar a cabeça (cf. Lc 2,7; Mt 8,20), e foi visto primeiramente por pobres pastores – certamente iletrados e sem chaminé em casa...

Jesus disse: "deixai vir a mim as criancinhas" (Lc 18,16). O natal deste paganismo todo condena as crianças a uma grande decepção, que as leva a querer distância do Papai Noel quando descobrem que ele simplesmente não existe. O pior é que a maioria das pessoas acaba associando o embuste Papai Noel à pessoa de Jesus Cristo: tanto um como outro vão deixando de ser levados a sério, entrando para a categoria de fábula infantil. Jesus Cristo torna-se uma figura lendária e distante para os nossos adolescentes, assim como Papai Noel.

Enfim, se pudéssemos ouvir a verdadeira origem de Papai Noel, o bispo São Nicolau, ele certamente diria hoje como João Batista disse em relação a Jesus: "é preciso que Ele cresça e eu diminua" (Jo 3,30).

Em alguns lugares, está sendo proibida a montagem do presépio, com o argumento de que a sociedade precisa ser laica e secular, neutra religiosamente. Por que então não proíbem o Papai Noel, esse, sim, convenientemente acusado daquele conceito marxista de religião como "ópio do povo"? É preciso que estejamos atentos para alguns riscos que estão aí: primeiro, não se pode tapar os olhos para o fato de que a cultura ocidental foi forjada pelo cristianismo; segundo, não se pode confundir tolerância às diferenças com falta de liberdade religiosa.



*Pe. Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES


 



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