A inglesa Susan Boyle é uma mulher de 47 anos, solteira, obesa, natural de uma cidadezinha do interior, que usava seu vestido de senhora britânica tradicional quando se apresentou num festival de calouros em Londres. Com um sorriso simpático e um jeito desengonçado, a senhorita Boyle caminhou com desenvoltura no palco, diante de uma plateia de milhares de pessoas e câmeras. Parecia, a princípio, um espetáculo de comédia, daqueles em que, por aqui, pessoas humildes do interior se apresentam no Faustão ou no Gugu para arrancar a risada piedosa do telespectador.
Os próprios jurados ironizavam a idade e a aparência da cantora, já que ela destoava visivelmente do padrão internacional de beleza. Ela não tinha o cabelo artificial, a magreza forçada nem o nariz torneado que a grande maioria das cantoras de sucesso tem. Ela não tinha, enfim, nada adequado para aquele lugar; nem o peso, nem o rosto, nem a postura, nem o vestuário.
Logo no primeiro verso da canção que ela entoou, as câmeras registraram a impressionante reação dos jurados e do público: espanto, completa surpresa e admiração com a maravilhosa voz que se apresentava. Ela tinha afinação, técnica vocal, capacidade respiratória, harmonia, numa palavra, talento, o que os critérios antigos de avaliação musical mais costumavam exigir.
Foi, na verdade, um grande susto. Se os produtores daquele programa de TV não tivessem conseguido lucrar tanto com aquela aparição inesperada, teriam sentido vergonha de toda a parafernália que têm nos camarins. Se os centros que ditam as tendências da moda captassem o vigor e a beleza outra que passavam por aquela britânica quarentona, mandariam suas top-models parar com seus regimes escravocratas. O sucesso daquela apresentação foi imediato. Em todo o mundo, muito se falou de Susan Boyle; logo nas primeiras semanas, o portal Youtube reproduziu o webvídeo da cantora mais de 100 milhões de vezes; ela foi entrevistada nos maiores programas de TV da Europa e dos Estados Unidos da América.
Susan Boyle tornou-se um ídolo. Maldito capitalismo, que aprendeu desde cedo a fazer – como escreveu Fernando Sabino – “da queda um passo de dança”. O que foi, na verdade, uma grande contestação dos padrões do mercado artístico e, mais, um tapa bem dado no preconceito “Barbie way of life”, apareceu na mídia como mais um espetáculo que rendeu. Temo que Boyle agora emagreça, faça uma plástica, aplique botox ou frequente mais o salão do que a aula de canto. Afinal, a pressão é grande.
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*Juliano Ribeiro Almeida, 28, é padre católico e trabalha em Cachoeiro de Itapemirim.