*Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Está
cada vez mais difícil para o cristão exercer-cumprir
o seu direito-dever de votar. A relação da Igreja
Católica com o regimes democráticos de poder sempre
foi controversa, às vezes até contraditória.
Por um lado, ela não hesita em afirmar categoricamente
não ser ela mesma uma democracia, mas quase uma monarquia
teocrática (a Igreja sempre teve sérias reservas
quanto ao dito “a voz do povo é a voz de Deus”);
por outro lado, de seus bancos saíram e saem ainda militantes,
pensadores e protagonistas de democracias por todo o mundo.
Dizem os especialistas que o conceito de pessoa, com a conseqüente
afirmação de sua dignidade fundamental e sua subjetividade,
é o maior contributo que o cristianismo já deu
ao modelo democrático.
Está se tornando uma minuciosa tarefa de discernimento
espiritual a escolha dos candidatos pelos cristãos engajados,
aqueles que “estão com a Igreja e não abrem”.
Se ainda fosse possível dividir o imenso turbilhão
de propostas políticas nos velhos e fáceis jargões
“conservador” e “progressista”, teríamos
a seguinte linha divisória: os políticos conservadores
geralmente são mais religiosos e mais sintonizados com
a ética cristã referente à vida humana
em seus inícios e fins, mas também mais propensos
a defender latifundiários, cometer nepotismo, tráfico
de influência, compra de votos, desvio de verbas e outras
atrocidades; os políticos identificados como progressistas,
por sua vez, de forma geral são os que historicamente
se comprometem mais com os pobres e excluídos, têm
uma história de coerência e militância em
prol dos direitos humanos, da reforma agrária e outras
causas caras à Igreja, mas também são os
que mais abertamente defendem a legalização do
aborto, a eutanásia, o controle de natalidade, a união
civil de homossexuais, questões que a Igreja se mostra
incisiva em combater.
No fundo, é a antiga ambigüidade entre o posicionamento
católico oficial anti-comunista e a inevitável
associação da proposta do Evangelho com um certo
socialismo cristão. Em nível de ideais, os critérios
são claros, mas quando se fala em partidarismo, tudo
se complica. Não é legítimo nem mais possível
pedir que os cristãos votem em cristãos, primeiro
porque isso macularia a liberdade das consciências; e
também porque a identidade dos cristãos há
muito se perdeu em uma imensa malha de denominações,
tendências e ideologias antagônicas. Em que cristão
devo votar? Naquele que enfatiza as bem-aventuranças
(Mt 5,1-12) e a opção preferencial pelos pobres
mas seculariza a moral sexual e a bioética? Ou naquele
que espiritualiza seu discurso, colore seu programa de religiosidade
mas se esquece de que é impossível “servir
a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13)?
Na teologia moral há um critério básico
para circunstâncias em que se é obrigado a escolher
entre dois males: a busca do mal menor. O sujeito, em plena
posse de sua liberdade responsável e de seu compromisso
com a verdade, opta pela proposta que lhe parecer menos maléfica,
escolhe a solução que trará menores danos
imediatos. Essa parece ser a única forma que o cristão
tem de otimizar o seu voto, se não quiser simplesmente
abdicar desse direito. E essa última possibilidade não
equivale propriamente a uma terceira opção, já
que votar não é só um direito, mas um dever
cidadão, um compromisso civil. Mas essa já daria
uma outra discussão...
*Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
