*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Dados oficiais do Vaticano reconhecem pela primeira vez que
os muçulmanos já são mais numerosos do
que os católicos no mundo. A causa é literalmente
aquela com a qual brincamos quando sabemos de um casal que teve
muitos filhos: "eles não têm TV em casa...".
As teocracias islâmicas praticamente não conhecem
controle de natalidade e a própria religião maometana
prega que Alá quer ter muitos filhos para encher e dominar
o mundo. Por outro lado, populações ditas cristãs
lançam famílias com cada vez menos filhos e aprovam
o aborto.
Enquanto
uma menina muçulmana se casa aos 15 anos e engravida
até quando pode, nós ocidentais tentamos encontrar
conserto para o problema da gravidez na adolescência.
Enquanto os líderes cristãos fundamentalistas
acusam os muçulmanos fundamentalistas de empreenderem
a jihad com terrorismo e armamento nuclear, a verdadeira batalha
ganha pelos seguidores radicalistas de Maomé tem sido
mesmo a sua entrada estratégica no Ocidente, a sua tomada
de posição nas sociedades européias. Os
"mouros" estão conseguindo terminar agora,
no século XXI, o que tentaram fazer durante os 700 anos
em que ocuparam a Espanha, até Fernando de Aragão,
no século XV: tomar o lado de cá da terra e assumir
decisivamente o controle do mundo.
Essa polaridade de caricaturas entre o ocidente "cristão"
e o médio oriente "islâmico" ainda pode
causar a próxima grande guerra mundial. Se bem que nem
os que armam cruzadas de um lado podem ser considerados verdadeiramente
discípulos de Cristo nem os que vestem bombas do outro
são genuinamente filhos espirituais de Maomé,
porque tanto Cristo quanto Maomé eram homens que emanavam
espiritualidade e almejavam a paz. George W. Bush é um
falso ícone do cristianismo tanto quanto Osama bin Laden
o é do Islã. Portanto, colar a imagem papa neste
jogo de acusações foi a cartada mais inteligente
da Al-Qaeda até agora; e também a mais perigosa.
Mas há outra questão interessante a se analisar
nisso tudo: quando bin Laden apareceu na TV dizendo que Sua
Santidade Bento XVI é o grande responsável pelo
novo levante ocidental contra o mundo muçulmano, ele
estava sendo mais devoto de São Pedro que a Europa e
as Américas, que já não acreditam na força
simbólica e na influência do papado nas questões
realmente importantes deste mundo. O que a comunidade internacional
está esperando de Sua Santidade o Dalai Lama no Tibete
é também reflexo deste paradoxo: o pensamento
pagão vê mais poder na instituição
religiosa do que os próprios fiéis da religião
vêem.
Isso significa que, se por um lado, a religião continua
em alta na vida das pessoas e importante na conjuntura mundial,
por outro lado ela já não define tanto as escolhas
individuais quanto pretenderia definir, e acaba sendo às
vezes não mais que um dentre vários elementos
justificadores de conflitos e reações intolerantes.
Entre a maioria dos cristãos, a religião tem bem
menos influência do que quereria. Para os fanáticos
muçulmanos, ela tem bem mais influência do que
deveria.
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*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
