Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
http://julianoribeiro.blogspot.com
No dia 29 de junho, proferi uma conferência
no I Seminário dos Servidores e
Vereadores da Câmara Municipal de Marataízes sobre
este tema abaixo.
Conceito
de ética
Fui
convidado para proferir aqui uma conferência sobre "A
ética no serviço público". Irremediavelmente,
tenho que partir daquele ponto que toda palestra sobre ética
o faz: da etimologia. Ética vem do grego "ethos",
que, segundo Leonardo Boff, significa "aquela porção
do mundo que reservamos para organizar, cuidar e fazer o nosso
habitat" (BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Vozes: Petrópolis,
1999, p. 27).
Ética,
portanto, é o conjunto de atitudes concretas que tornam
a casa arrumada, fazendo com que seja possível morar
nela. Ética está relacionada com moral porque
é, fundamentalmente, um conjunto de atitudes morais.
Mas ética não é um sentimento, um modo
natural de ser, algo inato. Ninguém nasce ético.
O ser humano, no processo mesmo de ir se tornando humano, vai
descobrindo a ética, vai se tornando ético, como
necessidade para a conservação da vida sobre a
terra.
Versão
filosófica para "pecado original"
A
doutrina cristã, fundamentada sobretudo na Carta de São
Paulo aos Romanos – mas também com grande contributo
de pensadores do início da Igreja como Santo Agostinho
– ensina que existe no ser humano uma tendência
para o mal. Embora não tenha sido planejado imperfeito
pelo Criador, o homem, desde os inícios, usou de seu
livre arbítrio para fazer insistentes opções
contrárias à vontade de Deus. É assim que
se compreende o chamado "pecado original": depois
da queda inicial, o ser humano se manchou na corrupção
da escolha mal feita e carrega consigo, para sempre, as conseqüências
daquele erro primordial. E pior: a humanidade vai transmitindo,
de geração em geração, essa herança
negativa. Pelo próprio fato de alguém nascer,
já nasce pecador. Pelo próprio fato de alguém
vir a este mundo, já participa da atmosfera de pecado,
já faz parte deste mundo que foi corrompido por uma opção
categórica pelo mal, pelo vício, pelo erro.
E
quem constata isso não é só a religião:
as ciências humanas lidam o tempo todo com a grande contradição
que existe dentro de cada pessoa humana. Se a filosofia é
a procura incansável daquela sabedoria que edifica a
pessoa, isso significa que há uma sabedoria partida em
nós. Se a psicologia surge em busca da reconciliação
do homem com seu próprio ego, isso quer dizer que existe
em volta dele uma série de rupturas, traumas, feridas.
Enfim, o Direito existe porque a sociedade não é
naturalmente moral, mas precisa sempre de leis que garantam
a punição e a recuperação da pessoa
que cometeu um crime.
Quem
trabalha com público e lida com pessoas sabe muito bem
o que significa essa tendência natural da humanidade ao
declínio. Basta estarmos um pouco atentos ao fenômeno
do ser humano para concluirmos que toda pessoa humana é
uma fonte inesgotável tanto de bem quanto de mal. Jesus,
certa vez disse: "É do coração que
saem as más intenções: homicídios,
adultérios, imoralidade sexual, roubos, falsos testemunhos
e calúnias" (Mt 15,19). A pessoa humana é
um diamante que precisa ser lapidado para mostrar a sua beleza:
a princípio, toda criança é um poço
de egoísmo, todo adolescente é propenso à
rebeldia, todo jovem se inclina aos vícios, todo cônjuge
chega a cogitar o adultério. Isso não é
pessimismo antropológico; é a realidade! Quem
jamais experimentou a tentação? Quem jamais esteve
prestes a cometer um crime na vida? Quem é imune aos
chamados "sete pecados capitais" (soberba, avareza,
luxúria, ira, gula, inveja e preguiça)? Se não
entrarmos em contato com as regiões obscuras que trazemos
em nosso interior, não conseguiremos dar o passo seguinte,
que é a construção da ética.
