O NATAL E O NOVO PAGANISMO

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


Natal é a solenidade litúrgica que comemora a natividade de Jesus Cristo. Mas é inegável que existe uma espécie de liturgia paralela, com cores, vestes, textos e hinos próprios. Enquanto a Igreja celebra o Natal com o branco, a sociedade de consumo o celebra com o vermelho. Enquanto, nesta data, a Igreja tem o foco sobre a figura do Deus menino e sobre o mistério mesmo da Encarnação, o mercado coloca o lendário Papai Noel e o mistério do consumo no centro das atenções. Enquanto o clima na Igreja é de uma alegria silenciosa e humilde, na sociedade, o que se vê é muito barulho e muita ostentação. O Natal cristão é a notícia de que toda a humanidade ganhou um presente sem igual com o nascimento de Jesus de Nazaré. Mas há um natal pagão; esse, ao contrário, prega que a boa notícia é o próprio presente que se compra e vende; e para isso se convencionou até mesmo o chamado "décimo terceiro salário", para que até os assalariados mais pobres tenham a possibilidade de comprar, pois é só comprando que se pode celebrar essa festa pagã.

O vermelho do Papai Noel vem da cor da veste talar do bispo Nicolau, o bom pastor que, secretamente, distribuía presentes aos pobres para manifestar a alegria do nascimento de Cristo. Com o passar dos séculos, de sucessor dos apóstolos a figura de Noel foi se transformando numa espécie de bruxo, figura claramente pagã, que inclusive viaja num trenó mágico puxado por renas voadoras; sua também mágica fábrica de brinquedos conta com o trabalho de duendes; e inventaram até uma mulher para o bispo, a Mamãe Noel. A idéia original da distribuição generosa de dons aos pobres foi sendo substituída por um ritual que muito bem servia à classe burguesa: a criança que foi obediente aos pais e tirou boas notas ganha presente do Papai Noel; e esse presente é depositado num pé de meia colocado junto à lareira da casa. Logo, as crianças pobres, que não tinham nem chaminé nem lareira, os órfãos, os marginalizados, os analfabetos, esses jamais recebem a visita do "bom velhinho".

Forjada especialmente nos Estados Unidos da América, esse verdadeiro culto idolátrico a Papai Noel colore o cristianismo, tirando-lhe qualquer força profética e contestatória. O dogma da Encarnação do Verbo e a cena do presépio, que são o verdadeiro conteúdo do Natal cristão, denunciam profundamente o luxo dos palácios enfeitados com ricas guirlandas e árvores, e alimentados por ricos banquetes. Maria, diante deste estrondoso mistério do Deus encarnado, afirma que Deus "dispersou os soberbos de coração, derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e mandou embora os ricos de mãos vazias" (Lc 1,51-53). Simeão, tomando o menino Jesus nos braços, disse a Maria: "Esse menino será um sinal de contradição" (Lc 2,34). Seria muito pouco se a cena fantástica que se passou nada menos do que no meio dos animais do estábulo – alegoria criada por São Francisco de Assis – nos levar apenas a entoar o singelo "dorme em paz, ó Jesus". Soaria como dizer aos menores abandonados, às famílias de sem teto e sem terra: durmam em paz nesta "noite feliz", ainda que sem nada para comer; tenham um "próspero ano novo", ainda que no desemprego e na miséria. Jeremias contestou essa falsa religião: "Sem responsabilidade querem curar a ferida do meu povo dizendo apenas: 'Paz! Paz!', quando paz verdadeira não existe" (Jr 6,14).

O Natal cristão começou a ser celebrado no dia 25 de dezembro porque era nesse dia que os romanos celebravam uma festa pagã em adoração do chamado Sol Invicto. Aliás, o cristianismo primitivo, depois da fertilidade do martírio, teve que haurir forças apropriando-se de elementos do Império que, de perseguidor, se tornou aliado patricinador. Assim, vários elementos litúrgicos, hierárquicos, arquitetônicos e jurídicos, por exemplo, foram adaptados do paganismo romano para a Igreja: as vestes sacerdotais passaram a ser apropriação do uniforme senatorial; as "basílicas", que eram locais dedicados à honra de César, foram doados à Igreja e transformados em templos.

