*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
O jornal A Gazeta, no dia 11
de março, publicou uma matéria sobre o decreto
do bispo de Cachoeiro de Itapemirim que concede indulgências
aos fiéis por ocasião do jubileu dos 50 anos da
diocese. Uma série de erros crassos, do início
ao fim da reportagem, mostra claramente como o senso comum chega
aos meios de comunicação para emitir juízos
preconceituosos e apressados no que diz respeito à doutrina
católica. Fala-se muito facilmente sobre o que é
de difícil compreensão.
O texto se inicia afirmando
que indulgência é o "perdão pleno dos
pecados, já cometidos e que estão por vir, nesta
vida e após a morte". Vamos por parte: indulgência
não é sinônimo de perdão de pecados.
O perdão não é parte da indulgência;
esta é que é um complemento seu, porque é
a liberação da pena devida pelos pecados já
perdoados. Todo pecado gera uma culpa e uma conseqüência,
assim como todo crime gera uma desordem e uma pena. Posso pessoalmente
perdoar a quem bateu no meu carro, mas isso não o dispensa
de pagar o conserto! Uma coisa é o perdão, relativo
à culpa e à ofensa a Deus; outra coisa completamente
diferente é liberar o penitente da pena que ele deveria
pagar pelo pecado. Indulgência é isso! Outra coisa
importante: as indulgências não são referentes
aos pecados que estão por vir! Elas são parciais
ou plenárias porque liberam total ou parcialmente da
pena devida pelos pecados. O texto dá a impressão
de que é possível cometer pecados numa outra vida.
Isso já seria falar em reencarnação. Além
do mais, as indulgências só liberam das penas relativas
a pecados já confessados ao sacerdote; é claro
que os pecados que ainda não foram cometidos não
podem ter sido já absolvidos!
A seguir, a reportagem afirma
que o decreto do bispo "lista uma série de obras
a serem realizadas para obtenção do perdão".
Não! O perdão dos pecados é eminentemente
gratuito e imerecido, obtido pelo sacrifício de Jesus
Cristo, que redimiu de uma vez por todas a humanidade. Não
há nada que alguém possa fazer de bom que lhe
alcance o perdão dos pecados. O perdão é
pura graça! As obras exigidas pela Igreja são
uma forma de administrar a concessão de indulgências.
A autora da reportagem confunde o tempo todo indulgência
com perdão. Mas são duas coisas bem distintas!
Ela ainda diz: "Até
dezembro, católicos do mundo todo terão mais uma
oportunidade de receber a indulgência. Mas a graça
só será concedida a quem visitar o Santuário
de Lourdes, na França". Aqui já tratam como
sinônimos as palavras "indulgência" e
"graça". Essa frase isolada é uma grande
heresia: "a graça só será concedida
a quem visitar...". Graça é de graça,
o nome já diz! Em tempo: uma coisa é a graça,
outra é o perdão e outra ainda é a indulgência.
"Para pastor, quase todas
as religiões direcionam os fiéis para o pagamento
de um preço a Deus. As indulgências, tema que causou
a ruptura entre Lutero e a Igreja Católica, ainda são
alvo de críticas dos evangélicos". Lutero
não protestou contra as indulgências em si, que
são um aspecto da misericórdia de Deus. Ele protestou
– e justamente – contra a venda de indulgências!
A afirmação do pastor é descabida e preconceituosa,
porque fala de algo fora do contexto, que nem ele compreendeu.
Não se trata de preço nem de barganha! A própria
palavra indulgência quer dizer o contrário de tudo
isso: "qualidade de quem é pronto a perdoar, condescendente,
complacente".
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*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
