*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
A
decisão que os ministros do Supremo tomarão amanhã
sobre a Lei de Biossegurança (n. 11.105/2005) é
mais importante do que se tem comentado. Não se pode
tratar a questão como sendo apenas mais uma dissonância
entre a velha moral católica e o Estado moderno. Está
em jogo o destino de milhares e milhares de embriões
humanos que "sobraram" das fertilizações
in vitro e foram congelados por questões éticas.
O grande argumento dos que são favoráveis a esta
Lei versa sobre os benefícios que se poderão angariar
com a utilização das células-tronco extraídas
desses embriões.
Mas
vamos aos detalhes, que é onde geralmente mora a verdade:
o tratamento com células-tronco está ainda em
pesquisa; há indícios de que elas operam verdadeiros
"milagres" na reconstituição de tecidos
humanos, mas há outros que mostram sua rejeição
pelo corpo humano, o surgimento de câncer em pesquisados
e a ineficiência das tais células em diversos pacientes.
Além disso, as células-tronco são encontradas
também no cordão umbilical, o que, pela lógica,
torna dispensável a eliminação de embriões
humanos para obtê-las. Mas o grande argumento dos que
são contrários a esta Lei é mesmo a afirmação
da origem da vida humana: se é na fecundação
que se inicia a vida, então eliminar embriões
significaria violar o direito universal à vida, garantido
pela nossa Constituição.
Todos
sabem que essa votação é importante porque
abrirá ou fechará a possibilidade posterior de
expandir seus conceitos para a votação de leis
relativas ao aborto. Ora, se for legal no Brasil a eliminação
de embriões humanos, será certamente fácil
provar a legitimidade de interromper a gravidez até determinado
tempo, senão durante qualquer tempo e por quaisquer motivos.
A
Igreja Católica, como tem feito em todos os países
em que questões bioéticas vão à
pauta, entrou na discussão e tem sido praticamente a
única voz que se levanta no Brasil para contrariar a
aprovação deste artigo 5º da Lei de Biossegurança.
Não é, certamente, coincidência que a Campanha
da Fraternidade deste ano seja dedicada ao tema "defesa
da vida". Mas pesquisa encomendada por um grupo intitulado
"Católicas pelo direito de decidir" –
completamente repudiado pela Igreja – aponta que a grande
maioria dos católicos é, ao contrário do
que prega a doutrina oficial da Igreja, favorável à
utilização de embriões humanos para fins
de pesquisa.
O
problema é que a imensa maioria da população
brasileira está completamente alheia a estes conceitos
científicos; além disso, as perguntas feitas não
pontuam claramente a questão para saber se o cidadão
é a favor ou contra a vida até às últimas
conseqüências; elas inquirem se ele é favorável
às pesquisas científicas que vão beneficiar
milhões de pessoas com deficiência e com diversas
doenças. Dessa forma tendenciosa, é óbvio
que a questão contará com o apoio das massas.
E ainda que fosse assim com clareza nos termos, o fato de uma
escolha ser feita pela maioria do povo não significa
que ela é a correta eticamente. Devem concorrer, para
tão séria decisão política,
as mais diversas áreas do conhecimento e da experiência
humana, inclusive a religião e a moral.
________________________________________________________________________________________
*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
