Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Celebramos hoje a memória litúrgica de São
José Operário, criada pelo papa Pio XII na ocasião
em que concedeu um patrono a todos os trabalhadores. O dia 1º
de maio começou a ser o Dia Internacional do Trabalho
no final do século XIX, a partir de um congresso socialista
em Paris. A data é uma referência aos acontecimentos
do dia 1º de maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos
da América: milhares de operários fizeram neste
dia uma greve exigindo melhores condições de trabalho;
queriam a redução da jornada de 13 para 8 horas
diárias, além da garantia de direitos elementares.
Na época, o capitalismo industrial, de forma bem mais
grotesca do que hoje em dia, ceifava a vida dos assalariados,
sujeitando-os a uma verdadeira escravidão. Aquela grande
greve provocou uma reação extremamente violenta
e desumana por parte da polícia, que estava a serviço
das elites da indústria norte-americana. Muitos trabalhadores
foram presos, outros foram feridos e alguns até mesmo
mortos, tornando-se mártires das causas trabalhistas.
Este dia não deve ser lembrado, portanto, com um ar de
ufania e orgulho; ao contrário, é um dia para
protestarmos contra as injustiças sociais, contra o desrespeito
aos direitos do trabalhador, contra a violência moral
que o sistema capitalista impõe aos assalariados, ao
considerá-los apenas peças da imensa máquina
que constrói o estilo de vida consumista.
Deixemos,
então, a Palavra de Deus iluminar toda esta realidade
que comemoramos hoje. Na primeira leitura, tirada das primeiras
páginas da Bíblia, no livro de Gênesis,
vemos claramente qual o projeto de Deus para a vida do ser humano.
"Deus disse: 'Façamos o ser humano à nossa
imagem e segundo a nossa semelhança'" (Gn 1,26).
Deus aparece aqui sumamente livre e feliz, dotado de uma imensa
capacidade criativa e produtora; Ele tem vontade de ver a realidade
à sua volta crescer, deseja o progresso, o desenvolvimento
da sua obra. E o ser humano é criado para ser "imagem
e semelhança" deste modo de ser divino. No ato mesmo
em que é criado, o ser humano recebe o dom do trabalho,
isto é, a capacidade de produzir, inventar, administrar,
organizar. Podemos perceber que o trabalho é, aqui neste
texto, algo inerente ao ser da pessoa humana. Faz parte do projeto
de Deus que o ser humano se projete sobre o mundo material para
transformá-lo. Trabalhar não é um peso,
um castigo, meramente uma necessidade, mas é o modo de
ser propriamente humano. Não se pode dizer que os outros
animais trabalham, porque eles apenas buscam sobreviver, e trabalhar
é muito mais do que alcançar a subsistência.
Trabalhar é criar, participar do ofício de Deus.
Neste sentido, todo trabalho é, por assim dizer, uma
arte, porque é o próprio ser humano lançando-se
sobre a matéria-prima para ver-se nela representado.
O ser humano só consegue ter consciência de si
mesmo ao ver as marcas que deixou nas outras criaturas mediante
o trabalho; só descobre a sua força racional e
a sua capacidade criativa quando transforma as coisas, dando-lhes
nome e significado.
A
expressão "façamos", utilizada por Deus,
foi interpretada pelos Santos Padres da Igreja no seguinte sentido:
é como se Deus fizesse ao próprio ser humano já
existente em sua imaginação, como projeto, o convite
para ajudá-lo na sua própria criação.
"Ser humano, façamos juntos o ser humano à
nossa imagem e semelhança". O homem e a mulher são,
assim, co-criadores, colaboradores de Deus na criação.
