*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Esse
escândalo envolvendo militares do Exército no jogo
de gangues rivais do tráfico de drogas, no Rio de Janeiro,
preocupa não somente porque nos mostra com mais clareza
que a sociedade parece um barco desgovernado e completamente
inseguro, mas sobretudo porque revela a que pouca conta se chegou
a ter a vida humana entre nós. Três jovens são
entregues à pena de morte no submundo da favela carioca,
como moedas no câmbio da vingança de militares
prepotentes que colocam o crime do "desacato à autoridade"
no topo da lista das gravidades, como se desonrar uma farda
fosse um ato mais execrável do que usá-la tão
mal. E o pior de tudo: os militares assassinos são tão
jovens quanto aqueles meninos jogados às garras dos inimigos.
Gente cheia de planos e de potenciais, com uma carreira inteira
pela frente, de repente se vê sentada no banco dos réus
– ainda que em privilegiadíssimo banco de réus
– por ter cometido tamanha monstruosidade.
Tudo na polêmica soa mal: o projeto Cimento Social, proposto
por um senador da república, intenta melhorar a estrutura
dos barracos no morro; mas esse senador é bispo licenciado
de uma igreja pentecostal e há denúncias de que
ele vendo dando preferência a membros de sua congregação
ao contratar operários da construção civil
(o que vai fazer desaparecer entre eles o desemprego e isso
será atribuído, em rede de TV, à fé
em ebulição que há em suas assembléias).
Os ânimos dos líderes na favela estão exaltados
porque a presença do Estado dessa forma é mal
recebida; afinal, por que chegar só agora em ano eleitoral?
o que adianta embelezar os barracos se não há
um projeto de humanização e urbanização
da favela? Então, o Estado tem que enviar o seu exército
para proteger a comunidade dela mesma e conseguir implementar
as obras que ele, o Estado, definiu serem importantes. Mas esse
mesmo exército, quando convém, recorre aos inimigos
de seus inimigos para fazer justiça com as próprias
mãos (é claro que são membros isolados
do Exército, que não significam a corporação
inteira, mas que, ao mesmo tempo, maculam a imagem do todo...).
Aquela
favela é favela porque todas essas instituições
envolvidas entraram mal ali, na hora errada, do jeito errado.
O nome da favela é o melhor que poderia ser: Morro da
Providência. Se os moradores não podem confiar
no governo que faz as obras, na religião que inspirou
as obras nem no exército que protege as obras, só
podem mesmo contar com a providência divina e, no máximo,
com aqueles traficantes "politicamente corretos",
que mantêm no morro um governo paralelo, esse sim, capaz
de garantir qualidade de vida a todos.
Com
o perdão do trocadilho, esse incidente talvez sirva para
provar que o problema da favela não se resolve tomando
"providência", mas sim elaborando "previdência",
isto é, medidas capazes de prevenir o mal no futuro.
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*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida tem 27 anos é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
