RESSUSCITA O QUE?

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


O Fantástico do domingo de páscoa apresentou uma matéria sobre a ressurreição de Jesus. A partir de uma pesquisa que um ex-padre faz sobre narrativas religiosas, afirma-se que as passagens dos evangelhos que versam sobre as "aparições" do ressuscitado aos discípulos são, na verdade, metáforas. John Hick, teólogo católico norte-americano, já havia escrito o seu polêmico livro "A metáfora do Deus encarnado", em que afirma que Jesus "pode ser interpretado" como encarnação de Deus, mas não no sentido literal da palavra... e por aí já se podem tirar conclusões mil...

Alguns meses atrás, uma urna funerária foi descoberta em Jerusalém com dados de uns tais Jesus, José e Maria. O cineasta, sem nem disfarçar suas intenções de reality show, apresentou o que seria a prova de que Jesus não ressuscitou assim, assim, como a Igreja sempre ensinou. A tese - que tem cada vez mais pretensões de síntese - é a seguinte: como o teólogo Renold J. Blank tem ensinado nos seus livros que vêm fazendo carreira nos seminários católicos brasileiros, a ressurreição se dá no instante mesmo da morte e é fenômeno puramente espiritual, sem qualquer ligação séria com o corpo material. Sendo assim, todos devem ficar bem e ninguém precisa pular do telhado como aquele padre-cientista do filme "O Corpo": a Igreja só precisa reconhecer que não pode ser levda ao pé da letra quando ela entoa aleluias, e que a Bíblia é tão real ao narrar Jesus quanto ao falar do sol que parou sobre Josué.

Mas, afinal de contas, qual é mesmo a doutrina da Igreja acerca da ressurreição dos mortos? O que teria acontecido naquela madrugada de domingo no sepulcro novo que José de Arimatéia arranjou para sepultar Jesus de Nazaré? O drama é que a revolução da notícia dada pelas mulheres e confirmada pelos apóstolos e pelos discípulos de Emaús não está disponível para satisfação de uma curiosidade. Aqui o cristianismo está bem em sintonia com a condição pós-moderna: não é possível responder a isso sem fazer "experiência" com esse anúncio. Não é à toa que o primeiro nome da seita dos cristãos era "Caminho". E um caminho não se conhece senão caminhando...

Se a Igreja estivesse disposta a entrar na briga, talvez ela devesse apelar para o "santo sudário", relíquia que a própria NASA estudou e que seria o lençol que envolveu o cadáver de Jesus quando teria acontecido o fenômeno nuclear que o fez transcender as leis da natureza e ganhar outra dimensão... Mas a Igreja sabe que seu papel não é provar para os cientistas que a ressurreição é uma verdade científica; antes, o que ela quer é anunciar às pessoas de hoje que não é a verdade do laboratório que preenche o coração humano de sentido e alegria. Enfim, o que o cristianismo está propondo a cada ano na páscoa não é uma teoria que afronta a inteligência pós-moderna, mas uma experiência com Alguém que só no encontro pessoal se pode perceber se está vivo ou não.


 



 

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