*Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
A
Igreja Católica não é uma democracia, diga-se
de uma vez. A Igreja não acredita que "a voz do
povo é a voz de Deus", e a história de Israel,
"povo de dura cerviz", mostra isso. A hierarquia católica
não foi simpática à derrocada da monarquia
na Europa, nem às proclamações das repúblicas
modernas, que significaram o crescimento do secularismo dos
Estados. Porém, no século XX, essa mesma Igreja
desenvolveu sua Doutrina Social e se colocou decididamente do
lado dos processos democráticos, sendo voz de inúmeros
anseios dos povos pelo fim dos autoritarismos e ditaduras militares.
Hoje, a Igreja Católica é reconhecidamente uma
organização que fomenta a reflexão sobre
o processo democrático e zela pela moralização
das instituições republicanas.
A
América Latina, nesta primeira década do século,
vem se modificando profundamente na sua política –
mais que em sua economia – no que diz respeito à
elevação ao poder de figuras representativas das
bases, advindas das esquerdas. Brasil, Equador, Chile e alguns
outros governos vêm se evidenciando no cenário
internacional como contestadores (ainda que como "fogo
amigo") da antiga ideologia imperialista estadunidense,
mas é na Venezuela que a situação tem sido
mais paradigmática. Para fazer frente às doutrinações
colonialista, capitalista e neoliberal, que nos legaram séculos
de atraso no desenvolvimento e exploração na cultura
e economia, Hugo Chávez se apresenta como um ícone
do levante latino-americano e da afirmação da
"vontade popular". Declaradamente seguidor das idéias
de Simón Bolívar, líder revolucionário
que entre os séculos XVIII e XIX lutou pela independência
dos povos da América do Sul, Chávez usa e abusa,
sem escrúpulos, de sua condição de militar,
identifica sem medo o projeto de reconstrução
da Venezuela com suas convicções socialistas,
escancara com deboche e certa arrogância a sua ojeriza
a tudo o que lembra a monarquia e o capitalismo.
Hugo
Chávez vem recebendo forte oposição da
Igreja Católica na Venezuela, primeiramente por causa
de suas idéias socialistas, já que o catolicismo
e o comunismo nunca se deram; mas sobretudo por causa das atitudes
radicais que vem tomando: não renovou a concessão
do maior canal televisivo do país por considerá-lo
traidor da revolução, modificou as cartilhas escolares
para implantar outra versão da história da América,
está há nove anos no poder e planeja modificar
a Constituição para permanecer por mais tempo
etc. Recentemente, Chávez enfrentou até mesmo
o Papa, ao criticar duramente seu discurso em Aparecida no qual
afirmou que o Evangelho trazido para a América nunca
incentivou a exploração.
O
presidente Chávez é, de fato, um risco à
democracia pensada como estamos acostumados a pensá-la,
ou seja, do ponto de vista das nações ricas; mas
é um risco muito maior à política de dominação
que as nações ricas vêm empreendendo na
América Latina como se fosse "colaboração".
Chávez, até mesmo ao exagerar com a ideologia
socialista, nos ajuda a perguntar: por que não nos revoltamos
contra a ideologia capitalista ? Ao ensaiar uma verdadeira ditadura
marxista, ele deve nos fazer pensar: por que não temos
medo da ditadura neoliberal ? Ao sermos prudentes com Chávez,
não podemos esquecer de sê-lo muito mais com Bush,
este sim, um perigo mundial, líder de um projeto explorador
que já assassinou centenas de milhares de pessoas pelo
mundo em nome da civilização e da paz à
la Tio Sam.
Para nós, cristãos, continua atual a velha pergunta:
o que é melhor? uma ditadura com justiça social
ou uma democracia com privilégios para poucos? Como eliminar
o que há de pior nas duas opções?
*Juliano Ribeiro Almeida é sacerdote católico,
pároco de Itapemirim. julianorial@gmail.com
