Sobre “Os monólogos da vagina” e do que mais nela couber


Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br

Direi o que penso sobre o texto teatral “Os monólogos da vagina”,da dramaturga americana Eve Ensler.Disse texto porque não assisti ao espetáculo.Soube que o teatro onde ele é encenado tem andado lotado.

Boa parte do livro vem de perguntas dirigidas a ”mais de duzentas mulheres de todas as condições”,que a autora seleciona.São respostas banais,pouco criativas.Talvez a autora desse respostas melhores ao seu próprio questionário.Em matéria de criação literária uma cabeça ainda é melhor que duas.Imagine se Shakespeare distribuísse questionários e através deles construísse os diálogos de Hamlet.

Tudo é muito forçado no livro da srª Eve Ensler.Ela quer que gostemos de tudo o que existe na mulher.Quer que as mulheres tenham uma imagem um pouco melhor delas próprias e falha inteiramente.Pode até arrancar risos duma platéia.Mas é só.Aliás,arrancar risos num mundo desse,é até muito.Portanto,a peça não é de todo ruim.

Mas não é por aí,dona Ensler,que as mulheres subirão de status em nossa sociedade,se é que ainda precisam.Fossem os homens considerados o “segundo sexo”,de nada adiantaria fazer um elogio brincalhão,ou assim pretendido,ao pênis e esperar que o conceito deles melhorasse por conta disso.Nada a ver.Também não pioraria.Seria inócuo.Pelo menos para a geração de homens nascidos nas décadas de 50 e 60,a que pertenço.Não me atrevo a falar das gerações posteriores.

Não é por aí,repito.O que pode haver de bom,seja no homem,seja na mulher,está em seus pensamentos,em seus sentimentos,atitudes,ações e em tudo que fica da pele para fora ou naquela região impalpável e invisível,mas a mais ativa em nós,em que tudo de mais importante se desenrola, e não na pele para dentro ou nos meandros obscuros dos vários orifícios dessa nossa miserável carcaça .

Vamos a um exemplo das perguntas e respostas:”__A vagina tem cheiro de quê?”Resposta:”Deus”.Quer ver uma resposta mais crua e inteligente?Tome,de graça também:ela cheira a cola Araldite.Tenha a santa paciência!Não é a minha possível religiosidade que se escandaliza,é a total falta de sentido da coisa.Afinal,qual poderia ser o cheiro de Deus?Se a gente tem a maior dificuldade em sequer querer entendê-lo,qual não seria a ginástica mental para entender o seu cheiro...E depois disso ainda compara-lo a uma vagina__é demais,dona Ensler,a gente não pode ficar botando em livro qualquer asneira que uma débil mental diz.Até pra poesia existe algum critério.Mesmo o poeta de inspiração mais fácil lê o que produziu,trabalha a sua obra,mexe aqui,mexi ali,exclui aquilo que não lhe parece bom e até tenta melhorar o que lhe parece apenas bom,almejando o ótimo.

Quem quiser respostas muito mais interessantes,inteligentes,criativas,procure o relatório de Kinsey e os livros do casal Masters&Johnson,ou até em outros mais antigos,como os de Havelock Ellis,o gênio inglês que desafiou a moral vitoriana escrevendo sobre assuntos relacionados ao amor e sexualidade,com originalidade e rigor científico.Estou falando de cientistas,os quais não buscavam poesia e expressividade em suas pesquisas e sim fria objetividade.Mesmo assim,superam de longe o livro da srª Ensler,que se diz dramaturga e,assim, tem o dever de conferir o máximo de expressividade às suas criações sem perda da sua inteligibilidade.

Das mulheres entrevistadas por Ensler,só uma,uma “ mulher de negócios”parece ter algum senso de ridículo,quando “diz que estava muito ocupada para ver sua vagina”.Mas essa senhora,aposto como a srª Ensler deve ter achado reprimida,antiquada,subjugada pelo poder masculino.Não é bem assim,apesar de não a conhecer.Acho que ela só não quer perder seu tempo nem vendo sua vagina nem seu ânus.No lugar dela,eu teria dado outra resposta.Esta: já que a senhora insiste,mostre-me a sua.Ver a minha requer espelho e coluna vertebral em boa forma.Não tenho nem uma coisa nem outra.Depois,a sua não será lá muito diferente da minha,convenhamos.

Uma pessoa razoável quer é que esses apetrechos,vagina e ânus, funcionem a contento e nada mais.Quando enguiçam,médico neles.