O
texto diz ainda que Deus quis criar o ser humano "para
que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os
animais domésticos, todos os animais selvagens e todos
os animais que se movem pelo chão" (v. 26). No versículo
28, ele continua: "... enchei a terra e submetei-a! Dominai
sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais
que se movem pelo chão". O verbo "dominar"
vem da palavra latina "dominus" e significa literalmente
"ser senhor". E aqui está a prova de que o
ser humano é realmente imagem e semelhança de
Deus. O salmo 8º canta: "Que coisa é o homem,
para dele te lembrares, que é o ser humano, para o visitares?
No entanto o fizeste só um pouco menor que um deus, de
glória e de honra o coroaste. Tu o colocaste à
frente das obras de tuas mãos. Tudo puseste sob os seus
pés..." (vv. 5-7).
Só
Deus é Senhor por excelência, só ele domina
propriamente. Mas, à medida em que é imagem e
semelhança de Deus, o ser humano pode e deve também
"dominar" todas as outras criaturas. Mas como esta
expressão tem sido historicamente mal interpretada! Ora,
o ser humano só pode "dominar" o mundo se o
fizer à imagem e semelhança de Deus. E como Deus
domina o mundo criado? O livro de Gênesis, numa outra
tradição literária, nos dá a indicação
de como é esse domínio sobre as criaturas; no
capítulo 2, a segunda narrativa da criação
nos diz: "O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim
de Éden, para o cultivar e guardar" (Gn 2,15). Esse
é o verdadeiro sentido de "dominar" a terra!
O
trabalho do homem, portanto, é cultivar e guardar as
criaturas. Cultivar dá idéia de fazer crescer,
dar desenvolvimento, trabalhar a criatura; mas esse cultivo
deve ser um gesto cuidadoso, isto é, guardando, preservando,
conservando. Numa linguagem contemporânea, podemos dizer
que o trabalho do homem precisa ser "sustentável",
isto é, ético, ecológico, respeitoso. Só
assim o trabalho é atividade verdadeiramente humana.
Só assim o ser humano realiza a sua vocação
fundamental. Com o meu trabalho, eu devo acrescentar algo de
novo, de bom e de belo ao mundo, preciso colaborar com a criação
deste mundo, que não terminou. Dom Hélder Câmara
dizia que nós estamos ainda no primeiro dia da criação.
Quando Jesus curou o enfermo junto à piscina de Betesda,
os judeus começaram a persegui-lo, porque em dia de sábado
não se podia fazer coisa alguma; Jesus, porém,
disse: "Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho!"
(Jo 5,17). Quer dizer, a criação continua! Deus
não deixou de ser trabalhador. Também nós
não podemos nos acomodar. Há muito o que fazer.
A tarefa que Deus nos confiou é imensa e está
quase toda por fazer ainda. O apóstolo Paulo ficou sabendo
que alguns cristãos da comunidade de Tessalônica
estavam muito empolgados com a esperança da volta de
Cristo e achavam que não era mais preciso trabalhar.
O apóstolo os corrige, dizendo: "Quem não
quer trabalhar também não deve comer. Ora, temos
ouvido falar que, entre vós, há alguns vivendo
desordenadamente, muito ocupados em não fazer coisa alguma,
mas intrometendo-se em tudo. A essas pessoas ordenamos e exortamos
no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranqüilamente e,
assim, comam o seu próprio pão" (2Ts 3,10-12).
Nos
três primeiros versículos de Gênesis 2, aparece
outro elemento essencial para compreendermos o trabalho. Diz
o texto: "No sétimo dia, Deus concluiu toda a obra
que tinha feito; e no sétimo dia repousou de toda a obra
que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou,
pois nesse dia Deus descansou de toda a obra da criação".
O trabalho deve existir para a construção da liberdade
do ser humano. Mediante o trabalho, o homem e a mulher vão
se tornando livres do vazio e do nada. Mas é preciso
tomar cuidado para não inverter a função
do trabalho; ele não pode se tornar uma prisão,
uma escravidão. O descanso foi criado por Deus para que
o homem não viesse a pensar que o trabalho tem valor
em si mesmo. O valor do trabalho está relacionado aos
frutos que ele produz para o bem do homem. Se o homem só
produz, só pensa em produzir para acumular, não
usufrui do fruto do trabalho e não tem tempo para gozar
dos seus benefícios, então o trabalho perde o
sentido para ele. O sábado surge aqui para relativizar
o trabalho, para não permitir que ele se torne um absoluto,
um ídolo.
