Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Ele
é o primeiro santo brasileiro de pai e mãe. Demorou
mas chegou: Frei Antônio Galvão será canonizado
no dia 11 de maio em São Paulo pelo papa Bento XVI. Enfim,
teremos também, como os portugueses de Pádua,
um Santo Antônio; também frade, também discípulo
do pobre Francisco de Assis. Quinhentos e sete anos para que
se reconhecesse oficialmente que esta Terra de Santa Cruz não
gera apenas selvagens comedores de Sardinha, mulatas com os
balangandãs de fora e homens corrompidos de colarinho
branco. Enfim, temos uma esperança: é possível
ser um legítimo santo sendo um brasileiro da gema; está
confirmado e lavrado em cartório que a brasileirice não
é incompatível com a santidade.
Frei Galvão não seria jamais canonizado se não
conseguisse milagres. Mas se aquele frade paulistano dos séculos
XVIII/XIX pregasse como Santo Antônio de Pádua,
tivesse êxtases como os de Santa Teresa d'Ávila,
conseguisse ler as almas como São João Maria Vianney
ou convertesse almas como milhares e milhares de santos europeus,
certamente ficaria anônimo e escondido no meio do padroado.
Ainda bem que a santidade dele vem ao encontro do povo brasileiro
na sua concretude mais cruel: pessoas enfermas recuperam a saúde
tomando pílulas abençoadas por Frei Galvão.
Nada mais brasileiro do que isso (vide a situação
do SUS...).
Aliás, a palavra santidade tem a mesma raiz latina que
saúde. Como na metáfora que Jesus fez para responder
ao preconceito dos fariseus e mestres da Lei com relação
aos pecadores com quem Ele andava – "não são
as pessoas com saúde que precisam de médico, mas
as doentes" (Lc 5,31), a Bíblia nos fala do pecado
como enfermidade do espírito. Logo, tornar-se santo significa
ir recuperando a saúde espiritual das nossas origens.
Santo Antônio Galvão é o primeiro concidadão
nosso com o atestado eclesiástico de que alcançou
a cura dessa enfermidade espiritual e pode ser invocado como
um auxílio diante do trono do Deus Santíssimo,
inclusive para as nossas enfermidades corporais.
O Vale do Paraíba é mesmo um lugar que respira
espiritualidade: lá iniciou-se a devoção
àquela que passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida
devido ao surgimento miraculoso de uma imagem nas redes do pescador;
lá também Frei Galvão exerceu o seu ministério
pastoral e se fez santo; lá ainda se encontra atualmente
o maior centro de evangelização católico
do mundo, a Canção Nova. Talvez São João
Bosco tenha se enganado nas coordenadas que deu às autoridades
brasileiras quando teve a famosa visão de que no centro
geográfico do país emanaria uma grande energia
espiritual... E se fez Brasília por causa dessa revelação.
Se tivessem construído a capital do Brasil no Vale do
Paraíba, certamente haveria menos trogloditas no poder
e mais pessoas "saudáveis" em todos os sentidos
da palavra. Que nosso Santo Antônio, que não é
casamenteiro, interceda por todos nós. Amém.
