Direi
o que penso sobre o texto teatral “Os monólogos
da vagina”,da dramaturga americana Eve Ensler.Disse texto
porque não assisti ao espetáculo.Soube que o teatro
onde ele é encenado tem andado lotado.
Boa parte do livro vem de perguntas dirigidas a ”mais
de duzentas mulheres de todas as condições”,que
a autora seleciona.São respostas banais,pouco criativas.Talvez
a autora desse respostas melhores ao seu próprio questionário.Em
matéria de criação literária uma
cabeça ainda é melhor que duas.Imagine se Shakespeare
distribuísse questionários e através deles
construísse os diálogos de Hamlet.
Tudo é muito forçado no livro da srª Eve
Ensler.Ela quer que gostemos de tudo o que existe na mulher.Quer
que as mulheres tenham uma imagem um pouco melhor delas próprias
e falha inteiramente.Pode até arrancar risos duma platéia.Mas
é só.Aliás,arrancar risos num mundo desse,é
até muito.Portanto,a peça não é
de todo ruim.
Mas não é por aí,dona Ensler,que as mulheres
subirão de status em nossa sociedade,se é que
ainda precisam.Fossem os homens considerados o “segundo
sexo”,de nada adiantaria fazer um elogio brincalhão,ou
assim pretendido,ao pênis e esperar que o conceito deles
melhorasse por conta disso.Nada a ver.Também não
pioraria.Seria inócuo.Pelo menos para a geração
de homens nascidos nas décadas de 50 e 60,a que pertenço.Não
me atrevo a falar das gerações posteriores.
Não é por aí,repito.O que pode haver de
bom,seja no homem,seja na mulher,está em seus pensamentos,em
seus sentimentos,atitudes,ações e em tudo que
fica da pele para fora ou naquela região impalpável
e invisível,mas a mais ativa em nós,em que tudo
de mais importante se desenrola, e não na pele para dentro
ou nos meandros obscuros dos vários orifícios
dessa nossa miserável carcaça .
Vamos a um exemplo das perguntas e respostas:”__A vagina
tem cheiro de quê?”Resposta:”Deus”.Quer
ver uma resposta mais crua e inteligente?Tome,de graça
também:ela cheira a cola Araldite.Tenha a santa paciência!Não
é a minha possível religiosidade que se escandaliza,é
a total falta de sentido da coisa.Afinal,qual poderia ser o
cheiro de Deus?Se a gente tem a maior dificuldade em sequer
querer entendê-lo,qual não seria a ginástica
mental para entender o seu cheiro...E depois disso ainda compara-lo
a uma vagina__é demais,dona Ensler,a gente não
pode ficar botando em livro qualquer asneira que uma débil
mental diz.Até pra poesia existe algum critério.Mesmo
o poeta de inspiração mais fácil lê
o que produziu,trabalha a sua obra,mexe aqui,mexi ali,exclui
aquilo que não lhe parece bom e até tenta melhorar
o que lhe parece apenas bom,almejando o ótimo.
Quem quiser respostas muito mais interessantes,inteligentes,criativas,procure
o relatório de Kinsey e os livros do casal Masters&Johnson,ou
até em outros mais antigos,como os de Havelock Ellis,o
gênio inglês que desafiou a moral vitoriana escrevendo
sobre assuntos relacionados ao amor e sexualidade,com originalidade
e rigor científico.Estou falando de cientistas,os quais
não buscavam poesia e expressividade em suas pesquisas
e sim fria objetividade.Mesmo assim,superam de longe o livro
da srª Ensler,que se diz dramaturga e,assim, tem o dever
de conferir o máximo de expressividade às suas
criações sem perda da sua inteligibilidade.
Das mulheres entrevistadas por Ensler,só uma,uma “
mulher de negócios”parece ter algum senso de ridículo,quando
“diz que estava muito ocupada para ver sua vagina”.Mas
essa senhora,aposto como a srª Ensler deve ter achado reprimida,antiquada,subjugada
pelo poder masculino.Não é bem assim,apesar de
não a conhecer.Acho que ela só não quer
perder seu tempo nem vendo sua vagina nem seu ânus.No
lugar dela,eu teria dado outra resposta.Esta: já que
a senhora insiste,mostre-me a sua.Ver a minha requer espelho
e coluna vertebral em boa forma.Não tenho nem uma coisa
nem outra.Depois,a sua não será lá muito
diferente da minha,convenhamos.
Uma pessoa razoável quer é que esses apetrechos,vagina
e ânus, funcionem a contento e nada mais.Quando enguiçam,médico
neles.
