Reflexões de um simples eleitor brasileiro

José Tarcizo Teixeira da Silva*
tarcizoteixeira@hotmail.com


Percebo que nesta reta final do segundo turno das eleições, certa inquietação começa a tomar conta das elites conservadoras do nosso país, em decorrência da provável reeleição do presidente Lula, no próximo dia 29, como indicam as últimas pesquisas eleitorais.

Vislumbrando a possibilidade de o povo brasileiro, mais uma vez, optar por uma proposta democrática e popular de governo, essas elites, hoje representadas pela candidatura tucana, procuram, a qualquer custo, retornar ao poder para dar prosseguimento a um modelo nefasto, equivocado e falido, que não deu certo em nenhuma parte do mundo, vide o frustrado governo da primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher (1979-1990). Falo do neoliberalismo que na era FHC causou danos irreparáveis ao Brasil como um todo e às classes trabalhadoras, em particular. Com sua fracassada experiência do “Estado mínimo”, modelo incapaz de manter a segurança interna e externa e prover serviços razoáveis de saúde e educação, FHC deixou como herança maldita uma das maiores concentrações de renda do planeta, agravando ainda mais os desequilíbrios regionais; aumentando a fome e a miséria, principalmente nos estados nordestinos e periferias das grandes cidades.

Além disso, o governo do então festejado sociólogo - que pediu para esquecermos o que de bom tinha escrito no passado – se desfez de grande parte do patrimônio do povo brasileiro, num processo obscuro de privatização, além de deixar o país extremamente endividado e com uma taxa de inflação, medida pela variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 12,5% (em 2002), bastante elevada para os padrões de uma economia moderna.

Fazendo um superficial balanço do governo Lula, em três anos e meio (janeiro de 2003 a junho de 2006), podemos constatar um saldo positivo, se compararmos com os oito anos de governo de FHC (1995-2002). Senão, vejamos:

- “O governo Lula reforçou a soberania do Brasil. Repudiou a Alca, proposta pelo governo Bush; condenou a invasão do Iraque; visitou a cada ano países da África; abriu as portas de nossas universidades a negros e indígenas; estendeu energia elétrica aos mais distantes rincões; manteve a inflação sob controle; impediu a alta do dólar; reduziu os preços dos gêneros de primeira necessidade; ampliou o poder aquisitivo dos mais pobres, através do aumento do salário mínimo” (1).

Sei que muita coisa ainda deve ser feita para construirmos um país mais democrático e desenvolvido. Uma delas, no campo da ética, é o combate implacável e sistemático a todo e qualquer tipo de corrupção (ativa e passiva), em que pese a destacada atuação da Polícia Federal e do Ministério Público, como há muito não se via em governos anteriores. Na economia, precisamos reduzir as taxas de juro para possibilitar um maior crescimento econômico, capaz de gerar mais emprego e renda. É preciso melhorar também a qualidade da educação, com um plano ousado e moderno. Enfim, é preciso continuar construindo as bases necessárias para a um desenvolvimento sustentável, voltado, acima de tudo, para a promoção da dignidade da pessoa humana. Não pode haver desenvolvimento econômico se a maioria da população não estiver bem.

Mais também sei que o que está em jogo nestas eleições é a hipótese de retrocedermos política, social e economicamente e amargarmos profundamente por deixar escapar, de nossas mãos, a possibilidade de continuar caminhando e sonhando com uma nação verdadeiramente soberana e justa, onde não tenham lugar a arrogância, a auto-suficiência e o egoísmo. Onde cada cidadão tenha a mesma oportunidade para construir uma vida digna, livre e participativa, em busca de sua plena cidadania. Uma nação melhor e mais alegre para nossos filhos e netos. Sonhar é preciso! Mesmo que alguém diga que “o sonho acabou”.

Infelizmente vivemos ainda numa sociedade onde o “levar vantagem” é a coisa mais natural do mundo. A “lei do Gerson” nunca esteve tão em vigor como nos dias de hoje. É comum presenciarmos, em nosso dia-a-dia, pessoas dando um “jeitinho brasileiro” para burlar a ética e cometer um tipo ou outro de transgressão. Nas filas, no trânsito, ou em outra situação qualquer. Sem falar nas grandes falcatruas cometidas aqui e ali.

Tenho um amigo que costuma dizer que o mal provém do seguimento da sociedade que ele denomina “classe média maligna”. Fazem parte desta categoria, pessoas que não têm nenhum tipo de preocupação social, incessíveis à prática do bem comum, consumistas e extremamente apegadas aos bens materiais.

Penso, também, de outra forma, que o Brasil em grande parte é formado por pessoas compromissadas com a justiça social, solidárias e voltadas para uma vida honesta, onde os valores morais e éticos são colocados acima de qualquer coisa.
Assim, voltando ao cenário político-eleitoral do momento, não vislumbro um país melhor governado pelas mãos das velhas oligarquias, que nunca estiveram ao lado do povo. Minha preocupação é saber que o Ziraldo pode ter razão quando ele diz que “o que nós nunca conseguiremos é livrarmo-nos da oligarquia brasileira, dos bornhauses da vida, dos jereissatis, dos ACMs, dos ricos paulistas que já tiveram a coragem de confessar: ‘Somos todos corruptos!’”(“Porque vou votar em Lula” - jornal O Tempo, de 7/10/2006).
Para encerrar, gostaria de fazer minhas as palavras de um dos maiores intelectuais do século XX, Bertold Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas...” Por isso, reflita e vote com consciência no próximo dia 29.

José Tarcizo Teixeira da Silva é cidadão brasileiro e cristão católico.

(1) Frei Betto – “Carta Aberta aos eleitores cristãos”

 

 



 

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