REFLETINDO A SOCIEDADE CALÇADENSE

Gilberto Vieira de Rezende
calcadense@bol.com.br

Caminho no calçadão da praia de Camburi e, do outro lado da avenida, alguém grita: “Juquita, você parou de meter o pau no governo?”. Acenei como quem diz “fazer o que, né?” e continuei a caminhar. Pensei com meus botões: Aquela pergunta foi uma cobrança ou uma provocação? Não vou entrar no mérito da questão, mas aquela observação me fez pensar nos fatos que estão a ocorrer em Calçado. Qual o papel que cada um de nós deve representar na sociedade? Devemos ser a voz dos que temem falar e se omitem? O que será mais danoso para a nossa sociedade: a omissão das autoridades ou o silêncio dos seus cidadãos?

Vejamos o que está ocorrendo em nossa pequena São José do Calçado. Muito provavelmente, o que ocorre na cidade seja o reflexo do que ocorre no país. Nós, enquanto cidadãos, estamos perdendo a capacidade de indignação, a capacidade de protestar contra a corrupção, de dar um basta aos maus políticos, de eleger novas lideranças políticas, de construir uma sociedade mais fraterna e justa, onde a administração pública seja entendida como aquela que atende concretamente às necessidades coletivas, e não como solução para os problemas particulares.

Parodiando “nosso” presidente, pode-se afirmar que nunca antes na história da nossa cidade o seu povo foi tão achincalhado, tão ludibriado, tão relegado a nada, tão desprezado de seus valores morais e éticos e tão menosprezado por seus “representantes” políticos. Se esse pessoal que está maculando a história política do município parasse, por um instante sequer, num lampejo de serenidade e respeito, e relembrasse os políticos que o município já teve, talvez houvesse uma catarse coletiva e todos, numa atitude única, renunciariam aos cargos a que foram eleitos.

A sociedade calçadense sempre depositou muita esperança em seus homens públicos e, até alguns anos passados, essa esperança se traduzia na reeleição da quase totalidade de seus representantes na Câmara Municipal e numa mudança saudável e desejável na ocupação do poder executivo pelas classes políticas existentes na cidade. Ela, a sociedade, nunca foi de reivindicar melhorias, de expor seus anseios e de cobrar as promessas, sempre acreditando que os políticos resolveriam tudo, inclusive seus problemas particulares (e muitas vezes resolviam mesmo!). Mas, num passado não muito remoto, deu-se o início do afastamento (ou seria desencanto?) da sociedade calçadense com a Classe Política local.

Esse afastamento não chegou ao limite da ruptura, mas a sua construção de deu pela falta de percepção da classe política com o que estava ocorrendo com a população de jovens estudantes do município. Diferentemente do que ocorria no passado, quando as crianças e jovens concluíam o ensino fundamental e, em menor número, o ensino médio, e permaneciam, na sua maioria, no município ajudando a família nos trabalhos da fazenda ou no comércio da cidade, a partir da década de 70 o município foi perdendo seus jovens estudantes para cidades maiores, onde as possibilidades de prosseguir nos estudos e melhorar de vida coincidiam com seus anseios.

Durante esse período a classe política de São José do Calçado se viu num processo veloz de envelhecimento, bem como de idéias e propostas, que impedia enxergar o futuro e, consequentemente, propiciar o aparecimento de novas lideranças políticas. A conseqüência disso está representada na atual classe política, composta, na sua maioria, por pessoas culturalmente despreparadas e desprovidas de qualquer senso moral e ético.

Martin Luther King dizia em um célebre discurso:
”O que mais me deixa triste não é a crueldade dos maus, nem a corrupção dos políticos... O que mais me entristece é o silêncio dos bons”. É esse silêncio da sociedade calçadense que angustia, que dói, que deixa em seus filhos, principalmente aqueles que migraram, um sentimento de culpa pela “fuga” e, ao mesmo tempo, a vontade de querer ajudar e não saber como fazê-lo.

Calçado não precisa de salvadores da pátria, nem de heróis sem propostas. A cidade anseia por alguém que olhe para suas montanhas e entenda que elas estão pedindo socorro; que contemple os seus jardins e compreenda que eles sem cor refletem a sociedade muda, sem vontade. A cidade precisa de alguém que, do alto da imponente Pedra do Jaspe, olhe para ela e prometa: Esta é a minha cidade, minha origem, e é por ela que vou lutar.



 

 

 



 

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