Mas a srª Ensler quer ser excêntrica ou meramente
chamativa no título e no conteúdo para fazer dim-dim,pretextando
fazer um bem à emancipação feminina.Conta
a bizarra ocupação de um grupo de mulheres que
se reúnem numa tal de Workshop da Vagina_uma voyeurística
surubada vaginal __ e lá,deitadas em colchões
e munidas de espelho,ficam a examinar as suas vaginas e chegam
a conclusões bem estrambóticas,que a orientadora
delas denomina de Espanto Vaginal.Uma diz:”Eu simplesmente
queria continuar deitada ali sobre o meu colchão,examinando
a minha vagina para sempre”.Outra compara a vagina ao
Grand Canyon.A srª Ensler só se esqueceu de mencionar
qual a droga que elas injetavam ou fungavam.
Acho a vagina feia.__Alto lá!Não infira que,ao
contrário,acho um pênis bonito.É mais feioso
ainda e não estou falando dele aqui,nem falarei sobre
ele no futuro__Deus me livre!.Todos os nossos órgãos
internos são feios de doer,o que não significa
que eles não sejam quase um milagre de perfeição
em seu funcionamento.Gosto de saborear um bom prato mas nem
por isso vou sair por aí enaltecendo a beleza do meu
aparelho gastrointestinal.
A vagina parece uma coisa rasgada com canivete cego,é
cheia de rebarbas mal-soldadas como uma peça fabricada
em país de terceiro mundo ou uma contrafação
paraguaia;vista de lado,uma boca de velha desdentada e que ainda
por cima sofreu derrame e está sempre meio torta.E mais
feia ela fica quando está pra escoar bebê,antes,durante,e
logo depois.Sim,tenho visto muitas nestes três estados.A
internet tem vídeos sobre qualquer coisa que você
puder imaginar.Parto é visão de campo de batalha,seja
ele o mais sangrento,ou,no mínimo,uma cena de dificultosa
extração de dente de antanho,ou ainda de uma operação
para a extirpação de um tumor.
Até se compreende que os antigos descrevam a raça
humana como culpada por um pecado original,com boa parte dessa
culpa sobre os ombros de Eva.Uma tentativa de explicação.Por
que um Deus iria querer que uma vida viesse ao mundo em tamanha
dor,entre urina e fezes?Parece um castigo e,quando há
alguém a ser castigado,supõe-se que houve culpa.De
qualquer maneira,esse tipo de explicação não
faz sentido__que Deus criasse uma Eva menos abelhuda...
Como não faz sentido,mas em grau menor,que algumas mulheres
prefiram parto natural à cesariana,a menos que sejam
masoquistas de carteirinha.Elas deviam ver em que se transforma
uma vagina em trabalho de parto.Um orifício grotesco,que
parece não conhecer limites para abrir-se.Como alguém
pode ver poesia nisso eu sinceramente não sei.E veja.Se
mesmo assim, não houver a dilatação suficiente,a
parteira simplesmente pega uma tesoura e corta as bordas da
vagina, como quem acerta uma folha de cartolina, para que ela
aumente e deixe passar o rebento (palavra sugestiva,não?).Ela
tem que aparar com a palma da mão o jato de sangue que
jorra.E mesmo assim a coisa adianta pouco.Lá fica a parturiente
a berrar como um porco sendo morto.Então,quando o bebê
começa o seu calvário e mostra a cabeça,
é compelido a atravessar esse túnel,tem seu corpo
torcido e retorcido,é apertado de todos os modos,puxado
daqui e de lá pela parteira,até que por fim chega
a esse mundo louco,deixando para trás um enorme buraco
escuro,uma bocarra de velha praguejadora,arquejante de dor,que
vomita tripinhas,mucos,viscosidades,como quem protesta e diz
que a deixem quieta,até que lhe ponham uma espécie
de babador e lhe façam curativos e costuras.
E repare que toquei de leve sobre partos relativamente fáceis.Já
pensou quando o bebê está atravessado ou quando
são muitos?Já imaginou a carnificina ou o que
pode ter sido a sorte de uma mulher com um bebê entalado
no ventre,que não ia nem pra trás nem pra frente,antes
do invento da anestesia? Se nós,homens,estivéssemos
na pele da mulher,há muito já teríamos
patenteado um útero artificial.
Com tudo isso,não me admiro diante de pesquisas que nos
mostram um alto índice de mulheres que não sentem
orgasmo ou que apontam para um número ainda mais alarmante
de desordens e bloqueios na esfera sexual.Com efeito,para nós,homens,uma
transa é sempre uma brincadeira prazerosa,mas para a
mulher pode ser a ante-sala da morte ou do tormento moral.Gravidez
é sempre de risco e o aborto uma questão preocupante.
