**Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Na
semana passada, estreou nos cinemas de todo o Brasil o filme
"O Código Da Vinci", considerado a bilheteria
mais esperada do ano, que certamente será um dos maiores
sucessos cinematográficos dos últimos tempos,
se seguir o estrondo de vendas que teve o livro que o inspirou.
Não
há mais como desautorizar a obra; isso já foi
feito e também vendeu bastante. Mas não adianta
mais, pois a campanha já obteve o efeito desejado; e
tudo colaborou para que a expectativa enfim vencesse o receio:
até mesmo os pronunciamentos contrários ao filme
por parte de algumas instâncias da Igreja Católica
já cumpriram o seu papel de incentivar ainda mais a curiosidade
do público. O polêmico nunca vai ser tão
gostoso de se devorar quanto o proibido.
O
fato é que o filme está aí e todos assistirão
a ele. O público não-leitor também vai
ter acesso à intrigante investigação do
professor de simbologia religiosa Robert Langdon e da criptógrafa
Sophie Neveu sobre um assassinato em Paris envolvendo um membro
de uma antiga confraria que guarda alguns grandes pretensos
segredos:
Na
p. 251 do livro, faz-se um grande alarde para se dizer que Jesus
foi um "homem mortal". Grande coisa! A própria
profissão de fé dos cristãos já
afirma isso: "padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado,
morto e sepultado". O cristianismo professa que Jesus morreu
de verdade, pois assumiu em tudo a condição humana.
Adiante,
na página 273, revela-se que Jesus é "um
profeta totalmente humano". Onde está a novidade
nessa afirmação!? Os cristãos acreditam
que Jesus era, sim, verdadeiramente humano, mas isso não
significa negar que Ele seja também divino. A doutrina
cristã sempre afirmou que Cristo é "verdadeiro
Deus e verdadeiro homem", e não metade Deus, metade
homem.
Um
dos erros crassos de Dan Brown foi apresentar a interpretação
que alguns evangelhos apócrifos fizeram desse "segredo"
e apresentá-los como algo guardado a sete chaves pelo
Vaticano, quando na verdade eles estão publicados, estudados
nos seminários e facilmente localizados em sebos de toda
sorte. Parece que a receita do autor é a mesma boa e
velha tempestade em copo d'água; a mesma utilizada já
em outros filmes, como Stigmata e O Corpo, por exemplo.
Quando
se achava que a teoria do Santo Graal não alcançaria
um lugar mais digno que aquele em Indiana Jones, lá vem
a inusitada nova versão dos fatos: o Santo Graal não
seria verdadeiramente o cálice da última ceia,
mas a notícia de que o discípulo amado não
era João, o evangelista, e sim Maria Madalena, com quem
Jesus teria se casado e estabelecido uma descendência
que hoje vive na França.
No
final das contas, o filme terá mais condições
de atrair um incrédulo que se interesse pelo cristianismo
do que abalar a fé de um cristão mediano com um
mínimo de inteligência histórica.
*Este
artigo foi publicado no jornal A GAZETA no último sábado,
dia 27 de maio.
**Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
