Mar adentro da eutanásia

Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br

Resisti em assistir ao filme Mar Adentro,do cineasta espanhol de origem chilena,Alejandro Amenábar,porque associei seu nome ao de outro cineasta espanhol,Almodóvar,cujos filmes não me agradam.Detesto a reatividade exagerada,o frenesi paroxístico que impede a descida dos materiais de que a consciência se apropriou e sua imersão a uma profundidade salutar,de cujo abismo eles retornam sempre mais ricos e autênticos.Mas nem bem cheguei ao meio do filme para constatar que estava errado quanto a Amenábar.
Embora polêmico e apaixonante o tema do filme,isto é,a eutanásia,Amenábar o conduz com a serenidade do mestre que dispôs todos os elementos em ordem porque já pensara maduramente em cada detalhe,já refletira sobre o tema o tempo suficiente para encará-lo sob diversos ângulos,projetando-os dialeticamente nas falas de cada personagem.
O enredo é simples.Trata-se da história de Ramón Sampedro,que sofre um acidente em sua juventude,o qual o deixa tetraplégico e de sua luta travada ao longo de 28 anos contra parentes,amigos,companheiros de infortúnio e a justiça espanhola,pelo direito de por um fim em sua vida.
Não sendo crítico cinematográfico, minha reflexão pode ser que se prenda mais ao tema em si do que à obra de arte considerada. E já que falei em arte,devo dizer qual é a característica principal da obra de arte,podendo servir inclusive como uma definição sua:é aquela que nos força a pensar,que nos incita violentamente a reagir sobre ela,que não nos dá quartel,nos inquieta e nos deixa desassossegados enquanto não saldamos o nosso débito para com ela.Portanto,pela minha definição,a obra de arte ruim não nos persegue.Examinamo-la,chegamos à nossa conclusão e para logo a esquecemos,a ela,a arte ruim.
Visto todo o filme,não tive dúvida em classificar o jovem Amenábar,de 36 anos,como o maior cineasta europeu da atualidade e um dos melhores do mundo.Sei que este tipo de julgamento a respeito de alguém pode parecer ingênuo,superficial em seu açodamento.Contudo, eu o mantenho.Amenábar é sobretudo um jovem promissor e originalíssimo.Quem tiver dúvida, sugiro que assista a uma obra sua mais antiga,o inquietante Os outros,com Nicole Kidman.
Não quero com isto dizer,entretanto,que a caracterização de Ramón,o personagem principal,tenha sido perfeita.Vejo contradições na psicologia do personagem.E tais contradições,neste contexto,não são aquelas inerentes aos seres humanos colocados frente ao dilema da eutanásia, e sim se referem a um engano de Amenábar na construção e apresentação de Ramón.Com efeito,Ramón não é natural,não seria natural como ser humano nem o é como personagem do filme.Ramón,mesmo tetraplégico,mesmo movendo apenas as partes de seu corpo acima do pescoço,ama ainda as pessoas e as coisas,é capaz de interagir com elas,é capaz de cativá-las,ouve óperas e ao som da música transporta-se aos cenários da sua amada Galícia,escreve um livro,mantém-se ativo intelectualmente,faz questão de demonstrar que seus pensamentos são claros com respeito a tudo,e demasiado claros com respeito a seu desejo específico de morrer.Chega a ser brutal em sua vontade de que o vejam como um raciocinador coerente,frio mesmo,às vezes,cruel até quando o querem convencer de que está errado,pois não admite argumentos falaciosos e prontamente os rechaça.Certamente que se angustia ao pensar que não poderá repetir muitos dos prazeres legítimos que a vida pode nos dar.Ora,diante do exposto,fica difícil admitir que a Ramón,tão lúcido,tão culto,tão inteligente como nos é apresentado,não tenha ocorrido uma idéia elementar,ou seja: entre tudo o que a vida nos pode proporcionar,os prazeres intelectuais superam,em potência,aqueles que podemos extrair de nossos sentidos.Estou dizendo uma bobagem?Estou sendo simplório e deixo de me colocar na pele de Ramón?Não.E apresento um exemplo extraído da realidade e que todos já devem ter ouvido falar:o do matemático e físico inglês Stephen Hawking,portador de esclerose amiotrófica lateral,uma doença degenerativa que lhe paralisou todo o corpo,obrigando-o a utilizar-se de um sintetizador de voz para comunicar-se com as pessoas.
Alguém poderia objetar que o exemplo acima não é válido por tratar-se de um gênio.Ora,neste particular,Ramón,que não é gênio,equipara-se àquele gênio num ponto: ambos tiram todo o prazer de viver da cabeça,das faculdades mentais que se mantiveram íntegras tanto no exemplo real quanto no fictício.Portanto,não se concebe que uma pessoa como Ramón possa desejar a morte tendo tanta vida dentro de si.Se Ramón fosse um imbecil para quem a vida se resumisse na satisfação dos reclamos do sexo e do estômago,aí sim,sua vida seria insuportável.Por isso é que afirmei que o personagem de Amenábar não me parecia bem construído,psicologicamente falando.Com exceção deste defeito,não vejo outro.Aliás,o ator Javier Bardem está perfeito no papel de Ramón.
Como era de se esperar, a justiça espanhola, por fim, nega a Ramón o direito de ser morto. Ele vê nesse veredicto que a justiça, embora desligada de direito da tutela religiosa, está de fato atada a opiniões religiosas e,portanto,é hipócrita quando afirma se guiar pela ética.Talvez ele tenha razão—de qualquer maneira,não vejo como se poderia provar que a justiça é mera serviçal de juízos preconceituosos e/ou religiosos,sem falar que todo indivíduo,num país democrático,goza do direito de pensar livremente,inclusive os legisladores.
Ramón,impedido de recorrer à medicina para por fim à sua vida,vê-se obrigado a convencer uma mulher que o ama a lhe tirar a vida.Ela não concorda,de início,mas acaba sendo convencida por ele,que lhe diz:”a maior prova que você pode me dar de seu amor é tirar-me a vida”.E para a consecução de seu intento,ele deixa declarações assumindo toda a culpa pelo seu ato,que é todo ele filmado,desde o momento em que a mulher lhe dá o copo d’água contendo o veneno até os estertores finais.
Por fim,devo dizer que a eutanásia é uma questão tão pessoal,que só pode ser resolvida individualmente da forma como Ramón o fez.A mulher lhe serviu de mero instrumento,assim como um chimpanzé treinado também lhe serviria—e seria ridículo o Estado que,no intuito de proteger uma vida que se quer morta,condenasse e mandasse para a cadeia o chimpanzé hipotético.Mais do que nunca,aqui o indivíduo é dono de seu destino e nenhuma religião,através de seus ministros,nenhum Estado,através de seus auxiliares,tem o direito de lhe dizer o que é certo e o que é errado.


 



 

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