Mas a srª Ensler quer ser excêntrica ou meramente chamativa no título e no conteúdo para fazer dim-dim,pretextando fazer um bem à emancipação feminina.Conta a bizarra ocupação de um grupo de mulheres que se reúnem numa tal de Workshop da Vagina_uma voyeurística surubada vaginal __ e lá,deitadas em colchões e munidas de espelho,ficam a examinar as suas vaginas e chegam a conclusões bem estrambóticas,que a orientadora delas denomina de Espanto Vaginal.Uma diz:”Eu simplesmente queria continuar deitada ali sobre o meu colchão,examinando a minha vagina para sempre”.Outra compara a vagina ao Grand Canyon.A srª Ensler só se esqueceu de mencionar qual a droga que elas injetavam ou fungavam.
Acho a vagina feia.__Alto lá!Não infira que,ao contrário,acho um pênis bonito.É mais feioso ainda e não estou falando dele aqui,nem falarei sobre ele no futuro__Deus me livre!.Todos os nossos órgãos internos são feios de doer,o que não significa que eles não sejam quase um milagre de perfeição em seu funcionamento.Gosto de saborear um bom prato mas nem por isso vou sair por aí enaltecendo a beleza do meu aparelho gastrointestinal.

A vagina parece uma coisa rasgada com canivete cego,é cheia de rebarbas mal-soldadas como uma peça fabricada em país de terceiro mundo ou uma contrafação paraguaia;vista de lado,uma boca de velha desdentada e que ainda por cima sofreu derrame e está sempre meio torta.E mais feia ela fica quando está pra escoar bebê,antes,durante,e logo depois.Sim,tenho visto muitas nestes três estados.A internet tem vídeos sobre qualquer coisa que você puder imaginar.Parto é visão de campo de batalha,seja ele o mais sangrento,ou,no mínimo,uma cena de dificultosa extração de dente de antanho,ou ainda de uma operação para a extirpação de um tumor.

Até se compreende que os antigos descrevam a raça humana como culpada por um pecado original,com boa parte dessa culpa sobre os ombros de Eva.Uma tentativa de explicação.Por que um Deus iria querer que uma vida viesse ao mundo em tamanha dor,entre urina e fezes?Parece um castigo e,quando há alguém a ser castigado,supõe-se que houve culpa.De qualquer maneira,esse tipo de explicação não faz sentido__que Deus criasse uma Eva menos abelhuda...

Como não faz sentido,mas em grau menor,que algumas mulheres prefiram parto natural à cesariana,a menos que sejam masoquistas de carteirinha.Elas deviam ver em que se transforma uma vagina em trabalho de parto.Um orifício grotesco,que parece não conhecer limites para abrir-se.Como alguém pode ver poesia nisso eu sinceramente não sei.E veja.Se mesmo assim, não houver a dilatação suficiente,a parteira simplesmente pega uma tesoura e corta as bordas da vagina, como quem acerta uma folha de cartolina, para que ela aumente e deixe passar o rebento (palavra sugestiva,não?).Ela tem que aparar com a palma da mão o jato de sangue que jorra.E mesmo assim a coisa adianta pouco.Lá fica a parturiente a berrar como um porco sendo morto.Então,quando o bebê começa o seu calvário e mostra a cabeça, é compelido a atravessar esse túnel,tem seu corpo torcido e retorcido,é apertado de todos os modos,puxado daqui e de lá pela parteira,até que por fim chega a esse mundo louco,deixando para trás um enorme buraco escuro,uma bocarra de velha praguejadora,arquejante de dor,que vomita tripinhas,mucos,viscosidades,como quem protesta e diz que a deixem quieta,até que lhe ponham uma espécie de babador e lhe façam curativos e costuras.

E repare que toquei de leve sobre partos relativamente fáceis.Já pensou quando o bebê está atravessado ou quando são muitos?Já imaginou a carnificina ou o que pode ter sido a sorte de uma mulher com um bebê entalado no ventre,que não ia nem pra trás nem pra frente,antes do invento da anestesia? Se nós,homens,estivéssemos na pele da mulher,há muito já teríamos patenteado um útero artificial.

Com tudo isso,não me admiro diante de pesquisas que nos mostram um alto índice de mulheres que não sentem orgasmo ou que apontam para um número ainda mais alarmante de desordens e bloqueios na esfera sexual.Com efeito,para nós,homens,uma transa é sempre uma brincadeira prazerosa,mas para a mulher pode ser a ante-sala da morte ou do tormento moral.Gravidez é sempre de risco e o aborto uma questão preocupante.

