*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Um
homossexual e uma prostituta entram em sua frente na fila da
comunhão. Na outra fila, aquele deputado acusado de participar
do esquema do mensalão ou dos Sanguessugas (nessa época
eles costumam aparecer...). Por qual situação
sua alma piedosa mais enfaticamente brada o zelus domus tuae
comedit me – o zelo por tua casa me consome (Sl 68,10)?
Infelizmente, boa parte dos católicos se escandalizaria
apenas ao ver comungarem os que transgrediram a moral sexual
da Igreja; outra parte, atenta ao conselho do pe. Marcelo Rossi,
talvez até se decidisse votar naquele deputado, que ao
menos é um corrupto católico.
A moral sexual da Igreja deve ser acreditada e observada, é
claro. Mas a própria moral católica reconhece
que os pecados não podem ser colocados no mesmo nível
de gravidade. Aqueles dois que vão à sua frente
na fila incorrem no sexto mandamento da lei de Deus, ou seja,
atentam contra a castidade, enquanto aquele deputado católico
(mais católico do que cristão), é réu
do primeiro mandamento (amou seus próprios interesses
sobre todas as coisas), do quinto (colaborou com a morte ao
desviar verba pública), do sétimo (pois roubou),
do oitavo (pois mente) e do décimo (cobiçou as
coisas alheias, públicas).
O nosso povo religioso parece ter desenvolvido uma apatia crônica,
uma indiferença mórbida diante da corrupção.
Escandaliza-se com a desordem sexual e deixa passar batida a
imoralidade civil; não admite o descontrole da libido
alheia, mas faz vistas grossas à maior das indecências,
que é a política. Afinal, há uma desproporcionalidade
absurda em nossa forma de enxergar o pecado: quantas vezes já
levamos ao confessionário os maus pensamentos e os prazeres
da carne e quantas vezes já confessamos não termos
exigido nota fiscal do que compramos? Ou será que a sonegação
de impostos, com todas as conseqüências sociais que
provoca, não causa prejuízo maior aos planos de
Deus do que uma queda no propósito da castidade?
Na verdade, o povo nunca possuiu verdadeiramente a prerrogativa
de ser a voz de Deus. Nem o povo de Deus! Deus se dirige a Israel
várias vezes chamando-o de “povo de cabeça
dura” (Ex 32,9; 33,3.5; 34,9). Na âmbito da cidadania
a coisa é pior. Entre nós, o chamado “jeitinho
brasileiro” denuncia a corrupção como marca
registrada. E não culpemos a nossa história por
isso! Não dá mais para dizer que nossa cultura
está fadadamente maculada por uma colonização
mal feita, que importou levas e mais levas de transgressores
da lei para cumprir pena longe da limpeza européia; ou
ainda por termos sido colônia de exploração
e não de povoamento, como a América do Norte,
nossa pretensa mater et magistra, de quem – ela pensa
– não passamos de um quintal. Isso é um
pecado coletivo. Com ele, todos vamos ter que nos ver diante
do tribunal de Cristo, o mesmo que chamou Herodes de raposa
(cf. Lc 13,31-32) mas que afirmou que as prostitutas precederiam
os hipócritas da religião no reino dos céus
(cf. Mt 21,31).
*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