Na
religião judaico-cristã, viver de forma ética
tem um nome: santidade. Do hebraico, qadosh, que significa "o
que foi separado dos outros", a palavra santo(a) expressa
aquele(a) que foi retirado do meio dos corriqueiros, dos comuns,
dos simples pecadores. A própria idéia de santidade,
portanto, já traz em si essa consciência: como
diz o ditado popular, no fundo somos todos "farinha do
mesmo saco". Se quisermos viver a ética, o primeiro
passo é reconhecer que, se não estivermos atentos
e vigilantes, voltamos à imoralidade geral, ao lamaçal
da corrupção deste mundo.
Sabemos
que todos almejam à felicidade, ao bem-estar, à
beleza. Essa é a única prova que temos contra
o pessimismo. Ao mesmo tempo em que é inclinado ao mal,
o ser humano também tende à felicidade. O mito
que ilustra o pecado original é a história de
Adão e Eva (Gn 3): eles não comeram o fruto proibido
pelo simples prazer de desobedecer a Deus. O que eles queriam,
na verdade, era o conhecimento do bem e do mal, isto é,
eles almejavam a felicidade de Deus. Os fins de Adão
e Eva eram nobres, os meios é que foram trágicos...
Quando Maquiavel lançou a sua máxima "os
fins justificam os meios", ele também certamente
nos ensinava a buscar não o mal em si, mas o bem que
sempre está no fundo de toda e qualquer intenção.
Penso
que precisaríamos desviar a idéia de evolução
da dimensão técnica para a dimensão ética.
Às vezes a corrupção, por exemplo, acontece
porque a pessoa, que traz em si esse desejo de evoluir enquanto
sujeito, enquanto cidadão, enquanto consumidor, não
mede as conseqüências de sua busca, e aceita até
mesmo cometer o crime de desviar dinheiro público para
dar mais conforto à família, para ter mais beleza
e qualidade de vida etc. Note-se que conforto, beleza e qualidade
de vida são bens, são desejos bons e defensáveis.
O problema está na compreensão geral de que essa
"evolução" está no objeto em
si mesmo e não no conjunto de atitudes que estão
ao redor do objeto. Dinheiro é algo conveniente, necessário
e bom, mas, como todo bem, não é absoluto: é
relativo! Absolutos não são os bens, mas os valores:
verdade, honestidade, liberdade, justiça, paz etc. Nesse
sentido, evoluir verdadeiramente significa tornar-se mais ético,
mais transparente, mais correto nas coisas, isto é, viver
em função dos valores, independente dos bens que
esses valores trarão. Migrar da classe média para
a classe alta não deve ser visto como uma evolução.
Deixar uma vida cheia de erros para uma vida mais regrada, isso,
sim, é evoluir. Só se pode dizer que a humanidade
evoluiu ao longo dos séculos porque ela cresceu na vivência
dos valores. Um país evolui não porque tenha instalado
mais fábricas, mas porque seus índices de distribuição
de renda melhoraram (isto é, ele cresceu em justiça
social), seu desenvolvimento foi se tornando mais sustentável
(ou seja, ele cresceu na responsabilidade ecológica),
a democracia foi sendo fortalecida (o que quer dizer que cresceram
os valores da igualdade e da liberdade).
Corrupção
na política: regra ou exceção?
Ao
falarmos do serviço público, estamos falando de
política. E falar de ética na política
soa hoje, a muita gente, um discurso ultrapassado, idealista,
desencarnado ou pelo menos ingênuo. Está em voga
a afirmação, que tem se tornado cada vez mais
consensual, de que "todo político é corrupto".
Essa afirmação não está correta.
Podemos, sim, dizer que "todo político é
corruptível", e isso simplesmente porque todo político
é um ser humano, portador do "vírus"
do pecado original; mas nem todo político se corrompe.