Mas voltemos ao livro da srª Ensler.Há pontos positivos
nele,de cunho social,que levam à reflexão sobre
a realidade da mulher no mundo.Por exemplo,ela cita estatísticas:”500
mil mulheres são estupradas todos os anos nos Estados
Unidos;100 milhões de mulheres tiveram a genitália
mutilada no mundo inteiro”.Essas mutilações
são praticadas sobretudo na África,onde o clitóris
é removido com navalha ou caco de vidro,alegando-se para
isso motivos religiosos e/ou de controle do apetite sexual.Sempre
os malditos motivos religiosos por trás de tudo que é
vileza neste mundo sórdido.Por que encobrir nosso ódio
descomunal com os véus da religião?Sem dúvida
é mais fácil cortar fora um clitóris do
que dominar nossos impulsos sexuais.
É comovente a parte que trata dos sentimentos das mulheres
da Bósnia que foram vítimas de crimes sexuais,
e o poema final tem lá a sua beleza.Mas o resto,bem que
poderia ser excluído do livro.Não faria falta
alguma.Será mesmo que as mulheres “adoram falar
sobre suas vaginas”?Será que “ficam muito
entusiasmadas,principalmente porque,antes,nunca ninguém
lhes pedira para falar sobre o assunto”?Nós,homens,não
temos nenhum entusiasmo assim para falar do pênis próprio
e absolutamente nenhum do alheio.Não por desprezo ao
órgão,evidentemente,e sim porque quando relatamos
nossas aventuras sexuais nós não vemos o pênis
como uma entidade separada do seu dono.Agimos como um indivíduo
inteiro,e só muito ocasionalmente ou quando a história
o exige nos referimos ao nosso pênis.Já a ênfase
que a srª Ensler quer dar à vagina pode ser um tiro
pela culatra.Pode levar muitos homens a pensarem que a mulher
é só vagina,só aparelho reprodutivo e nada
mais.Aliás,ela o diz explicitamente:”A vagina(...)
é o lugar mais essencial do seu corpo”,pág.
21.Para mim era o cérebro,mas se é assim,então
tinha razão o filósofo quando escreveu:”As
mulheres existem somente para a propagação da
espécie,e seu destino se reduz a isso”.
Mas a mulher,as que sentem orgasmo,devem sentir um prazer muito
maior do que o que nós,homens,sentimos.Não é
à toa que falam de orgasmos múltiplos.Ou gostam
de bebê de um modo que nunca chegaremos a avaliar.Ou são
submissas a seus maridos de uma maneira que nenhum cachorro
jamais o foi.Pois só assim podemos entender que elas
continuem a parir até hoje(menos filho per capita,atualmente.A
populosa Terra agradece).
Depois de uns dois ou três partos naturais,será
que a mulher ainda acha que sua vagina vai voltar ao normal?Certamente
que não!Estará arrombada para sempre.Claro que
sei que as adeptas do parto natural enumeram uma série
de razões em seu benefício.Mas pergunto:será
que tudo isso compensa uma união conjugal desfeita?Não
admira que seu marido irá buscar outra.Certa vez presenciei
uma cena cômica.Uma funcionária de minha repartição
chegou ao serviço aos prantos.Todo mundo a cercou querendo
saber o motivo__e ela um túmulo de lágrimas.Depois
que todos voltaram a trabalhar e uma só mulher ficou
a conversar com ela foi que soubemos a causa de tanta aflição:
o marido a tinha chamado de “muito larga”.
Mas quando estamos subjugados pela magnífica quimera
do amor__como é divino estar dentro dela,como é
divino senti-la comprimir a gente,sugando a gente.E como é
divino olhar a face de nossa parceira,o fundo de seus olhos...Mas
isso já é outra história.Embora tenha algo
a ver com vagina,está muito além da vagina.
Para terminar.Conversando com uma amiga muito inteligente sobre
este artigo que pretendia escrever,ouvi dela o seguinte:As mulheres,(...)
” no lugar do cérebro,colocaram um cofre para seus
guardados mais preciosos, ou seja, os bens materiais.No lugar
do coração, apenas um clitóris, onde os
sentimentos estão estritamente relacionados à
sensibilidade nessa área provocada . E aí, após
percorrerem esses dois "órgãos", cada
ser humano passa a ser mensurado, tomado no seu devido "valor".
Teresópolis,8
de agosto de 2006.