Enfim, o paganismo não foi satanizado nem pela Igreja apostólica (basta ver a tentativa empreendida por Paulo de colar a figura grega do "Deus desconhecido" à de Jesus ressuscitado [cf. At 17,22-31]) nem pelos santos padres (Santo Agostinho era experimentado em várias seitas pagãs, e São Justino escreveu sobre as "sementes do Verbo" nas diversas culturas). Ao contrário, comumente se diz que a religião cristã sobreviveu sociologicamente porque deixou de ser uma seita judaica para, com a ousadia de Paulo de Tarso, lançar-se no querigma aos pagãos. É bom lembrar que a palavra "pagão" só tinha um sentido pejorativo para os judeus, porque eles se achavam o único povo destinado à salvação. Foi na Idade Média que a Igreja Católica fechou-se como sociedade privada e concluiu ter chegado à forma definitiva, voltada cada vez mais sobre si mesma, até porque o contexto da cristandade que se identificava com a cultura ocidental não exigia mais nada de seu espírito missionário.

Então, elementos pagãos que despontavam especialmente na periferia da Europa e da África central, bem como elementos de outras religiões, como o próprio islamismo ou as demais religiões orientais, passaram a ser vistos como ameaça à pureza da fé e, por isso, perseguidos e expurgados. Surge a caça às bruxas e a identificação das religiões naturais como sendo satanismo. Porém, práticas supersticiosas sempre passaram codificadas inclusive no catolicismo popular, isso sem falar no sincretismo afrobrasileiro, que adequou o conteúdo proibido das religiões africanas à forma dos santos católicos.

"Se não podemos vencê-los, unamo-nos a eles", diz o ditado popular. Alguns tipos de esoterismo e magia acabaram entrando na cultura cristã, senão pela porta da frente, com o diálogo inter-religioso, então pelas vias obscuras da mistura de religiosidades, na fabricação de uma grande sabedoria popular independente da estrutura eclesiástica oficial. O pior é quando essa apropriação não está a serviço de uma intenção propriamente religiosa, seja ela qual for, mas mercadológica.

Hoje em dia, não é mais o cristianismo que se apropria de elementos pagãos para saltar obstáculos. Acontece o inverso: o novo paganismo é que invade o universo de significados cristãos e muda o conteúdo de acordo com a clientela. O que a sociedade de consumo fez com o Natal, transformando-o em uma vitrine a mais para o seu marketing, foi a atitude mais eficaz do secularismo, pois, em termos objetivos, colocar o gorro do bispo São Nicolau na cabeça da atendente não é nem um pouco mais reverente e respeitoso do que vesti-la de motivos carnavalescos.

O papa Bento XVI, num discurso aos bispos alemães por ocasião da última Jornada Mundial da Juventude, disse: "As pessoas não conhecem Deus, não conhecem Cristo. Existe um novo paganismo e não é suficiente que nós procuremos manter o rebanho já existente, embora isto seja muito importante. [...] Penso que todos juntos devemos procurar descobrir novos modos de apresentar o Evangelho ao mundo contemporâneo, de anunciar de novo Cristo e de estabelecer a fé".

Uma atitude concreta que nós, cristãos, podemos empreender nesse sentido talvez seja valorizar a presença dos presépios no espaço visual de nossas cidades. É preciso destronar Papai Noel e elevar o Menino Jesus, filho de Maria Virgem. E mesmo se isso não tiver grandes impactos, o que verdadeiramente importa é o espírito natalino, que infinitamente mais do qualquer emocionalismo, passa pelo festejo da solidariedade. Jesus, o aniversariante, disse: "quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir!" (Lc 14,13-14).

 



 

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