Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
http://julianoribeiro.blogspot.com
O
Papa Bento XVI publicou, no último dia 7 de julho, o
Motu Proprio Summorum Pontificum, em que regulamenta a volta
da forma antiga de se celebrar a Missa no rito latino. Na verdade,
ele explica na carta aos bispos que acompanha o documento, "o
Missal publicado por Paulo VI obviamente é e permanece
a Forma normal – a Forma ordinária – da Liturgia
Eucarística. A última versão do Missale
Romanum, anterior ao Concílio, que foi publicada sob
a autoridade do Papa João XXIII em 1962 e utilizada durante
o Concílio, poderá, por sua vez, ser usada como
Forma extraordinária da Celebração Litúrgica.
Não é apropriado falar destas duas versões
do Missal Romano como se fossem 'dois ritos'. Trata-se, antes,
de um duplo uso do único e mesmo Rito".
O
polêmico teólogo Joseph Ratzinger, em diversos
livros, já havia falado de suas impressões sobre
o tema da reforma litúrgica. Refinado amante da cultura
clássica, Ratzinger nunca aceitou bem a forma como alguns
intérpretes do Concílio Vaticano II impuseram
uma espécie de ditadura da modernização.
Segundo ele, a rapidez com que se tratou de modificar tudo na
Igreja a partir do Concílio soou como se a Igreja fosse
meramente uma empresa "sob nova direção",
que tivesse o poder de trocar um rito milenar por outro com
a mesma mecanicidade com que se aposenta um funcionário
velho da Cúria e se contrata outro, afinado com o "espírito
conciliar".
É
bom que se recorde que Ratzinger foi um dos peritos que trabalharam
nos bastidores do Concílio Vaticano II, e que foi um
dos entusiastas dos movimentos bíblico, litúrgico
e patrístico, que clamavam por mudanças. Ele não
é um saudosista; foi ele quem enviou ao Arcebispo francês
Lefebvre a carta de excomunhão, por não se submeter
à autoridade do Concílio. Porém, ele chama
a atenção para o fato de a reforma litúrgica
ter sido feita com um certo repúdio a coisas importantes
na tradição católica. Hoje em dia parece
um crime cantar na Missa uma parte em latim, soa como conservador
seguir as rubricas litúrgicas sem invencionices. Em muitas
comunidades no Brasil, por exemplo, perderam-se o zelo, a reverência
e o senso do mistério na Missa; há hinos inadequados,
danças exageradas, adaptações mal feitas,
práticas abusivas de inculturação com requinte
de sincretismo religioso, abusos na quantidade de comentários
e gestos corporais, excesso de símbolos e cartazes dão
um tom por demais racionalista, ritos alternativos inventados
se tornam quase lei. Muitas teorias falsamente católicas
foram invadindo as pastorais litúrgicas, tais como o
enfraquecimento do gesto de se ajoelhar para adorar o mistério
eucarístico, e a idéia de que a Missa pode e deve
ser instrumentalizada para se falar de tudo um pouco, com listas
cada vez maiores de avisos, homenagens, mensagens de conscientização
etc.
Com
essa atitude, Bento XVI sabe que está conseguindo atrair
mais críticas a si. Estigmatizado pelo senso comum como
retrógrado, saudosista da cristandade pré-ecumênica
e anti-moderna, o Sumo Pontífice sabe também,
contudo, que tem a missão de preservar com afinco as
duas maiores riquezas da Igreja Católica: a integridade
do "depósito da fé" transmitida pelos
apóstolos e a unidade dos membros do Corpo de Cristo.
Se alguém tem que ser conservador na Igreja, esse alguém
precisa ser o Papa. Agindo na Igreja universal como representante
do Cristo Cabeça deste Corpo, ele está disposto
a entrar na imensa lista de perseguidos, criticados e mesmo
odiados, na lista dos papas que tiveram que conduzir a barca
de Pedro durante as tempestades ao longo da história.
Este início do terceiro milênio talvez seja a maior
tempestade de todas até agora.
