AS ENCHENTES DO RIO ITABAPOANA  - I

                                                                                                                 Aluízio Teixeira*

As enchentes anuais que vem ocorrendo em nossa região atingiram um ponto máximo no  final do ano e principio de janeiro. Felizmente não ocorreram vitimas fatais, mas os prejuízos financeiros  desestabilizaram um grande número de pessoas. Não é nossa intenção, em um espaço restrito deste jornal, abordar em toda a sua extensão, um tema tão complexo como este. Tentaremos sintetizar o assunto  de tal forma que as pessoas possam compreender as causas destas inundações periódicas. Alguns conceitos e proposições que vamos emitir são frutos de nossa vivência, por muitos anos, na área de recursos hídricos e meio ambiente  no Brasil e no exterior.As causas deste fenômeno são um somatório das continuadas intervenções humanas desastrosas no meio ambiente em que vivemos. Podemos afirmar que os desmatamentos indiscriminados, que vem ocorrendo em toda a Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana ao longo dos anos para dar lugar às pastagens de grandes proprietários de terras, são uns dos principais fatores responsáveis por  esta situação.Vamos imaginar dois cenários distintos dentro da Bacia do Itabapoana. O primeiro, aquele que existia, por exemplo, por ocasião do descobrimento do Brasil. O Rio Itabapoana, em toda a sua extensão desde às suas nascentes na Serra do Caparaó até  à sua foz na Barra do Itabapoana, era completamente vegetado por densas florestas. Neste tempo as chuvas que caiam na região,  de baixa ou  alta intensidade ou mesmo  as “trombas d´água”, encontravam uma região densamente vegetada, eram interceptadas  pelas árvores que amorteciam o impacto das gotas de água  sobre o solo, outra parte escorria  pelos troncos, atingindo um solo com uma cobertura de matéria orgânica em decomposição( folhas, flores e galhos) e isto favorecia a infiltração da água para as camadas mais profundas do solo, formando desta forma, um verdadeiro depósito subterrâneo de água. Assim, somente uma pequena parcela das chuvas era transformada em escoamento superficial que rapidamente atingia os afluentes e o próprio Itabapoana , mas que não eram suficiente para causar cheias de proporções alarmantes. Todos os cursos d´água da Bacia do Itabapoana fluíam, em maior proporção, graças ao escoamento subterrâneo do lençol freático(escoamento lento e gradual) e também, das inúmeras nascentes que haviam, garantindo desta forma, o caráter de perenidade ao Rio Itabapoana. O cenário atual é exatamente o inverso de tudo isto. A   redução drástica da infiltração da água nos solos e o aumento violento dos escoamentos superficiais (enxurradas) causados pelo desmatamento, inverteram totalmente os afluxos de água, ou seja, hoje em dia, os aportes de água aos rios se dão muito mais pelas enxurradas do que pelo fluxo das água subterrâneas, ocasionado desta forma os piques de cheias instantâneas. Um outro fator complementar que ao nosso ver vem contribuindo para agravar ainda mais, são as   arações de “morro abaixo”  realizadas por tratores no preparo dos solos para o plantio das pastagens, criando condições ideais para o escoamento rápido  das águas de chuvas para os rios. Como consequencia também  das enxurradas, tem-se  ao longo dos anos um assoreamento contínuo da  calha do Rio Itabapoana pelo arrastamento das partículas constituintes  dos solos. Sabemos que um solo é constituído das frações de argila, silte e areia. Pois bem, o silte e a argila(responsáveis pela cor barrenta), são solúveis na água e arrastadas por estas. Entretanto a areia, bem mais pesada, deposita-se no fundo, causando  o assoreamento do leito do rio, diminuindo por conseguinte, a sua área de escoamento, forçando as águas das cheias a se espraiarem pelas margens..A agressão ao meio ambiente pelo homem não se faz sentir somente no meio rural. As intervenções realizadas no meio urbano vem também  contribuindo e muito para as inundações. Ao nosso ver, salvo estudos mais aprofundados, podemos destacar os seguintes fatores:
  • Ocupação da calha dos rios – encontramos hoje construções, praticamente, dentro dos rios, o que causa obstruções ao escoamento das águas;
  • Ocupação humana em morros desprotegidos;
  • Lixo jogado diretamente nos rios – entulhos da construção civil,lixo domestico e plásticos, sofás, cadeiras, geladeiras,pneus velhos, latarias de automóveis, etc;
  • Impermeabilização crescente das ruas e fundos de quintais – é o caso, por exemplo, das pavimentações das ruas e avenidas e a concretagem  de áreas residenciais. Antigamente tinha-se  as ruas em terra (infiltração total das águas de chuvas), a evolução se deu para o calçamento com paralelepípedo (infiltração parcial através das fendas) e finalmente o asfaltamento (impermeabilização total, infiltração zero e escoamento total das águas de chuvas  destas superfícies, atingindo rapidamente as calhas dos rios.
Em última análise, verificamos que tanto no meio rural como também no meio urbano, o homem está contribuindo cada vez mais para que as águas não permaneçam na terra como um verdadeiro reservatório subterrâneo  para a perenização dos rios. Com a redução das infiltrações e o aumento dos escoamentos superficiais, a água está rapidamente passando por nós( e irá faltar no futuro) e juntamente com o derretimento dos gelos das calotas polares, causado pelo aquecimento global, irão aumentar   rapidamente  os níveis médios dos mares, criando com certeza outros problemas. Este é um triste legado( fruto dos nossos desgovernos) e que provavelmemte deixaremos para nossos descendentes. Este  diagnóstico simples da situação atual da Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana,é baseado apenas nas observações e em  nossa vivência na região.O  Projeto Managé, órgão gestor para os estudos e projetos na Bacia, até a presente data, decorridos mais de 14 anos  de sua implantação, não realizou ainda nem o Diagnóstico da Situação Atual que é um dos primeiros documentos técnicos que iriam embasar  as propostas de intervenções em toda a Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana . É lamentável. Esperamos que pelo menos possam apresentar os Estudos dos Impactos Ambientais (vamos aguardar) para a usina hidrelétrica que está sendo construída na Gabiroba, por que esta sim, poderá agravar ainda mais os problemas das enchentes entre nós,  pelo refluxo das águas represadas.

No próximo número, apresentaremos algumas medidas para o controle e mitigação dos efeitos das inundações em nossa região.

*Professor aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e cidadão bonjesuense do norte.





 

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