*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
O papa Bento XVI esteve nos nos Estados Unidos de 15 a 21 de
abril..., naquela que foi a sua oitava viagem apostólica
internacional como Sumo Pontífice. Conversou com o Presidente
George W. Bush, discursou na sede da ONU, abençoou o
lugar onde aconteceram os atentados do dia 11 de setembro de
2001, reuniu-se com os bispos desta nação que
é a terceira maior do mundo em número de católicos,
encontrou-se com judeus e com representantes de outras confissões
cristãs. Foi uma visita intensa e produtiva, importante
para a comunidade internacional e estratégica para o
catolicismo em geral, cercada de uma certa preocupação
com a segurança de Sua Santidade devido às ameaças
recentes de Osama bin Laden. Porém, tudo isso corre o
risco de acabar ficando escondido por detrás da questão
da pedofilia de sacerdotes estadunidenses.
Quem acompanhou somente pela TV a cobertura da viagem pode ter
ficado com a impressão que o Papa viajou aqueles milhares
de quilômetros só para dizer que o abuso sexual
cometido por sacerdotes envergonha a Igreja e para pedir perdão
às vítimas. Embora o assunto seja seríssimo,
isso seria muito pouco se pensarmos que desse país depende
em grande parte a situação da paz em continentes
inteiros! Foram algumas placas levantadas, algumas testemunhas
revoltadas e muita polêmica gratuita, na verdade.
O
fato é que algumas dioceses nos Estados Unidos já
gastaram milhões de dólares em indenizações
por causa de pedofilia praticada por padres. Mas apesar da negligência
de alguns prelados que, ao invés de punir os acusados,
usaram a tática de transferir para abafar, atitudes importantes
vêm sendo tomadas. É bom ressaltar que, nas últimas
décadas, a Igreja foi realizando mudanças decisivas
na formação presbiteral, sobretudo à luz
do Concílio Vaticano II; e que a grande maioria dos pedófilos
na Igreja foi formada ainda no estilo antigo, numa pedagogia
não preparada para os desafios culturais dessas últimas
gerações. Entre os clérigos pedófilos,
observou-se intensa repressão sexual, dificuldades psicológicas
provocadas por falta de abertura para se lidar com o próprio
desejo. Essa situação tende a mudar consideravelmente
a partir de quando os seminários passaram a adotar a
orientação psicopedagógica, que leva à
maturidade afetiva do candidato ao sacerdócio.
A
situação é complexa demais para ser reduzida
a um fator institucional. É no mínimo irresponsável
acusar o celibato sacerdotal como a causa da perversão
sexual de padres. A prova está no seio da própria
instituição familiar: abusos sexuais de todo tipo
continuam presentes onde as pessoas se casam. Com muita cautela,
talvez o contrário pudesse ser concluído: pessoas
que não lidam bem com sua sexualidade podem ter procurado
o sacerdócio para esconder no celibato seus problemas
afetivos. E quando isso acontece, a qualquer momento a pulsão
do indivíduo passa a ser como uma represa que estoura
e provoca tragédias. Então a Igreja não
deve procurar acabar com a exigência do celibato para
resolver esse problema, mas sim selecionar melhor os seus vocacionados,
ajudá-los a encarar com transparência os seus dramas
íntimos e, claro, punir quando for preciso.
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*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