Na
verdade, não há como impedir que o ser humano
se corrompa. Na humanidade sempre vai haver erro, engano, mentira,
vício, desonestidade, inveja, suborno, vingança,
negligência, omissão e seus correlatos. O que não
pode acontecer é que a corrupção seja instituída.
As instituições da nossa política não
podem se corromper. Os órgãos públicos,
as instâncias do poder e a prestação de
serviço estatal não podem ser identificados com
a desonestidade. É preciso sanar todas as brechas morais
do nosso sistema político, para que a corrupção
não se instale ali. É como uma doença contagiosa
diante de um paciente com baixa imunidade: se houver exposição
ao risco, a contaminação é quase certa...
É preciso desinstitucionalizar a corrupção.
Frei
Beto, em entrevista ao jornal A Gazeta no último dia
24 de junho, afirma justamente isso. Ele dizia: "É
importante compreender que não basta exigirmos ética
dos políticos. É necessário exigir ética
na política. Ou seja, a instituição política
precisa ser de tal maneira ética que, ainda que uma pessoa
queira corromper alguém ou ser corrompida, isso fique
apenas no desejo. Não pode se tornar uma prática"
(p. 22).
A
corrupção da política sempre foi e sempre
será uma exceção. Ela nunca será
"normal", ainda que venha a ser comum. Ela nunca se
tornará voz corrente, ainda que esteja na moda. Ainda
que a maioria dos políticos praticasse desonestidades,
a política não perderia sua dignidade, sua altíssima
vocação de espaço nobre para a construção
do bem de todos.
Uma
ética de atitudes
Mas
como não viemos aqui para falar da corrupção,
mas sim da ética, vamos a ela. É preciso superar
a idéia de que viver a ética seja simplesmente
praticar ações politicamente corretas. Ética
não se refere a ações, mas a atitudes.
Não se é necessariamente ético apenas porque
se deu uma colaboração a uma entidade carente
ou porque se devolveu o dinheiro de alguém que o perdeu.
Essas ações são moralmente louváveis,
mas são insuficientes para se afirmar que se trata de
ética. Viver a ética significa ter uma determinada
postura diante das coisas, adotar um tal estilo de vida, fazer
uma opção fundamental e viver em coerência
com ela.
Ser
ético não é apenas ser responsável.
A palavra responsabilidade tem a mesma raiz que resposta, e
significa responder bem a um compromisso ou a um impasse. Mas
é preciso mais do que responsabilidade para se ser ético.
Mais do que responder bem às questões que forem
aparecendo, a ética procura ter iniciativas morais. Ser
ético significa ser mais proposta do que resposta. A
atitude ética é aquela que ousa, propõe,
tem criatividade, vai atrás mesmo sem ter essa obrigação.
O
que sustenta o serviço público neste país
não são os protocolos bem cumpridos, os horários
de serviço bem observados e as consciências tranqüilas
dos que fizeram nada mais do que deviam fazer. O que sustenta
o serviço público neste país é a
proatividade de servidores que fazem mais do que a lei pede
e menos do que a lei proíbe, a perseverança dos
que se acreditam na dignidade do que fazem apesar de tudo, o
voluntariado de pessoas que não pensam só no próprio
bem-estar. Enfim, a ética da responsabilidade tem que
se ampliar e se tornar ética do cuidado com a coisa pública.
Francesco
Cultrera afirma:
O
nó ético da política não é
a moral privada. Uma honestidade pessoal a toda prova não
confere, sozinha, a autorização para ascender
na luta política... A honestidade pública [...]
supõe uma base de maturidade humana e de atitudes (CULTRERA,
Francesco. Ética e política. Ed. Paulinas: São
Paulo, 1999, p. 37).
A
ética num mundo de departamentos
Estamos
vivendo uma onda de grande especialização em tudo
o que se faz. Tudo é cada vez mais específico.
Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos assuntos. A exemplo
do que foi acontecendo na medicina, a ética também
parece estar se afunilando para caber em departamentos cada
vez especialistas em cada coisa. Há uma ética
na ecologia, por exemplo, que prega que não se pode matar
tartaruguinhas, dizendo que isso é uma falta grave. Mas
os especialistas nesta ética não pensam ser também
seu dever defender com ainda mais afinco a vida de embriões
humanos.
