*Marcio
José Furtado
marciofurt@yahoo.com.br
Atualmente,
está sendo um tormento para os bacharéis em Direito
enfrentar o exame da Ordem. Só se vê anunciado
que a grande maioria não consegue aprovação.
O que está acontecendo? Será que as pessoas não
têm competência nem para ingressarem na profissão,
ou não foram devidamente preparadas? Não somente
na advocacia, mas em todas as profissões deveria existir
um exame que barrasse aqueles que não têm condições
de exercer a profissão para a qual tentou buscar, no
curso superior, os ensinamentos mínimos necessários.
Evidentemente que existe
uma grande pressão da Ordem dos Advogados contra a abertura
de novos cursos de Direito, bem como a continuação
de cursos já existentes e reconhecidos pelo MEC. Apertar
no exame da Ordem é a forma correta de impedir que maus
profissionais sejam colocados no mercado, mas não deve
ser a única maneira de mostrar que os cursos sejam ruins.
Na verdade, existem Instituições de Ensino Superior
(IES) que deveriam ser fechadas mesmo, não só
por causa do curso de Direito, mas por outros que botam profissionais
no mercado com muito mais responsabilidades do que um advogado,
como é o caso de médicos, enfermeiros, engenheiros
e outros tantos que colocam a vida das pessoas em risco.
O nível de ensino
está ruim? A estrutura das IES contribui para a má
formação dos profissionais? Muitas vezes, é
através da estrutura física e pedagógica
que os cursos são reconhecidos pelo MEC. Tem, também,
as provas do ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes)
que é um dos processos de avaliação. Todavia,
diante de tantos métodos e exigências para o reconhecimento
dos cursos, o MEC continua autorizando a abertura de novos cursos
sem critérios. É comum muitas IES apresentarem
uma estrutura invejável e terem os piores cursos. Enquanto
outras funcionam em locais não muito apropriados e oferecem
um ensino de altíssima qualidade. Na verdade, as IES
deveriam se comprometer mais com a formação de
profissionais com maior capacidade de disputar o mercado de
trabalho, ao invés de apenas se preocuparem com os valores
das mensalidades. Deveriam, para tanto, valorizar mais os profissionais
do ensino e exigir mais empenho dos mesmos no exercício
de suas funções.
Em toda a problemática
que vem afetando a qualidade do ensino no Brasil, em muitas
IES particulares, é muito comum o ingresso de pessoas
que conseguem aprovação no processo seletivo e
não têm nenhuma base para o aprendizado, sem contar
que existem muitos alunos de curso superior que vão à
faculdade brincar de estudantes e outros que apenas vão
passear. Infelizmente, muitos desses indivíduos conseguem
chegar ao final do curso, são diplomados e não
conseguem exercer a profissão porque são incapazes.
É aí que se pode dizer que não é
a escola que faz o aluno e, sim, é o aluno quem faz a
escola. A culpa é do aluno? Não. Como a escola
sobrevive das mensalidades desses alunos, é mais comum
fazer vistas grossas e esquecer-se do comprometimento que deveria
ter com a qualidade do ensino.
Na realidade, a culpa
maior é do governo que não se preocupa com a educação,
na sua fase inicial (ensinos fundamental e médio), comprometendo
todo o processo de aprendizado posterior, uma vez que, sem uma
base sólida não é possível construir
o arcabouço necessário que dará ao aluno
as condições favoráveis para ser um bom
profissional. É fácil verificar tudo isto, quando
se observam os resultados da última avaliação
do ENADE, em que alunos dos cursos de Administração
foram examinados, onde a Universidade Federal Do Espírito
Santo foi a única a obter o conceito máximo. Quem
estuda na UFES? Não é difícil saber. São
alunos que, na grande maioria, se preparam nas melhores instituições
do estado e passaram a ter maiores condições de
aprendizado no curso superior, quando comparados com os das
IES particulares. Evidentemente, que aqueles alunos estarão,
na certa, mais capacitados, mostrando que é necessário
um maior investimento do estado nos ensinos fundamental e médio,
principalmente no que se refere ao corpo docente que, além
da valorização em termos salariais, deve passar
por um processo de reciclagem, bem como deve ser revisto o processo
de administração escolar que deixa muito a desejar.
Algum tempo atrás,
o profissional do ensino, embora ainda não recebesse
o quanto merecia pelo trabalho prestado, tinha como principal
atividade a de ser professor. O tempo foi passando e, hoje,
a maioria faz do ensino um bico e, ainda por cima, não
tem um comando que exige o cumprimento das tarefas, deixando
a educação em segundo plano, o que é lastimável.
De quem é a culpa? Também não é
difícil saber. Não existe vontade política
e nem políticos com vontade de resolver a questão.
Parece que é mais vantajoso para os políticos
que continuemos despreparados, porque assim eles conseguem convencer
a mais pessoas e vão prosseguindo, também com
incompetência, à frente da administração
de nosso país.
Hoje, no Brasil, um dos
grandes problemas não é a falta de emprego. É
a falta de pessoas capacitadas para o exercício das funções
da maioria dos cargos que são oferecidos em todas as
áreas profissionais. Na Indústria, no Comércio
e nas empresas de Prestação de Serviços,
da iniciativa privada, existe uma demanda grande por mão-de-obra
capacitada e as pessoas não estão preocupadas
em buscar esta capacitação, aumentando o contingente
de desempregados, principalmente nos grandes centros urbanos.
Já nas instituições públicas, o
caso é diferente. Como não se busca pessoa capacitada
para os cargos disponíveis e, sim, oferecem-se cargos
àqueles aos quais os dirigentes fizeram compromissos
de campanha, a capacitação sempre estará
fora de cogitação, o que faz do serviço
público uma vergonha para todos nós.
Acho mesmo que a OAB
está certa nas exigências do exame da Ordem, embora
não concordo com a idéia de que cabe à
OAB decidir pela abertura ou não de mais cursos de Direito,
uma vez que é melhor termos uma grande quantidade de
bacharel em Direito desempregado do que um punhado de profissionais
sem nenhuma qualificação desenvolvendo atividades
que deveriam estar nas mãos de pessoas com melhor capacitação.
Incompetência é
o que se vê naqueles que não querem um Brasil melhor,
não fazendo nada pela educação no país.
Enquanto, má formação é o que se
tem como resultado das ações de nossos governantes
que ainda não viram que “é melhor as pessoas
estarem preparadas e não terem uma oportunidade, do que
terem uma oportunidade e não estarem preparadas”.
Incompetência é o que se tem hoje em algumas IES,
em nível de administração, coordenação
e corpo docente que, indiscriminadamente vão colocando
no mercado, com raras exceções, profissionais
sem a mínima condição de exercer qualquer
função. De que adianta toda uma estrutura física,
se não existe qualidade de ensino e, muito menos compromisso
com os próprios funcionários (incluindo professores)
que fazem o tempo passar, trabalhando desmotivados? Quanto aos
professores, até que têm alguns com bastante capacitação,
mas que não ensinam porque são irresponsáveis
e outros que, embora estejam sempre presentes nas salas de aula,
não conseguem a eficácia esperada, porque não
têm a preparação necessária. Por
que a OAB não se intromete num destes casos? Por que
o MEC não fecha as instituições que não
têm compromisso com o ensino? E por que continua autorizando
a abertura de novos cursos, nessas instituições?
Isto, sim, é incompetência. Má formação
é apenas uma conseqüência.
*Engenheiro
Agrônomo, Professor da UVV e membro da Academia Calçadense
de Letras.