Nós,
cristãos, a partir da ressurreição de Cristo,
transferimos o descanso sabático do sétimo para
o primeiro dia da semana e o chamamos "Domenica",
isto é, "Dia do Senhor". É urgente ressaltar,
em nossos dias, a importância do descanso e do culto cristão
no Domingo. A semana inicia, para nós, cristãos,
com um tempo dedicado a Deus na religião e ao lazer em
família. É preciso respeitar esse dia. Preenchê-lo
com trabalho significa roubar o que é de Deus.
Na
passagem do evangelho de Mateus que ouvimos, Jesus é
identificado como "o filho do carpinteiro" (Mt 13,55).
Na narrativa, essa afirmação tem uma carga pejorativa
e preconceituosa. Seus conterrâneos, os habitantes de
Nazaré, o subestimam ao constatar que ele é filho
de um simples operário, José, o esposo de Maria.
Interessante que na conversa entre Filipe e Nicodemos, que o
evangelista João descreve, esse mesmo preconceito aparece
com relação à própria cidade de
origem de Jesus: "De Nazaré pode sair algo de bom?"
(Jo 1,46). A resposta de Filipe é bastante sensata: "Vem
e vê!". Talvez pudéssemos trilhar hoje este
caminho para constatar a dignidade que há no ofício
de José e, assim, a sacralidade que há em qualquer
trabalho humano. É preciso realmente "ir ver"
Jesus desempenhando em Nazaré o ofício da carpintaria.
Com que maestria ele não devia serrar, martelar, aplainar
e montar os utensílios, da forma como aprendera de São
José! A disposição que Jesus tinha para
caminhar longas distâncias, enfrentando todo tipo de adversidade,
inclusive o grande peso do patíbulo de madeira em sua
condenação, ele só poderia mesmo ter adquirido
na experiência profissional. "Donde lhe vêm
essa sabedoria e esses milagres?", perguntam seus irônicos
conterrâneos. Um mestre, um sábio, um messias que
se preze não pode vir desta laia. É exatamente
assim que Jesus se torna, como diz o versículo 57, "uma
pedra de tropeço", isto é, um escândalo,
para aquela sua gente.
A
constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo,
do concílio Vaticano II, afirmou que o Filho de Deus,
ao encarnar-se, "trabalhou com mãos humanas"
(GS 22). Assim, a oficina de São José operário
foi o lugar teológico onde Deus redimiu o trabalho humano
do jugo que caíra, pelo pecado original, sobre Adão:
"Comerás o pão com o suor do teu rosto"
(Gn 3,19). A encarnação do Verbo, por causa de
São José, deu novo sentido ao trabalho humano.
A fadiga, ao invés de maldição, em Jesus
se torna alegria do dever cumprido. É por isso que, na
celebração da Eucaristia, o sacerdote pronuncia
a ação de graças na preparação
das oferendas dizendo: "Bendito sejais, Senhor Deus do
universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto
da terra e do trabalho humano...".
É
preciso evangelizar o mundo do trabalho. Faremos isso não
estampando os ambientes com propaganda religiosa, mas através
do testemunho dos valores autenticamente evangélicos.
Trabalhar com alegria e entusiasmo, profissionalismo e seriedade,
esforçar-se pela máxima competência, abrir-se
aos mais necessitados, partilhar os frutos do trabalho honesto;
esse é o programa pastoral e o itinerário espiritual
que se espera do cristão no século XXI. Pela própria
forma como cada um exerce seus afazeres em sociedade, está
prestando culto a Deus e colaborando com a missão da
Igreja.