No
campo do Direito, abre-se também um fosso moral difícil
de tapar. Há advogados especialistas em crimes chamados
de "colarinho branco". Eles estão disponíveis
ao acionamento do legítimo direito de defesa de que todo
cidadão goza. O problema é que às vezes
esse direito de defesa vai se fortalecendo com artifícios
tais como foro privilegiado, imunidade parlamentar etc e acaba
alimentando a indústria da impunidade. Em nome da ética
profissional, do sigilo jurídico e do legítimo
direito a se recorrer a um advogado, chegamos a atrocidades
como esse dado: como gosta de dizer o nosso presidente, "nunca
na história desta república...", jamais se
puniu sequer um político acusado de corrupção.
Em centenas de processos abertos contra membros do poder legislativo
federal, nenhum dos acusados foi punido; mesmo quando o crime
foi provado, a sentença jamais foi executada, por causa
do absurdo: eles mesmos se dão as leis punitivas e coercitivas.
Quando eu mesmo me torno a minha própria lei, então
já não há leis para mim, e nada pode me
colocar limites. Num sistema político desses, como é
possível falar de ética no serviço público?
Como exigir que o funcionalismo público honre a instituição
em que trabalha, se esta instituição já
não tem honra por princípio e por direito?
Há
uma esquizofrenia moral no ar. A síndrome das duas personalidades
invadiu o cenário político nacional. Estamos em
pleno conflito entre vida privada e vida pública. De
repente, a vida íntima das pessoas vem à tona;
gravações telefônicas denunciam crimes dos
mais diversos: do adultério ao desvio de verbas; da prostituição
à ligação com o narcotráfico. Isso
gera a falsa impressão de que todos estamos sendo vigiados
o tempo todo, e que a solução está aí.
É como a ética do elevador: o fato de estarem
filmando as subidas e descidas não garante que ali não
esteja acontecendo um crime; ninguém ali no vídeo
parece um criminoso ou se porta como um; contudo, pode ser que
esteja levando uma mala – ou ainda uma cueca – cheia
de dólares sujos... Vigiar não resolve o problema
da ética. Se assim fosse, bastaria inventar o grampo
telefônico e tudo se resolveria. Punir só também
não. O fato de a Polícia Federal estar prendendo
mais gente não nos garante nada além da certeza
de que os criminosos investirão mais em tecnologia e
farão mais cursos de eficiência no trabalho.
Cultrera
ressalta que "[...] o homem, às vezes, traz consigo
mesmo uma contradição, uma espécie de desdobramento:
existem pais afetuosos e ternos, que sabem amar e educar os
filhos; e não são fiéis à esposa"
(CULTRERA, p. 40). Nesse sentido, muitas pessoas, ou por suma
ingenuidade ou por se beneficiarem mesmo, dizem: "não
acredito que fulano de tal seja corrupto; ele é tão
caridoso, tão humilde!". Mas a ética não
é um acessório garantido nos simpáticos,
nos solidários ou nos religiosos. Há antipáticos
e ateus que vivem a ética. Por outro lado, há
pessoas consideradas exemplares em algumas áreas e que
são totalmente reprováveis em outras.
Concluindo
Se
a ética é a casa do homem, a morada do ser, o
nosso habitat, precisamos trabalhar não simplesmente
para mostrar a nossa própria incorruptibilidade, mas
para tornar a nossa função incorruptível,
para que, depois de nós, nenhum dos nossos sucessores
se sintam convidados à desonestidade. As funções
que desempenhamos devem ser transparentes, limpas, objetivas,
sem duplicidades e incoerências. É assim que essa
morada vai se tornando habitável. É assim que
vamos evoluindo verdadeiramente, não com a evolução
darwiniana, que só nos garante a ascendência dos
macacos e nada mais.