Mas voltemos ao livro da srª Ensler.Há pontos positivos nele,de cunho social,que levam à reflexão sobre a realidade da mulher no mundo.Por exemplo,ela cita estatísticas:”500 mil mulheres são estupradas todos os anos nos Estados Unidos;100 milhões de mulheres tiveram a genitália mutilada no mundo inteiro”.Essas mutilações são praticadas sobretudo na África,onde o clitóris é removido com navalha ou caco de vidro,alegando-se para isso motivos religiosos e/ou de controle do apetite sexual.Sempre os malditos motivos religiosos por trás de tudo que é vileza neste mundo sórdido.Por que encobrir nosso ódio descomunal com os véus da religião?Sem dúvida é mais fácil cortar fora um clitóris do que dominar nossos impulsos sexuais.
É comovente a parte que trata dos sentimentos das mulheres da Bósnia que foram vítimas de crimes sexuais, e o poema final tem lá a sua beleza.Mas o resto,bem que poderia ser excluído do livro.Não faria falta alguma.Será mesmo que as mulheres “adoram falar sobre suas vaginas”?Será que “ficam muito entusiasmadas,principalmente porque,antes,nunca ninguém lhes pedira para falar sobre o assunto”?Nós,homens,não temos nenhum entusiasmo assim para falar do pênis próprio e absolutamente nenhum do alheio.Não por desprezo ao órgão,evidentemente,e sim porque quando relatamos nossas aventuras sexuais nós não vemos o pênis como uma entidade separada do seu dono.Agimos como um indivíduo inteiro,e só muito ocasionalmente ou quando a história o exige nos referimos ao nosso pênis.Já a ênfase que a srª Ensler quer dar à vagina pode ser um tiro pela culatra.Pode levar muitos homens a pensarem que a mulher é só vagina,só aparelho reprodutivo e nada mais.Aliás,ela o diz explicitamente:”A vagina(...) é o lugar mais essencial do seu corpo”,pág. 21.Para mim era o cérebro,mas se é assim,então tinha razão o filósofo quando escreveu:”As mulheres existem somente para a propagação da espécie,e seu destino se reduz a isso”.

Mas a mulher,as que sentem orgasmo,devem sentir um prazer muito maior do que o que nós,homens,sentimos.Não é à toa que falam de orgasmos múltiplos.Ou gostam de bebê de um modo que nunca chegaremos a avaliar.Ou são submissas a seus maridos de uma maneira que nenhum cachorro jamais o foi.Pois só assim podemos entender que elas continuem a parir até hoje(menos filho per capita,atualmente.A populosa Terra agradece).

Depois de uns dois ou três partos naturais,será que a mulher ainda acha que sua vagina vai voltar ao normal?Certamente que não!Estará arrombada para sempre.Claro que sei que as adeptas do parto natural enumeram uma série de razões em seu benefício.Mas pergunto:será que tudo isso compensa uma união conjugal desfeita?Não admira que seu marido irá buscar outra.Certa vez presenciei uma cena cômica.Uma funcionária de minha repartição chegou ao serviço aos prantos.Todo mundo a cercou querendo saber o motivo__e ela um túmulo de lágrimas.Depois que todos voltaram a trabalhar e uma só mulher ficou a conversar com ela foi que soubemos a causa de tanta aflição: o marido a tinha chamado de “muito larga”.

Mas quando estamos subjugados pela magnífica quimera do amor__como é divino estar dentro dela,como é divino senti-la comprimir a gente,sugando a gente.E como é divino olhar a face de nossa parceira,o fundo de seus olhos...Mas isso já é outra história.Embora tenha algo a ver com vagina,está muito além da vagina.
Para terminar.Conversando com uma amiga muito inteligente sobre este artigo que pretendia escrever,ouvi dela o seguinte:As mulheres,(...) ” no lugar do cérebro,colocaram um cofre para seus guardados mais preciosos, ou seja, os bens materiais.No lugar do coração, apenas um clitóris, onde os sentimentos estão estritamente relacionados à sensibilidade nessa área provocada . E aí, após percorrerem esses dois "órgãos", cada ser humano passa a ser mensurado, tomado no seu devido "valor".

Teresópolis,8 de agosto de 2006.


 



 

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