*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
No
livro As Intermitências da Morte, de José
Saramago, a certa altura, dialogando com alguém sobre
a vida, a morte diz: “sou muito menos complicada que ela”
(p. 198). E é verdade. Morrer é o que de menos
burocrático há na vida, além de ser também
o que há de mais barato e mais garantido. Na semana em
que comemoramos os nossos irmãos finados – defuntos,
mortos, os-que-passaram-desta-para-melhor – nós
estamos mesmo é às voltas com a questão
da vida: passadas as eleições, acertados os nossos
ponteiros políticos, que rumo tomar para que tenhamos
mais vida em nosso país?
E há de ser assim. As religiões e as filosofias
gastam energias demais com a morte e não chegam a lugar
algum, a não ser na tão célebre quanto
óbvia constatação que o livro de Gênesis
faz: “tu és pó e ao pó voltarás”
(3,19). A morte não pode ser para nós senão
um segredo certo e imperscrutável que está sempre
por perto para nos remeter a formas mais intensas de vida. A
morte não é um substantivo concreto como a frieza
dos cadáveres, mas abstrato como os questionamentos acerca
da alma. A morte é a ameaça virtual que deve nos
impelir a gastar melhor a vida real. Se, ao olharmos para morte,
não pensamos seriamente na vida, corremos o risco de
vermos na vida senão sinais prefigurativos da morte.
Em seu clássico A Divina Comédia, Dante
Alighieri tentou fazer a teodicéia do seu tempo. E enquanto
ilustrava largamente uma jornada da alma ao longo do inferno,
do purgatório e do céu, ele expressou em caricaturas
espiritualizadas comentários acerca de diversos temas
eminentemente vivos e terrestres. Assim também, se a
religião for apenas um vago espiritualismo que especula
como, por que e onde se dá a vida depois da morte, e
se a caridade que brota dos sentimentos religiosos não
passar de preocupações com o destino da própria
alma, medo do inferno, de um duro purgatório ou de uma
má reencarnação, ela deixará aos
poucos de ser importante à nossa vida e, quando a biotecnologia
chegar aonde pretende, nos tornaremos seus adoradores.
Leonardo Boff propõe aos cristãos uma mudança
de paradigmas: ao invés de nos rivalizarmos na aposta
pelo que será a vida depois da morte, empenhemo-nos em
conjunto pela vida antes da morte; e mais: façamos isso
inspirados na esperança não apenas de uma “vida
após a morte”, mas numa “vida para além
da morte”, que seja ampliação ad aeternum
de todas as possibilidades de realização humana
sobre a terra.
No dia de Finados, muitas pessoas vão aos cemitérios
e prestam homenagem a seus familiares e amigos falecidos. É
feriado no Brasil justamente para isso. É importante
entrar saudavelmente em contato com os sentimentos que envolvem
a morte: saudade, dor, tristeza, angústia, medo. Sem
isso, deixamos de ser verdadeiramente humanos. Dizem isso os
ritos fúnebres religiosos, que sabem que Jesus chorou
ao ver o sepulcro de seu amigo Lázaro, e também
as teorias psicanalíticas, que sabem o quanto pode ser
prejudicial à formação da personalidade
a falta do luto e da consciência de perda.
*Pe. Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
