Por que ser ético é ser risível ?

Gilberto Vieira de Rezende
calcadense@bol.com.br

Perguntaram-me por que parei de escrever contra o senhor Lula. Insisto em afirmar que não sou contra o Lula, mas às idéias e propostas de muito de seus “companheiros”, as quais fazem parte do programa do partido. Na verdade Lula foi o instrumento utilizado pelo PT e, diga-se de passagem, muito bem utilizado, para chegar ao poder. É, portanto, um produto de seu partido, mas que, na presidência, teve que se ajustar à realidade dos fatos. E ai, muitos desses companheiros tiveram que, muito a contragosto, pular fora do barco (muitos foram jogados) para livrar a cara do partido e do presidente. Sabia que a pergunta tinha um certo ar de provocação, pois as pesquisas eleitorais estão ai para provar que o eleitor acredita nas propostas e nas intenções do Lula, e que são diferentes das propostas e intenções do PT.

O que muita gente no PT não quer ver é que, antes de ascender ao poder, o seu discurso de oposição era muito bem aceito por uma ampla camada do eleitorado, em todas as classes sociais e que, agora no poder, o discurso mudou e muito, mas - e ai reside uma grande inquietação para quem se dedica a decifrar a alma eleitor, o povo continua a acreditar e apoiar o governo Lula. A estatização das empresas privatizadas, o não pagamento da dívida externa, a utilização dos superávits das contas do governo em investimento em infra-estrutura, educação e saúde, o espetáculo do crescimento (PIB e emprego) e a ética no trato com a coisa pública era a pedra de toque em todos os discursos da oposição. E agora, senhores, o que está sendo feito na prática? O que vemos é aumento da carga tributária, taxa de crescimento incompatível com as necessidades do país, e os juros fazendo a festa logo na casa de quem mais os petistas combatiam – os banqueiros. Temos, ainda, que conviver com mensalões, sanguessugas, valeriodutos e dinheiro transportado em cuecas. E ninguém sabia de nada! Valha-me de tantos santos de pau oco!

Falava-se mal dos oito anos do governo de Fernando Henrique, mas na área econômica a política implementada pelo Lula seguiu à risca os ensinamentos do antecessor e foi além. Os servidores públicos, por exemplo, puderam sentir o quanto os discursos da oposição eram agradáveis aos ouvidos e, principalmente aos bolsos, pois a perspectiva de ver sanada a escassez de reajuste salarial após aqueles longos 8 anos do mandato de FHC, reacendeu a esperança de dias melhores. Infelizmente a passagem de oposição para situação mudou muito pouco a vexatória situação dos servidores, principalmente daqueles que se encontram nas Instituições Federais de Ensino. Como naquela propaganda o primeiro soutien, o primeiro reajuste, após aqueles longos anos de FHC, a gente nunca esquece – 0,01% de aumento salarial. Está certo que foi infinitamente maior que o dado pelo FHC, mas também não precisava exagerar, não é mesmo! Os sindicatos dos servidores quase foram tomados pelo pessoal do PFL!

Lula disse no último comício no Estado de Pernambuco que “democracia não é só coisa limpa, não”. E neste ponto está sendo coerente, pois apóia e faz campanha para todos os “companheiros” que foram pegos com a “mão na massa” do dinheiro público, como se o que foi feito não fosse nada grave e nem condenável. E aí é que mora o perigo! Quem está no comando de um governo tem que dar o exemplo, cobrando dos comandados seriedade e ética em suas ações. Se ontem, no Estado de São Paulo, votava-se no senhor Maluf porque era político do tipo “rouba-mas-faz”, será que hoje, no Brasil, querem fazer crer ao eleitor que político ético não mata a fome de ninguém? Os políticos sem ética estão à caça do voto redentor. Não seja cúmplice da imoralidade, seja ético. Risível é quem pensa que está nos enganando.

Acho, até, que os petistas da gema estão tão ou mais agoniados com a situação que muitos não petistas, pois estes se vêem na incômoda situação de, mesmo não sendo obrigados a votar, acreditam em quem, comprovadamente, chutou a ética para escanteio e chora choro de crocodilo na propaganda política partidária, jurando inocência, se dizendo vítima de perseguição política e que não sabiam de nada. Haja verniz para tanta cara-de-pau!

Não é possível que, ao exigirmos ética, coerência e probidade de nossos políticos, sejamos taxados de utópicos pela santa(?) ignorância de quem assim nos acusa ou nos quer fazer crer, pois assim procedem, entendem e acreditam que “democracia não é só coisa limpa, não”, vale também outras coisas, como, por exemplo a velha máxima: os fins justificam os meios. Quem sabe, nesse mundo tão cheio de transformações, as Águas de Março, de mestre Tom Jobim, estejam chegando mais cedo para mostrar que é ...
“É pau, é pedra, é o fim do caminho”
“É o fundo do poço
“... É o fim da picada”
“É um resto de mato, na luz do amanhã”
“... É a lama, é a lama”.



 

 

 



 

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